Preços das commodities oscilam, mas mantêm tendência de baixa

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 16 de dezembro de 2021

Entre altos e baixos registrados nos últimos meses, os preços do petróleo, da soja e do milho, num indicativo do comportamento das commodities no mercado internacional, têm sustentado tendência de acomodação e mesmo baixa no segundo semestre, o que poderá ajudar a arrefecer as pressões altistas em todo o mundo. Aqui dentro, os efeitos devem seguir numa direção semelhante, mas com uma grande ressalva: a turbulência recorrente do câmbio poderá anular o impacto deflacionário anotado lá fora. Sentado sobre reservas de quase US$ 370,0 bilhões, o Banco Central (BC) continua sancionando as fortes oscilações do dólar, num liberalismo de fancaria adotado para favorecer os donos do dinheiro.

A cotação do petróleo voltou a subir na primeira quinzena deste mês, com altas em torno de 8,0% a 9,0% frente a 1º de dezembro, com os preços chegando a US$ 74,32 e US$ 71,47 respectivamente para o Brent e WTI (West Texas Intermediate). Apesar do aumento recente, vale anotar que aqueles preços se encontravam, até ontem, em torno de 14% abaixo dos níveis registrados em 26 de outubro, quando o barril havia alcançado, naquela mesma ordem, US$ 86,40 e US$ 83,36. A curva dos preços num horizonte um pouco mais largo, mesmo com as elevações recentes, continuava apontando para baixo. A depender de como a economia global reagirá à nova variante do Sars-CoV-2, a probabilidade de que a tendência de retração se mantenha não pode ser desconsiderada.

No caso da soja e do milho, os preços influenciam não apenas nos derivados (farelo, óleo e outros), mas também os custos da ração animal, com impacto sobre os preços das carnes. Em Chicago, os preços apresentaram alguma elevação nas duas primeiras semanas deste ano, com altas de 2,5% para o milho e de 2,65% para a soja. Novamente, olhando os valores registrados em maio, quando as cotações atingiram seu ponto mais alto no ano, até aqui, soja e milho acumulam baixas de praticamente 24,0%. O milho desabou de 772,75 para 586,40 centavos de dólar por bushel entre 7 de maio e 15 de dezembro, com a soja saindo de 1.660,50 para 1.260,75 centavos de dólar desde 12 de maio até a primeira quinzena de dezembro.

Dólar, o foco de incerteza

Na média dos primeiros 15 dias deste mês, segundo dados do BC, a cotação do dólar chegou a R$ 5,63, subindo 1,34% em relação aos valores médios registrados em novembro (perto de R$ 5,56). Sempre considerando a média de cada período, o dólar chegou neste mês aos níveis mais elevados desde março passado. A partir de junho, quando o dólar chegou a cair para R$ 5,03, os preços deste mês apontam salto de 11,9%. O mercado do dólar continua sendo um grande foco de incertezas. Ontem, a cotação superou levemente a faixa de R$ 5,70, numa variação de 2,7% frente ao valor médio registrado em novembro e num salto de praticamente 13,4% desde junho.

Balanço

  • As taxas de inflação vêm sinalizam algum arrefecimento, mas nada que signifique um alívio de fato para a carestia, que tem sido mais inclemente para as faixas de renda muito baixa, como têm mostrado os levantamentos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). A questão, quando se trata de discutir o tema, é que as taxas de inflação não medem o nível dos preços, mas sua variação ao longo de determinados períodos (em geral, períodos de 30 dias).
  • Sob esse ângulo, os preços dos combustíveis, do botijão de gás e da energia foram os principais responsáveis pela escalada inflacionária recente, como esta colune já mostrou. O corte recentemente anunciado pela Petrobrás paraos preços da gasolina pagos pelas refinarias tende a frear aquele movimento, mas modestamente, até pela dimensão da redução anunciada frente ao tamanho das altas anteriores. Para relembrar, a gasolina acumulava aumento de 50,78% nos 12 meses terminados em novembro deste ano.
  • O Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S), calculado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), passou de 0,81% nas quatro semanas finalizadas em 7 de novembro para 1,18% em 7 de dezembro (considerando igualmente um período de 30 dias), saindo de 1,08% nas quatro semanas de novembro.
  • Mantinha-se, até uma tendência de aceleração da taxa. Mas o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) que compõe o chamado Índice Geral de Preços-10 (IGP-10), medido entre 11 de novembro e 10 dezembro, mostrou uma ligeira inflexão ao alcançar 1,08% (ou seja, retornando aos níveis observados em novembro para o IPC-S). Os dois índices seguem a mesma metodologia, o que permite concluir que o ritmo dos preços teria anotado alguma desaceleração entre os dias 7 e 10 deste mês.
  • Na comparação entre os principais grupos do IPC-S e do IPC, os preços dos alimentos, do segmento de educação, leitura e recreação (onde entram os preços das passagens aéreas) e transportes passaram a subir relativamente menos, saindo, naquela mesma ordem, de 0,65% para 0,59%, de 2,76% para 2,61% e de 2,92% para 2,49%. Claro, como as oscilações são observadas depois da vírgula, qualquer mudança de comportamento nos próximos dias poderá trazer índice novamente para cima. Por enquanto, considerando que as tarifas de energia não sofreram novos reajustes e que os postos de combustíveis tendem a repassar a baixa nos preços da gasolina ao longo das próximas semanas, a perspectiva é ainda de algum refluxo nos indicadores da inflação.
  • A tendência pode ser reforçada, ainda, pela redução dos preços no atacado, influenciada pela queda nos preços das matérias primas brutas. Nenhum desses movimentos, no entanto, guarda a menor relação com o salto dos juros, que deverá sim trazer impactos sobre a atividade econômica, especialmente no começo do próximo ano, num estrago amplificado pelo desempenho já medíocre da economia.
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