Coluna

Cenário de tensões no mundo afeta negativamente economia brasileira

Publicado por: Sheyla Sousa | Postado em: 24 de julho de 2019

O
ciclo de desaquecimento da atividade econômica mundial, num cenário complicado
por tensões causadas, primeiramente, pelo conflito comercial entre os Estados
Unidos e a China, ainda não totalmente sanado, e também pelo risco de uma saída
estabanada do Reino Unido da União Europeia (o que poderia configurar um “hard
Brexit”, como dizem os ingleses), tem desempenhado papel mais relevante do que
se poderia supor no baixo crescimento da economia brasileira. A hipótese foi
levantada em texto publicado ontem pelos economistas Ariana Zerbinatti e
Fernando Honorato Barbosa, diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos
Econômicos do Bradesco (Depec).

Os
autores ponderam que a influência externa, embora não decisiva para explicar o
modestíssimo ritmo de recuperação da economia brasileira, tem seus efeitos no
lado doméstico. “Um dos fatores responsáveis pelo baixo crescimento da economia
brasileira tem sido o choque negativo da atividade global”, apontam de início. Mesmo
considerando a economia brasileira relativamente fechada numa comparação com
outros países, Ariana e Honorato observam uma “correlação relevante” entre os
ciclos de crescimento (ou de desaquecimento, no caso) no Brasil e no restante
do mundo, quando se consideram indicadores antecedentes utilizados pela
Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para tentar
antecipar o comportamento da atividade econômica mundial.

Por
aqui, a “corrente de comércio” (quer dizer, a soma de tudo o que o Brasil
exporta com toda a importação realizada ao longo de um ano) correspondia a algo
em torno de 18% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2017, o que se compara com
38% na Rússia (grande exportadora de petróleo e gás), 54% na África do Sul e
73% no México (que também tem no petróleo o principal produto da pauta de
exportações, além de manter forte ligação com o mercado dos EUA por meio de
suas “maquiladoras”). Apesar do percentual relativamente baixo de abertura
comercial no Brasil, os dois economistas lembram que o País mantém “relações
importantes com as principais economias globais e com a Argentina”.

Manufaturas na
pauta

Não
por acaso, a correlação parece mais intensa com os ciclos econômicos na Zona do
Euro e no vizinho argentino, principais destinos, além dos Estados Unidos, das
exportações brasileiras de produtos manufaturados. Como destacam Ariana e
Honorato, “um fato que chama bastante a atenção é que nossa trajetória de
crescimento guarda importante relação com a Área do Euro”, o que se explicaria,
inicialmente, “pela maior exposição da Europa ao restante do mundo”. Além
disso, a participação de bens manufaturados na pauta de exportações do Brasil
para Europa e EUA é expressiva, superando um terço do total (chegando a quase
dois terços no caso norte-americano), atingindo 91% quando se trata da Argentina.

Balanço

·  
A
dupla de economistas acrescenta ainda que a União Europeia e os EUA,
sabidamente, “passam por desaceleração e incertezas”, enquanto a Argentina
mergulha em recessão.

·  
Para
se ter uma ideia, aponta Bráulio Borges, da LCA Consultores, o Produto Interno
Bruto (PIB) argentino sofreu um tombo de 2,5% no ano passado. A expectativa
para 2019, neste momento, é de nova retração, próxima a 1,5%.

·  
Segundo
Ariana e Honorato, perto de 70% do estoque de investimento estrangeiro direto
no País vieram de empresas europeias e outros 20% companhias norte-americanas.
Para completar, a observação das tendências das exportações de bens semi e
manufaturados permite antecipar com nível elevado de precisão o comportamento
da produção industrial. “Esse é outro indício de forte correlação do ciclo
global com o doméstico”, complementam.

·  

ainda a forte influência da China, mas pelo lado dos produtos básicos
(especialmente commodities como minério de ferro e soja), que compõem 89% das
exportações brasileiras para aquele mercado. O impacto da desaceleração chinesa
e ainda da redução na compra de soja em grão, motivada pela epidemia que tem
dizimado o rebanho suíno naquele país, tem se refletido em queda nos preços
desses produtos no mercado global.

·  
Na
comparação anual, o indicador dos preços de commodities encontra-se atualmente
perto de 11% abaixo dos níveis de junho de 2018, conforme Ariana e Honorato.

Como compensação, a possibilidade de
afrouxamento nas políticas monetárias nos países centrais, com redução de
juros, tende a “minimizar os efeitos da tensão comercial na atividade global
neste segundo semestre e em 2020”, apostam. 

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