Coluna

Caixa de empresas abertas cresceu mais do que dívida no ano passado

Publicado por: Sheyla Sousa | Postado em: 16 de abril de 2020

Os
indicadores do endividamento das empresas de capital aberto haviam apresentado
alguma melhora ao longo do ano passado, segundo aponta levantamento realizado
pela consultoria Economática, reunindo dados de balanço de 275 empresas de
capital aberto (e excluindo a Petrobrás da amostra). Embora a dívida tenha
crescido a um ritmo anual de dois dígitos, os recursos disponíveis no caixa
daquelas avançaram com intensidade levemente maior, trazendo alguma folga pelo
menos na virada do ano e reduzindo a pressão das dívidas de curto prazo sobre
os balanços.

A
dívida bruta total chegou a crescer 11,5% em valores nominais (quer dizer, sem
atualização com base na inflação do período) entre 2018 e 2019, saindo de R$
898,625 bilhões para R$ 1,002 trilhão (valor ligeiramente inferior ao saldo da
dívida registrado no terceiro trimestre de 2019, próximo a R$ 1,013 trilhão).
Como porcentagem do Produto Interno Bruto (PIB), a relação avançou de 13,0%
para 13,81%. A dívida líquida, descontados os recursos em caixa, avançou de R$
591,520 bilhões (8,59% do PIB) para R$ 658,253 bilhões (9,07%), num aumento de
11,28%. O caixa da amostragem definida pela Economática, no entanto, cresceu
praticamente 12,0% entre um ano e o seguinte, saindo de R$ 307,105 bilhões para
R$ 343,607 bilhões.

A
variação superou o incremento de 9,91% registrado pelas dívidas de curto prazo,
que subiram de R$ 149,152 bilhões para R$ 163,930 bilhões, o que trouxe ligeira
melhoria na relação entre os compromissos a vencer nos 12 meses seguintes e o
volume de recursos no caixa das empresas. As disponibilidades foram suficientes
para pagar pouco mais de duas vezes toda a dívida de curto prazo em dezembro de
2018, relação que ficou ligeiramente acima disso no final do ano seguinte,
saindo de 2,06 para 2,10 vezes. Não tinha sido lá grande coisa, mas já havia
ocorrido alguma melhoria, especialmente se for considerado o baixo crescimento
da economia no período. A queda nos juros básicos, ainda que seus reflexos
sobre o custo do dinheiro tomado pelas empresas tenham ocorrido com grande
defasagem, provavelmente deve ter cumprido algum papel para desafogar as
obrigações financeiras das empresas.

Curto prazo

Entre
o final de 2018 e março do ano passado, a relação entre dívida de curto prazo e
a dívida bruta total havia avançado de 16,6% para 17,44%. Mas o índice veio
recuando trimestre a trimestre desde então e, no final de 2019, a dívida de
curto prazo correspondia a 16,36% do endividamento total. A indústria de bens
eletrônicos registrava a situação mais desconfortável neste quesito, já que os
compromissos a vencer em 12 meses, que haviam crescido 23,4% desde dezembro de
2018, respondiam por 52,9% do endividamento total. Na sequência, a dívida de
curto prazo da indústria de máquinas industriais representava 46,4% da dívida
total. Mas com uma diferença relevante na comparação com o setor de
eletrônicos. Enquanto no primeiro caso aquele percentual havia sido mais
elevado em 2018 (53,9%), no segundo registrou-se uma piora desde o final de
2018 (49,2%).

Balanço

·  
Em
números absolutos, cinco setores contribuíram com praticamente 80% para o
aumento da dívida bruta das 275 empresas analisadas. Pela ordem, o setor de
papel e celulose registrou alta de 58,3% em sua dívida total (sem descontar o
dinheiro em caixa), que passou de R$ 56,018 bilhões para R$ 88,652 bilhões
(incremento de R$ 32,634 bilhões, o que representou 31,6% do incremento registrado
pelo saldo total da dívida de toda a amostra).

·  
Comércio,
serviços de transporte, telecomunicações a indústria de petróleo e gás (sem a
Petrobrás) surgem na sequência, com altas de 40,5%, 14,2%, 40,2% e de 27,3% no
endividamento bruto (sempre comparando os exercícios de 2019 e 2018).

·  
Em
termos proporcionais, o crescimento mais expressivo veio do setor de
informações, com alta de 154,1%. Mas a dívida, em valores absolutos, é menos
significante do que a dos setores acima (R$ 592,0 milhões em dezembro de 2019,
frente a R$ 233,0 milhões um ano antes).

·  
Para
comparar, a dívida da indústria de petróleo e gás e do setor de
telecomunicações alcançava R$ 45,656 bilhões e R$ 34,355 bilhões,
respectivamente, e sua variação explicou, na mesma ordem, 9,49% e 9,54% do
aumento da dívida total das empresas de capital aberto.

·  
Na
geração de caixa, o melhor desempenho proporcional veio do setor de minerais
não metálicos (a despeito do desempenho muito aquém do razoável da indústria da
construção, principal mercado daquele setor). As empresas do setor
experimentaram um salto de 151,3% no volume de recursos disponíveis em caixa,
para um total de R$ 387,0 milhões. O setor elétrico acumulou R$ 54,818 bilhões,
valor 23,7% maior do que em 2018.

·  
Entre
os maiores, as empresas do setor de serviços de transporte apresentaram alta de
54,9% em relação a 2018, com o caixa saindo de R$ 14,657 bilhões para R$ 22,699
bilhões.

·  
Estudo
realizado no início da crise pelo consultor EinarRivero, da Economática, e o
professor Carlos AntonioRocca, da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da
USP (Fipe), mostrava que em torno de 51% das empresas de capital aberto dispunham
de caixa suficiente para suportar três meses de paralisação do faturamento.
Mesmo sem receita, considera Rivero, essas empresas conseguiriam renegociar as
dívidas a vencer naquele período, jogando seu vencimento para mais à frente.

·  
No
entanto, 23,3% das empresas chegariam ao final dos primeiros 30 dias já com o
caixa no vermelho. Em 60 dias, perto de 37,1% das empresas passariam a
enfrentar o mesmo problema. Transcorridos 90 dias de paralisia no faturamento,
praticamente 48,6% delas já teriam esgotado os recursos em caixa.

 

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