Segunda-feira, 15 de julho de 2024

Dependência chinesa explica tombo de 38% no saldo comercial do Estado

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 09 de abril de 2024

Os resultados da balança comercial de Goiás no primeiro trimestre deste ano deixam mais evidentes os riscos envolvidos na dependência desenvolvida nos últimos anos em relação ao mercado chinês. Evidentemente, o problema não é a China, mas a dependência propriamente, qualquer que seja a região do globo. Esse tipo de relação acaba produzindo uma acomodação das políticas comerciais, reduzindo ou entorpecendo os esforços para a prospecção de novos mercados e consequente diversificação da pauta comercial.

Nos três primeiros meses deste ano, as exportações goianas registraram queda de 17,26% em relação ao mesmo período do ano passado, caindo de US$ 2,902 bilhões para US$ 2,401 bilhões – de toda forma, foi o terceiro maior valor da série histórica, iniciada em 1997. As importações, por sua vez, avançaram de US$ 1,236 bilhão para US$ 1,367 bilhão, num incremento de 10,57%, atingindo o segundo maior valor da série. Em dólares, enquanto as exportações “perderam” US$ 500,969 milhões, a importações “ganharam” US$ 130,640 milhões, impondo uma redução de US$ 631,609 milhões no saldo comercial goiano.

O superávit comercial do Estado com o restante do mundo, quer dizer, a diferença entre exportações e importações, despencou 37,92% entre os primeiros três meses de 2023 e igual período deste ano, caindo de praticamente US$ 1,666 bilhão para US$ 1,034 bilhão. A despeito do tombo registrado, foi o terceiro maior saldo na série estatística do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), num resultado influenciado pela China, que também exerceu papel relevante nos rumos das exportações e das importações goianas ao longo do período.

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Dois lados da balança

A balança comercial do Estado com a China manteve-se ainda positiva, mas o saldo ficou menor, reagindo a um encolhimento das exportações goianas para aquele mercado e um avanço das vendas chinesas com destino a Goiás. Os dados do Mdic mostram que Goiás exportou algo próximo a US$ 1,088 bilhão para aquele destino asiático, o que correspondeu a uma retração de 29,84% frente a exportações de US$ 1,550 bilhão no acumulado dos primeiros três meses do ano passado, correspondendo a uma redução de US$ 462,555 milhões. Para dar uma dimensão desses movimentos, a queda das vendas externas para a China foi responsável por 92,33% da redução das exportações goianas totais, enquanto a participação chinesa nas vendas externas estaduais recuou de 53,42% para 45,30%. As importações da China para Goiás, embora tenham representado 19,07% das compras externas totais realizadas pelo Estado até março deste ano, desempenharam papel decisivo, já que experimentaram um salto de 51,37% e essa variação contribuiu com 67,72% para o aumento das compras externas totais de Goiás.

Balanço

  • Aferidas em dólares, as vendas de bens e mercadorias chinesas para Goiás saíram de US$ 172,239 milhões, em torno de 13,93% das importações goianas totais, para US$ 260,712 milhões, num incremento de US$ 88,473 milhões – o que, por sua vez, se compara com o acréscimo de US$ 130,640 milhões registrado pelas importações goianas totais.
  • Com exportações em baixa e importações crescentes, o saldo comercial do Estado frente à China desabou quase 40,0% no primeiro trimestre, saindo de US$ 1,378 bilhão no acumulado entre janeiro e março do ano passado para US$ 826,952 milhões no mesmo período deste ano, ou seja, uma redução de US$ 551,028 milhões, o que explica 87,24% da queda experimentada pelo superávit comercial total.
  • A concentração nesta área mantém níveis expressivos ainda, com o saldo comercial com os chineses respondendo por 79,98% do superávit total, o que se compara com 82,73% nos primeiros três meses de 2023.
  • A redução das exportações goianas para a China esteve concentrada na soja em grãos, ao mesmo tempo em que as compras goianas de produtos chineses foram reforçadas pelas importações de veículos, tratores, peças e acessórios. Os chineses importaram 1,874 milhão de toneladas de soja em grão, numa queda de 20,96% diante dos três meses iniciais do ano passado (2,371 milhões de toneladas). Ainda assim, 83,21% dos embarques goianos de soja tiveram a China como destino, diante de 92,73% em 2023.
  • Em dólares, as exportações de soja para os chineses encolheram 37,77% na mesma comparação, despencando de US$ 1,307 bilhão para US$ 813,472 milhões. Diante de sua participação expressiva nos negócios da soja, a China ajudou a derrubar as exportações totais do grão realizadas a partir de Goiás, que caíram de US$ 1,411 bilhão para US$ 980,313 milhões, numa redução de 30,52%. Os volumes de soja embarcados para o resto do mundo sofreram redução de 11,91%, saindo de 2,557 milhões para 2,252 milhões de toneladas, ao mesmo tempo em que os preços médios do grão baixaram 21,12%.
  • Na outra ponta, as vendas de veículos, tratores, peças e acessórios chineses para Goiás definiram não só a alta das importações no setor, como ajudaram a incrementar as compras externas do Estado como um todo. As importações de veículos, suas partes e acessórios da China para Goiás aumentaram de US$ 39,350 milhões (ou 31,42% do total) para US$ 97,728 milhões (59,39% das compras realizadas pelo Estado nesta área). Nessa comparação, registrou-se salto de 148,32%. As compras totais no setor cresceram 31,38%, de US$ 125,249 milhões para US$ 164,551 milhões (uma alta em torno de US$ 39,302 milhões a mais – o que significa dizer que as importações dos demais mercados encolheu).
  • Além da soja, a queda das exportações goianas foi fortemente impactada pelo tombo de 71,9% nas vendas externas de milho, que cresceram vigorosamente no ano passado. Em dólares, o Estado havia exportado US$ 223,333 milhões no primeiro trimestre do ano passado, valores reduzidos para apenas US$ 62,763 milhões nos mesmos três meses deste ano, ou seja, perto de US$ 160,570 milhões a menos. Em volume, os embarques caíram para um terço do que haviam sido, desabando de 748,927 mil para 250,219 milhões de toneladas, numa redução de 66,59%. Para completar, os preços médios dos grãos caíram 15,88% na mesma comparação.