Campo acumula recordes e também desafios ambientais

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 13 de novembro de 2021

O agronegócio deverá ampliar, em 2022, a coleção de recordes acumulados nos anos anteriores, antecipando-se uma safra histórica, próxima de 289,8 milhões de toneladas, na segunda estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para o ciclo 2021/22 –ou algo mais perto de 270,7 milhões de toneladas na projeção inicial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ambas divulgadas ao longo da semana que se encerra. Além da produção histórica, o setor deverá registrar mais um período de alta para as vendas externas e margens no azul, embora mais apertadas. Será também um ano de desafios trazidos pela alta dos custos, pelo desarranjo causado pela pandemia nas cadeias globais de suprimento, riscos geopolíticos e, sobretudo, pela necessidade de enfrentar passivos ambientais históricos, numa fase de demandas crescentes nesta área.

As emissões de gases do efeito estufa na agropecuária, que chegaram a recuar discretamente entre 2016 e 2018, de 562,78 milhões para 560,08 milhões de toneladas de CO2 equivalente, voltaram a crescer no ano passado, atingindo 577,02 milhões de toneladas, subindo 2,5% em relação a 2019. Na década passada, as emissões totais no setor aumentaram em torno de 7,0% segundo acompanhamento do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (Seeg), iniciativa do Observatório do Clima. Os dados foram divulgados às vésperas da 26ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP26), em Glasgow, na Escócia, realizada entre os dias 31 de outubro e 12 de novembro, causando incômodo na cúpula do clima e mais desgastes para a imagem brasileira no exterior.

Mirando os cenários adiante e lembrando que o Brasil responde por 48% do desmatamento global, Jorge Hargrave, diretor e colíder para a área de mudanças climáticas do Boston Consulting Group (BCG), afirma o setor, assim como toda a economia, terá que avançar na busca de soluções, “porque não haverá volta atrás. A pressão de consumidores e investidores (por práticas sustentáveis) só tende a aumentar”. Na visão de Arthur Ramos, consultor sênior do BCG, a necessidade de adaptação vai gerar oportunidades equivalentes ao tamanho dos desafios à frente. “Quem se posicionar primeiro vai aproveitar essas oportunidades, mas quem ficar parado vai ser atropelado”, adverte.Hargrave pondera que é preciso diferenciar cada um dos players da cadeia do agronegócio, “alguns com práticas condenáveis em termos ambientais e outros com práticas sustentáveis”, que buscam esse tipo de solução, mais amigável ambientalmente, como forma de se diferenciar no mercado. De toda forma, se é preciso criar caminhos para evitar “grandes catástrofes”, observa ainda, será necessário que as “cadeias mais responsáveis pelas emissões enfrentem transformações profundas em hábitos e práticas”.

Ganhos de produtividade

A safra de grãos a ser colhida em 2022, segundo a Conab, tende a colocar no mercado perto de 37,4 milhões de toneladas a mais do que no ciclo 2019/20, crescendo 14,8%, sob liderança do milho. A produção do grão deverá subir para 116,7 milhões de toneladas, num acréscimo de 29,7 milhões de toneladas, atrás apenas da colheita esperada para a soja, na faixa de 142,0milhões de toneladas (cerca de 3,4% mais do que no ano agrícola anterior).Em uma década, a produção total de grãos terá crescido em torno de 74,4%, com avanço de 23,5% para a produtividade, que tende a ser recorde na safra em curso, atingindo 4.033 quilos por hectare. A área plantada, que havia alcançado 50,885 milhões de hectares na safra 2011/12, deverá cobrir, no ciclo atual, perto de 71,845 milhões de hectares, crescendo 41,2% no período. Mantida a produtividade registrada em 2011/12, por volta de 3.266 quilos por hectare, a agricultura precisaria usar um espaço 23,5% maior em 2021/22, recorrendo a mais 16,9 milhões de hectares elevando a área total cultivada para algo em torno de 88,7 milhões de hectares – o que significaria pressões ambientais proporcionalmente maiores.

Balanço

  • Ao contrário do ano passado, as chuvas começaram a cair mais cedo e vem alternando períodos de sol e de precipitação, num ritmo que tem permitido avançar o plantio de forma mais acelerada, constatam Cleiton Gauer, superintendente do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea), e Guilherme Bellotti, gerente de consultoria agro do Itaú BBA. A perspectiva de chuvas acima das médias históricas em Mato Grosso, que produz um terço do milho brasileiro e quase 27% da soja, pode contribuir para resultados ainda melhores do que os esperados para o Estado, afirma Gauer. Até outubro, 83% da área destinada à soja já haviam sido semeados, diante de 53,9% no ano passado, o que permite antever que o plantio do milho deverá ocorrer dentro da janela agronômica recomendada, antecipa ele.
  • Embora boa parte dos produtores tenha contratado a compra de insumos para esta safra ainda no final de 2020 e os preços continuem favoráveis, em termos nominais, a alta dos custos afetará os resultados líquidos com a venda da produção. Segundo o Imea, o custo operacional efetivo das lavouras na safra 2021/22, ponderado de acordo com o ritmo de compra dos insumos, subiu 23,2% para a soja transgênica e em torno de 22,0% para as lavouras de milho de alta tecnologia, saltando 45,2% nos plantios de algodão.
  • Os custos vão “apertar um pouco mais as margens, mas estas continuarão em níveis históricos muito bons”, aponta Bellotti. Considerando a soja a ser colhida no sudeste de Mato Grosso, região que inclui Primavera do Leste Rondonópolis e outros polos agrícolas, as projeções do banco sugerem margens na média de R$ 4.686 por hectare, em torno de 4,4% mais elevadas do que em 2020/21. Na mesma região, o milho deverá render R$ 2.346 por hectare colhido, numa reação de 21,4% frente ao ciclo passado, combinando preços mais elevados e produtividade de volta ao normal após o tombo em 2020/21. Para o algodão, espera-se estabilidade virtual, com um resultado por hectare próximo de R$ 11,8 mil. “A safra 2022/23 inda deverá oferecer margens positivas, mas significativamente mais baixas”, adianta Bellotti.
  • “Os mapas climáticos sugerem, na média, condições razoáveis na safra de verão, apesar do fenômeno La Niña entre o 4º trimestre de 2021 e o 1º trimestre de 2022, mas de menor intensidade”, comenta FelippeSerigati, do Centro de Agronegócios da Fundação Getúlio Vargas (GV Agro). A rentabilidade, de uma forma geral, acrescenta ele, “deve ser menos confortável do que nas duas últimas safras, principalmente devido a uma relação de troca menos atraente”. Os plantios de inverno poderão estar sujeitos a riscos maiores, com custos de produção mais salgados e alguma dificuldade adicional para aquisições de insumos. “Assim, tanto a margem econômica quanto a produtividade podem ficar abaixo da expectativa inicial”, considera Serigati.
  • O mercado de carne bovina “foi jogado num limbo sem tamanho” desde a suspensão das importações pela China, em setembro, avalia César Castro Alves, consultor de agronegócio do Itaú BBA. Há um volume não revelado de carne estocada em frigoríficos credenciados pelos chineses, além de bois retidos em confinamento à espera de melhora nas condições do mercado, gerando um cenário de oferta elevada no pico da entressafra. “Mesmo que a China reabra seu mercado, os preços internos não devem reagir”, avalia o consultor.
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