Disparidades atrasam digitalização no campo e causam mais desigualdade

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 27 de novembro de 2021

A ampla diversidade no campo torna o avanço da digitalização e a disseminação de novas tecnologias bastante desigual, em boa parte porque médios e pequenos agricultores não dispõem de capacidade para investir. “Em termos aproximados, são 5,0 milhões de produtores, dos quais 10% são de grande porte, 12% são médios e em torno de 78% são agricultores familiares”, descreve Sílvia Massruhá, chefe geral da Embrapa Agricultura Digital (antiga Embrapa Informática Agropecuária).

Em parceria com o Sebrae, a Embrapa ouviu, em meados do ano passado, 750 pessoas, incluindo 67% de produtores rurais, dos quais 72% exploravam áreas inferiores a 50 hectares, e 33% prestadores de serviços na área de tecnologia digital. A pesquisa mostrou que 84% dos produtores utilizavam ao menos uma tecnologia digital, o que poderia ser um aplicativo de mensagens. Outros dois terços usavam meios digitais para obter informações de mercado e planejar a atividade, 43% adotavam sistemas de gestão da propriedade e 40% recorriam a plataformas para compra e venda de insumos e produtos, meio que apresentou forte aceleração durante a pandemia, segundo Sílvia.

Mas apenas 32% usavam a tecnologia para fazer a gestão do uso do solo, por meio de imagens de satélite ou coletadas por drones e utilizavam ainda sistemas de georeferenciamento. “Entre os maiores desafios, 67% apontaram o valor elevado do investimento, o que demonstra falta de capacidade para comprar a tecnologia”, pondera a pesquisadora. Para outros 47% o problema estava na falta de conectividade no meio rural e 44% queixaram-se do valor cobrado pela prestação de serviços especializados, enquanto 40% reconheciam falta de conhecimento apropriado para uso das tecnologias disponíveis. Mesmo assim, complementa Sílvia, 95% demonstraram a percepção de que precisam usar mais a tecnologia.

Caminhos adiante

O trabalho aponta o tamanho do desafio à frente, mas também desenha caminhos a seguir. A Embrapa, segundo a pesquisadora, tem trabalhado nessa linha, ao firmar, por exemplo, parceria recente com o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD) para a criação de distritos agrotecnológicoscom o objetivo de disseminar aplicações inovadoras e enfrentar gargalos na área da conectividade. “Um estudo do Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) mostrou que apenas 23% da área rural recebe algum tipo de cobertura, com 4,4 mil antenas instaladas. Com a elevação desse número para 15,0 mil antenas, seria possível cobrir 90% da área, levando a um aumento de quase R$ 100,0 bilhões no valor bruto da produção (hoje estimado em quase R$ 1,1 trilhão)”, registra Sílvia.

Balanço

  • Dois projetos pilotos, um na região de Caconde, reunindo produtores de café, e outro em São Miguel Arcanjo, na área de hortifruticultura, ambos no interior de São Paulo, já estão em funcionamento. Mais oito projetos pilotos estão em fase de discussão e definição de orçamento entre os ministérios de Ciência, Tecnologia e Inovação e da Agricultura, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e Embrapa. Três deles deverão ser instalados em São Paulo, um em Minas Gerais e um em cada uma das regiões restantes – Norte, Nordeste, Sul e Centro-Oeste.
  • Ao longo de seis anos de esforços, as pesquisadoras Kátia de Lima Nechet e Nilza Patrícia Ramos, da Embrapa Meio Ambiente, alcançaram resultados promissores numa pesquisa sobre fixação biológica de nitrogênio na cultura da cana. Dispensando o uso de fertilizantes químicos, a área trabalhada por elas, numa parceria com a Usina Açucareira Guaíra, no interior paulista, manteve produtividade média em torno de 88 toneladas por hectare e reduziu a severidade de doenças em 16% no primeiro plantio e em 18% na chamada segunda soca, na comparação com cultivos que adotaram nitrato de amônio, conforme Kátia. A pesquisa agora precisa avançar, alcançando outras variedades de cana, para que a prática possa ter uma recomendação mais extensa, acrescenta Nilza.
  • As pesquisadoras utilizaram no processo um verdadeiro “coquetel de bactérias”, envolvendo cinco microrganismos cultivados pela Embrapa Agrobiologia, do Rio de Janeiro. No início do experimento, lembra Kátia, havia o interesse em observar o que ocorre com a parte fitossanitáriada cana. “Foi uma surpresa constatar a redução da severidade de doenças foleares”, comenta ela.
  • O setor de florestas cultivadas deverá quase triplicar seus investimentos no País nos próximos anos, saindo de R$ 18,0 bilhões entre 2016 e 2019 para algo próximo a R$ 50,0 bilhões até 2024, segundo Patrícia Machado, coordenadora de bioeconomia e assuntos florestais da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá). Os recursos incluem a expansão de plantios, ciência e pesquisa e construção de novas unidades. O setor explora em torno de 9,0 milhões de hectares de florestas,registrando o plantio diário de um milhão de árvores, além de manter 5,9 milhões de hectares de áreas protegidas, conforme Patrícia.
  • Os investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação realizados desde os anos 1970 e a introdução de práticas mais modernas de manejo, de acordo com ela, trouxeram, entre outros ganhos, um salto na produtividade média do eucalipto de 10 para 35 metros cúbicos por hectare por ano.Considerando as áreas de plantio e de preservação, “são estocados 4,48 bilhões de toneladas de CO2 equivalente, mais do que o Brasil emite em um ano”, registra Patrícia.
  • Uma família de novos “coprodutos”, derivados do processamento da madeira cultivada, já chegou ao mercado ou está a caminho, adianta ela. A começar pela celulose solúvel, que poderá substituir matérias primas de origem fóssil em diversos produtos dos setores têxtil, farmacêutico, automobilístico e alimentício. “O principal produto dessa matéria-prima é a viscose, que vem ganhando espaço no setor têxtil”, sublinha Patrícia. Entram na lista a nanocelulose, considerada um “supermaterial, por ser mais resistente que o aço”; a celulose microfibrilada, que reduz o uso de água e químicos em até 90% na produção de fios têxteis; e a celulose nanocristalina, “que estará presente nas telas dos celulares”, aponta ainda.
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