Indústria goiana fecha primeiro trimestre com perdas de 5,5%

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 12 de maio de 2021

A produção da indústria em Goiás registrou incremento de 1,6% na passagem de fevereiro para março deste ano, sugerindo alguma desaceleração diante do resultado do mês imediatamente anterior, quando havia anotado variação de 2,5% (depois de ter recuado 1,4% em janeiro). O que poderia indicar alguma melhora nos indicadores, no entanto, parece se aproximar muito mais de um suspiro em meio à crise, agravada pela pandemia e suas consequências sobre a saúde e sobre a economia, incorporando como ingredientes certa desorganização em cadeias produtivas estratégicas, a exemplo de fabricantes de resinas plásticas destinados ao setor de embalagens, produtos de ferro e aço e fornecedores de insumos para o setor de fármacos e medicamentos.

Na comparação com os mesmos meses do ano passado, o cenário não apresenta melhoras, a despeito do modesto avanço de 0,4% alcançado em março, depois de uma sequência de fortes resultados negativos, com tombos de 10,1% em janeiro e de 7,3% em fevereiro, segundo a pesquisa mensal da produção industrial regional do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Tecnicamente, seguindo os critérios do Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace) do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), a indústria no Estado teria entrado novamente em recessão ao acumular o segundo trimestre de baixa. A produção já havia encerrado o quarto trimestre de 2020 em queda de 5,6% e voltou a cair no primeiro trimestre deste ano, numa baixa de 5,5% frente a igual intervalo de 2020.

Obviamente, até por sua magnitude, não foi um recuo trivial, palavrinha da moda, repetida à exaustão por certos analistas e comentaristas econômicos. Para comparação, a queda deu-se em relação a um trimestre não muito positivo para a indústria goiana, já que a produção chegou a recuar 0,8% no acumulado dos primeiros três meses do ano passado, em relação ao trimestre inicial de 2019. Na série ajustada sazonalmente (quer dizer, descontando-se fatores que ocorrem em meses determinados do ano e que poderiam afetar o resultado final do setor, para mais ou para menos), a produção goiana acumulava até março uma perda de praticamente 4,0% desde junho de 2020, o que mostra que o setor não teve fôlego para sustentar os resultados, na média, mais positivos do que no restante da indústria no País ao longo dos meses iniciais da pandemia.

Melhores e piores

Na comparação com março do ano passado, os setores que haviam registrado os piores desempenhos há um ano apresentaram forte crescimento no mesmo mês deste ano. Apesar desse desempenho, para alguns segmentos da indústria, o salto não chegou a compensar as perdas que vieram acumulando ao longo dos meses anteriores. Foi o caso dos veículos, por exemplo. A produção saltou impressionantes 49,1% em março deste ano (frente ao mesmo mês de 2020), mas os fabricantes do setor encerraram o trimestre com baixa de 6,3% e já haviam sofrido perdas de 13,7% no primeiro trimestre do ano passado. O mesmo ocorreu com as indústrias extrativas, que registraram alta de 20,3% frente a março de 2020 e recuo de 1,5% no trimestre (o que se compara com a estagnação experimentada em igual período de 2020). Entre as exceções, a indústria de “outros produtos químicos” (adubos e fertilizantes, predominantemente) registrou salto de 38,7% na produção em março e fechou o primeiro trimestre com avanço de 16,0% (depois de já ter crescido 13,7% no trimestre inicial de 2020). Aqui, a resiliência do agronegócio ajudou a sustentar o setor.

Balanço

  • A produção de minerais não metálicos, influenciada pelo crescimento nos setores de cimento e concreto, telhas e asfalto, aumentou 24,9% em março e 19,2% no trimestre. Parte do avanço explica-se em função da base mais baixa adotada para a comparação, já que a produção havia encolhido 9,5% em março do ano passado e recuado 0,9% no primeiro trimestre.
  • Todos os demais setores da indústria goiana apresentaram números negativos no mês e no trimestre, empurrando o setor de transformação industrial como um todo para um recuo de 0,7% em março e para uma queda de 5,7% no trimestre. Como agravante, a produção da indústria de transformação já havia recuado 0,9% no primeiro trimestre do ano passado.
  • Às voltas com problemas de suprimento de insumos e de matérias primas, assim como o setor farmacêutico, a indústria de produtos de metal, com contribuição negativa dos segmentos de latas e estruturas de ferro e aço, esquadrias de alumínio, palha e fio de aço, perdeu mais de um terço de sua produção em março, com queda de 34,4%. O trimestre no setor fechou com retração de 20,3%. No mesmo trimestre de 2020, a produção havia crescido 14,7%.
  • A produção de etanol e biodiesel empurrou o setor de biocombustíveis para uma redução de 15,8% na produção realizada em março deste ano, determinando a baixa de 10,3% no trimestre encerrado em março deste ano. A indústria do setor quase devolveu a alta de 12,8% registrada no primeiro trimestre de 2020. Também ficaram no vermelho as indústrias de metalurgia (-13,5%) e de medicamentos (-10,9%). No trimestre, a produção de farmoquímicos e de produtos farmacêuticos murchou 21,5%, muito provavelmente refletindo a dificuldades de suprimento causadas pela desorganização das cadeias de produção no setor, que chegou a anotar números positivos em meio à pandemia, favorecido pela maior demanda por medicamentos e produtos de higiene pessoal.
  • A produção de alimentos, setor mais relevante na estrutura industrial no Estado, enfrenta dificuldades, parcialmente explicadas por ajustes nas linhas de produção ocasionados pelo aumento de custos. O IBGE registra contribuição negativa sobretudo do leite em pó e do óleo de soja, que contribuíram para que a indústria de produtos alimentícios sofresse recuo de 0,5% em março, encerrando o primeiro trimestre em baixa de 4,5%. Neste mesmo trimestre de 2020, a produção do setor já havia sofrido perda de 3,9%.
  • Também divulgado ontem pelo IBGE, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) anotou variação de 0,31% em abril, saindo de 0,93% em março e de 0,60% nas quatro semanas encerradas na primeira quinzena de abril. O comportamento mostra que os preços em geral, na média, mantiveram a tendência de desaceleração nas duas semanas finais do mês passado.
  • Embora registre acomodação evidente, o IPCA continua subindo no acumulado em 12 meses, o que se explica pelo fato de as taxas mensais terem sido mais baixas em 2020 e ainda porque a inflação havia sido negativa em abril e maio do ano passado (quedas de 0,31% e de 0,38% respectivamente). Isso fará com que o índice em 12 meses continue em elevação pelo menos até maio, ainda que a inflação corrente mantenha-se bem-comportada.
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