Sexta-feira, 02 de junho de 2023

Consultas saltam 69% e desembolsos do BNDES em Goiás não saem do lugar

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 23 de maio de 2023

A propensão do setor privado para investir parece ter ganho impulso no primeiro trimestre do ano em Goiás, a se considerar os dados de consultas encaminhadas para apreciação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Esse impulso veio principalmente de empresas de médio porte, com avanço também nas consultas de micro e pequenas empresas e um tombo expressivo entre grandes empresas. A valores não atualizados com base nos índices de inflação, as consultas no Estado saltaram de R$ 442,951 milhões no primeiro trimestre do ano passado para R$ 747,954 milhões em igual período deste ano, sinalizando a possibilidade de um incremento mais à frente dos desembolsos de recursos do banco de fomento em favor de empresas instaladas aqui.

Até aqui, no entanto, considerando os mesmos períodos, os desembolsos praticamente não saíram do lugar e, de fato, experimentaram mesmo ligeiro recuo nominal de 0,2% entre os primeiros três meses de 2022 e o trimestre inicial deste ano, passando de alguma coisa muito próxima de R$ 691,960 milhões para quase R$ 690,582 milhões, com retração observada para a agropecuária e a indústria e forte elevação nos setores de comércio e serviços e infraestrutura.

Ainda no lado das consultas, primeiro passo para empresas interessadas em levantar recursos do banco de fomento para financiar projetos de expansão, modernização e adequação dos parques já instalados, o grande avanço veio das médias empresas, que tiveram suas consultas turbinadas de R$ 123,0 milhões para R$ 343,0 milhões em grandes números, correspondendo a um salto de 179,0%. Apenas o segmento de médio porte respondeu por praticamente 72,0% do aumento acumulado pelas consultas no primeiro trimestre. A participação das médias empresas no total de consultas ao BNDES avançou de 27,7% para 45,9%.

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Micro e pequenas

Analisadas em conjunto, micro e pequenas empresas endereçaram ao banco consultas num total de R$ 360,0 milhões, preservando a liderança nesta área, com participação de 48,1% no valor total das consultas. Comparadas ao mesmo trimestre do ano passado, quando haviam somado R$ 232,0 milhões, as consultas do setor cresceram 55,2%. A fatia de micro e pequenas empresas nas consultas totais havia atingido 52,4% no primeiro trimestre do ano passado, o que se explica em função de uma velocidade de crescimento, embora vigorosa, inferior à taxa média geral de crescimento observada para o total das consultas. Os avanços registrados até março deste ano ampliaram a fatia de micro, pequenas e médias empresas no total das consultas de 80,1% no ano passado para 94,0% no acumulado dos três primeiros meses de 2023.

Balanço

  • Nas grandes empresas, o valor das consultas, mais uma vez em termos nominais, quer dizer, sem descontar os efeitos da inflação, desabou nada menos do que 48,9% na comparação com os primeiros três meses do ano passado, caindo de R$ 88,0 milhões para R$ 45,0 milhões, o que fez sua participação sobre o total das consultas murchar de 19,8% para apenas 6,0%.
  • Analisadas por setores de atividade, as consultas anotaram taxas de crescimento muito mais relevantes na agropecuária, no transporte rodoviário e nas atividades auxiliares de transportes (armazenagem, por exemplo). No primeiro segmento, o aumento chegou a 144,7% e as consultas avançaram de R$ 132,0 milhões para R$ 323,0 milhões, com a participação do setor no total saindo de 29,9% para 43,2%.
  • Projetos de transporte rodoviário somaram R$ 108,0 milhões em consultas, a valores aproximados, o que se compara com R$ 23,0 milhões no primeiro trimestre do ano passado, demonstrando alta de 370% – variação que se explica especialmente pelos baixos valores anotados no ano passado. O mesmo vale para as consultas na área de atividades auxiliares do transporte, que saíram de apenas R$ 1,0 milhão para R$ 168,0 milhões.
  • No setor de comércio e serviços, as consultas encolheram quase 40,0%, baixando de R$ 148,0 milhões para R$ 89,0 milhões, reduzindo a participação de 33,3% para 11,9% entre um ano e o seguinte.
  • Os desembolsos, como visto, tiveram desempenho decepcionante, praticamente repetindo os números do primeiro trimestre do ano passado, o que significa uma queda em termos reais, ou seja, depois de descontada a inflação acumulada ao longo do período. O comportamento pífio tende a sinalizar investimentos efetivamente menos ambiciosos em fase de implantação, refletindo decisões tomadas lá atrás pelas empresas diante do cenário esperado, de baixa demanda e custos de capital muito elevados em função da política de juros estratosféricos praticada pelo Banco Central (BC).
  • Os números foram influenciados negativamente pelos tombos sofridos na agropecuária e na indústria, revertendo os números mais positivos anotados no ano passado. Naquele primeiro setor, os desembolsos encolheram de R$ 291,537 milhões para pouco menos do que R$ 205,920 milhões, num tropeço de 29,4%. No setor industrial, que havia contratado financiamentos de R$ 268,219 milhões nos três primeiros meses do ano passado, teve os desembolsos reduzidos para R$ 228,336 milhões, em queda de 14,9%.
  • O tombo naquela área foi mais severo no segmento de biocombustíveis e concentrado principalmente em Quirinópolis, como reflexo aparentemente da conclusão de projetos tocados pela usina São Martinho na região. No trimestre inicial de 2022, os desembolsos ali haviam alcançado R$ 250,968 milhões, beneficiando meia dúzia de projetos, o que havia representado em torno de 93,6% dos recursos liberados para toda a indústria no Estado. Em igual trimestre deste ano, os desembolsos para a indústria na região murcharam para apenas R$ 335,0 mil.
  • O mesmo ocorreu na parte agrícola. Ainda em Quirinópolis, os desembolsos para a agropecuária sofreram um tombo de quase 99,0%, caindo de R$ 104,943 milhões (36,0% dos desembolsos para todo o setor agropecuário) para R$ 1,097 milhão.
  • A indústria de alimentos e bebidas, ao contrário, multiplicou os desembolsos em 32,6 vezes, de R$ 6,222 milhões para R$ 203,144 milhões, assim como avançou 89,5% no setor têxtil e de vestuário, saindo de R$ 1,279 milhão para R$ 2,424 milhões.
  • Turbinados pelo setor de transporte rodoviário, onde as contratações saltaram 444,3% (de R$ 20,628 milhões para R$ 112,280 milhões), os desembolsos para projetos de infraestrutura aumentaram 127,2%, passando de R$ 69,070 milhões para R$ 156,905 milhões. Em São Simão, projetos relacionados à Ferrovia Norte Sul receberam R$ 36,232 milhões diante de R$ 30,781 milhões no trimestre inicial de 2022.