Balança comercial do petróleo reflete projeto de desindustrialização

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 24 de junho de 2022

O saldo da balança comercial do setor de petróleo e derivados desabou entre fevereiro e maio deste ano, encolhendo de US$ 2,8 bilhões para minguados US$ 88,0 milhões, num tombo de quase 97,0%, segundo o boletim Indicador de Comércio Exterior (Icomex) do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV). Coordenado pela economista Lia Valls Pereira, o indicador mostra um avanço de 23,9% para as exportações do setor, na comparação com maio do ano passado, diante de um salto de 109% observado para as importações em igual período.

Em volume, no entanto, as vendas externas de petróleo e derivados sofreram baixa de 19,4% ainda em relação a maio de 2021, acumulando recuo de 5,1% na relação entre os cinco meses iniciais deste ano e o mesmo intervalo do ano passado. Os preços médios dos bens vendidos lá fora pela indústria de óleo e gás subiram expressivamente, mas numa intensidade menor do que aquela observada para as importações do setor, refletindo a compra de produtos de maior valor agregado, como gasolina, diesel.

Na exportação, os embarques de óleo bruto assumem participação mais relevante, num reflexo do aumento expressivo da produção a partir das reservas do pré-sal. Os sinais emitidos pela balança comercial nesta área sugerem um projeto de desindustrialização do setor, com redução do processamento doméstico do petróleo bruto, aumento das exportações do óleo não processado, acompanhado, não por coincidência, de forte aumento das importações de produtos processados, de valor agregado mais elevado, o que contribui para a transferência de empregos e renda para a cadeia de petróleo e gás instalada fora do País.

Os preços médios subiram 57,8% neste ano, tomando o período entre janeiro e maio e comparando com os mesmos meses de 2021, com recuo de 5,1% nos volumes embarcados para fora do País. Em maio, especificamente, o Icomex registra alta de 53,8% nos preços e tombo de 19,4% nos volumes exportados. Na ponta das importações, preços e volumes subiram, pela ordem, 81,2% e 13,3% nos cinco meses iniciais deste ano frente a igual período de 2021. O salto nos preços foi ainda mais impressionante na comparação com maio do ano passado, surgindo alta de 92,8%, enquanto os volumes importados experimentaram elevação de 6,8%.

Desperdício do pré-sal

Os números indicam o que parece ser uma perda importante nos termos de troca do setor, o que significa dizer que o País teria que fazer um esforço muito maior para exportar e fazer frente aos custos crescentes das importações. Esse encarecimento relativo poderia trazer maior enriquecimento para o País, caso houvesse aqui uma política industrial para potencializar o processamento e refino do petróleo bruto e sua conversão em produtos de valor relativo mais alto. Na realidade, o País está transferindo para fora parte das riquezas proporcionadas pelo pré-sal.

Balanço

  • De volta ao Icomex, o boletim mostra que a redução do saldo comercial brasileiro ao longo dos meses iniciais deste ano está relacionado a um aumento das importações em volume e também como resultado da elevação dos preços médios. Segundo o relatório, “o saldo da balança comercial foi de US$ 4,9 bilhões em maio, o que representou uma queda de US$ 3,6 bilhões, em relação a maio de 2021. No acumulado do ano até maio, a superávit passou de US$ 26,6 bilhões, em 2021, para US$ 25,4 bilhões, em 2022”.
  • Os dados acumulados até maio indicam que a perda de fôlego da balança comercial (exportações menos importações) iniciou-se mais recentemente, sugerindo uma aceleração da tendência já observada nos meses anteriores.
  • Na média geral, assim como o movimento observado na cadeia de petróleo e gás, os preços das importações subiram mais acentuadamente do que os valores médios dos bens exportados pelo País. Na comparação entre os cinco primeiros meses deste ano e igual período do ano passado, os preços das exportações subiram 20,8% enquanto, nas importações, a valorização foi muito mais intensa, atingindo 32,8%. Em maio, frente ao mesmo mês de 2021, os preços registraram valorização de 22,5% na ponta das exportações, com os bens importados subindo 35,2%.
  • Os volumes importados e exportados não apresentam evolução expressiva. Pelo contrário. No primeiro caso, houve recuo de 2,1% no acumulado até maio, diante dos cinco primeiros meses de 2021, e uma variação de apenas 0,6% para as exportações na mesma comparação.
  • O boletim lembra que, até maio, as previsões para este ano apontavam para um saldo comercial superior aos US$ 61,2 bilhões registrados nos 12 meses do ano passado, “impulsionado pelo aumento nos preços das commodities e o menor crescimento econômico do país, o que reduz a demanda por importações”.
  • Na sequência, a análise acrescenta que “o aumento nos preços das commodities permanece, mas, o efeito tem sido maior sobre as importações”, com redução para o volume exportado. “Será que devemos esperar uma trajetória de aumentos no volume importado?”, questiona o Icomex.
  • O próprio boletim acrescenta, em seguida, que ainda seria prematuro concluir que estaria em cena, neste momento, uma “mudança no rumo das importações”, sugerindo que os importadores, sobretudo de petróleo e de seus derivados e ainda de adubos e fertilizantes, “podem ter antecipado suas compras” como estratégia defensiva adotada por “receio da conjuntura internacional e com as turbulências que vem ocorrendo no mercado de petróleo do Brasil”.
  • Mais uma vez comparado ao mesmo mês do ano passado, os termos de troca (relação entre preços de exportações e importações) sofreram baixa de 9,4% porque as importações ficaram proporcionalmente mais caras do que as exportações.
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