BC rende-se à realidade e estima avanço de apenas 1,0% para 2022

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 17 de dezembro de 2021

Aos 90 minutos do jogo, quando até as emas do Palácio do Alvorada sabiam que a economia não cresceria neste ano tudo aquilo que a equipe econômica vinha alardeando, o Banco Central (BC) decidiu rever suas previsões para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2021 e, no mesmo despacho, aproveitou para rebaixar as projeções para o próximo ano. A estimativa para este ano foi reduzida de 4,7% para 4,4%, lembrando que as apostas da equipe econômica vinham indicando, lá atrás, um avanço por volta de 5,0%. “A economia brasileira está bombando”, dizia um certo ministro da Economia, dias antes de mudar o discurso para dizer que jamais havia prometido que o PIB continuaria a crescer em “V” (quer dizer, uma forte queda seguida de um crescimento igualmente vigoroso).

A distância entre as duas declarações é a mesma entre a realidade e a fantasia. A questão é que o ministro dos mercados diz o que quer, quando quer, sem o menor compromisso em relação aos dados da realidade. O relatório trimestral da inflação, divulgado ontem pelo BC, trouxe ainda uma nova estimativa para 2022, com o crescimento esperado saindo de 2,1% para apenas 1,0% – vale dizer, considerado o aumento da população, a economia não deverá sair do lugar, com a renda per capita enfrentando sério risco de encolher novamente.

Por questões estatísticas, estimava-se, no primeiro semestre, que a variação observada pelo PIB no final de 2020 deixaria uma “herança” em torno de 3,6% para este ano. Isso significa que, mesmo se a economia entrasse em estagnação ao longo de 2021, as estatísticas oficiais ainda anotariam uma variação de 3,6% nos 12 meses deste ano. Claro, seria um efeito meramente estatístico, sem impactos de fato para o lado real da economia, para as empresas, para a produção industrial, para a renda das famílias e para o emprego. Considerando esse fator, o avanço de 4,4% projetado pelo BC embutiria, na prática, um empurrão de apenas 0,8% para o PIB neste ano, em que pese a tendência de estagnação e baixa registrada no final do período.

Atividade em baixa

A previsão do BC, que veio até ligeiramente mais pessimista do que a mais recente aposta dos mercados (4,65%), não poderia mesmo deixar de ser revista a esta altura, considerando-se os resultados apresentados pelo Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), que tenta simular o funcionamento do PIB, antecipando seus resultados mensalmente. Na saída de setembro para outubro, o índice recuou 0,4% e caiu 1,48% em relação a outubro do ano passado, acumulando redução de 0,94% no trimestre encerrado em outubro deste ano, frente aos mesmos três meses do ano passado. O indicador dessazonalizado, ou seja, com exclusão de fatores que se repetem em determinados períodos do ano e acabam distorcendo a comparação, acumula retração de 3,14% entre fevereiro e outubro. O IBC-Br sinaliza, por sua vez, uma variação de apenas 4,19% nos 12 meses até outubro deste ano.

Balanço

  • O BC refez também os cálculos para medir a massa salarial ampliada disponível, considerando os dados das contas nacionais para a renda nacional bruta disponível das famílias, que inclui rendimentos do trabalho, rendas de aluguel e demais rendas proporcionadas pela propriedade de imóveis e benefícios sociais, incluindo mesmo o pagamento do auxílio emergencial pelo governo.
  • A massa salarial ampliada, como não consegue capturar o auxílio emergencial, em função da metodologia adotada pelo BC, havia apresentado queda real, descontada a inflação, de 6,8% no ano passado, com recuo de 0,6% no acumulado entre janeiro e setembro deste ano, na comparação com os primeiros nove meses do ano passado.
  • A renda nacional disponível das famílias, ao contrário, avançou 1,7% em função do salto de 327,7% na renda proveniente de benefícios de assistência social (ajudando a compensar as perdas de 8,9% registradas pelas rendas do trabalho). O cenário alterou-se neste ano, com a redução de 64,2% nos benefícios de assistência social (item que inclui o auxílio emergencial, o que demonstra o efeito real da redução no seu valor e ainda o menor alcance do auxílio neste ano). Na soma de todos os itens, a renda nacional bruta encolheu 4,8%. A variação de 3,1% registrada na remuneração do trabalho até setembro deste ano mal compensou a perda de quase 9,0% sofrida no ano anterior.
  • Literalmente, falta renda para acionar a demanda e colocar a economia em pleno funcionamento, numa tendência de corrosão obviamente agravada pela escalada da inflação ao longo do ano. Escalada que o BC quer tentar segurar utilizando a ferramenta única de política econômica concebida por uma equipe econômica. A extinção de direitos assegurada pela reforma trabalhista e a redução de pensões e aposentadorias, desde a reforma previdenciária, ajudaram a torpedear a renda das famílias. Entre janeiro e setembro deste ano, apenas como referência, os benefícios da seguridade social destinados às famílias registraram queda real de 2,8% diante do mesmo período de 2020.
  • A alta dos juros, além de encarecer o crédito e os investimentos, já vem contribuindo para elevar a dívida os governos. As taxas de juros incidentes sobre a dívida bruta do governo geral (que inclui União, Estados e prefeituras) saíram de 5,7% para 7,0% ao ano entre fevereiro e outubro deste ano, fazendo a despesa líquida com juros do setor público saltar 52,1%, saindo de R$ 39,7 bilhões na média mensal do primeiro trimestre deste ano para R$ 60,4 bilhões em outubro. Essa conta aumentou 23,0% entre os dez meses iniciais de 2020 e igual intervalo deste ano, elevando-se de R$ 286,5 bilhões para R$ 352,4 bilhões, segundo a Instituição Fiscal Independente (IFI), ligada ao Senado.
  • Esse movimento de alta dos juros, aponta a IFI, “acaba anulando parte dos ganhos observados no resultado primário do setor público (receita menos despesas, excluídos gastos com juros), em parte explicados pelo movimento das receitas – influenciado pela inflação, pelas commodities e pelo câmbio – e em parte pelo forte resultado superavitário dos Estados e municípios”. Mais claramente, juros mais altos criam rombos nas contas do setor público, contabilizados como “resultado nominal”, mas desconsiderado na maioria das análises produzidas pela corrente predominante do pensamento econômico.
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