Indústria pisa no freio e registra o pior resultado desde abril de 2020

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 06 de maio de 2021

A inércia programada do governo e de sua equipe econômica, numa tática absurda para disfarçar sua incapacidade crônica de agir como autoridade constituída, e o agravamento dramático da pandemia continuam produzindo estragos sobre a atividade econômica, mas sobretudo sobre as vidas de milhões de famílias. A indústria, como bem observa o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), literalmente pisou no freio em fevereiro e março, depois de atravessar janeiro em virtual estagnação. O resultado foi uma retração acumulada de 3,1% na produção do setor entre dezembro de 2020 e março deste ano.

Pior ainda: o setor literalmente não saiu do lugar desde fevereiro do ano passado, ainda na fase anterior à pandemia. Não bastam arrogância e bazófias para dar sustentação à economia, como escancara a edição de março da pesquisa mensal da produção industrial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).A indústria registrou perda de 2,4% frente a fevereiro, quando já havia recuado 1,0%, sempre na comparação com o mês imediatamente anterior.Ainda em março deste ano, a indústria registrou o pior resultado mensal desde abril do ano passado, quando a produção havia desabado 19,8% diante de março.

Em janeiro, na série sazonalmente ajustada (ou seja, descontados fatores específicos de cada mês, que poderiam influir no desempenho do setor e complicar qualquer tipo de comparação), a produção havia registrado variação de somente 0,3% diante de dezembro. “Com isso, ficou comprometido tudo aquilo que vinha sendo conquistado em termos de retomada da produção”, sentencia o Iedi.

Deterioração acelerada

A velocidade recente da deterioração no setor, acrescenta ainda o instituto, pode ser aferida quando se constata que a produção, na virada do ano, chegou a superar os níveis de fevereiro de 2020 em pouco mais do que 3,0%. Em março deste ano, esse ligeiro ganho foi anulado e a tal recuperação em “V” não veio. Para aqueles que acreditam em todas as asneiras que jorram da cabeça do senhor ministro, as séries estatísticas do IBGE mostram o seguinte: comparada a maio de 2011, melhor momento experimentado pelo setor desde que pesquisa industrial foi iniciada, em 2002, a produção em março deste ano apresentava retração de 16,5% para todo o setor industrial; a indústria de bens duráveis, que registrou seu pico de produção em junho de 2013, encolheu 32,8% (quer dizer, perdeu quase um terço de tudo o que havia produzido naquele período); e a indústria de bens de capital (máquinas, equipamentos, instalações industriais, caminhões e ônibus, entre outros), que sugere uma direção para os investimentos no País, encolheu 30,3% frente a setembro de 2013.

Balanço

  • Nos demais ramos de atividade, o desempenho não foi lá muito melhor. As indústrias de bens semiduráveis e não duráveis (alimentos, roupas, calçados, por exemplo) ainda se encontram 18,4% abaixo do nível recorde anotado em junho de 2013. Já as empresas fabricantes de bens intermediários, que fornecem insumos e matérias primas para o restante da indústria, cumprindo papel central para o desempenho de todo o setor industrial, sofreram redução de 12,5% em relação a fevereiro de 2011, seu melhor momento na série histórica.
  • Em outro dado preocupante, enquanto a pandemia e a ausência de medidas de socorro aos mais vulneráveis fazem aumentar os contingentes de esfaimados em todo o País, a produção de alimentos virtualmente parou de avançar, registrando variação de 0,2% na saída de fevereiro para março, recuou 0,1% na comparação com março do ano passado e passou a indicar baixa de 2,3% frente a fevereiro de 2020. No primeiro trimestre deste ano, a produção no setor caiu 3,6% frente aos mesmos três meses de 2020.
  • A comparação com igual período do ano passado carrega distorções e, portanto, deve ser analisada com cautela. Não é preciso recordar que as atividades na economia haviam sido submetidas então a restrições mais severas do que aquelas aplicadas mais recentemente pelos governos estaduais e prefeituras. Em março do ano passado, a produção havia sofrido baixa de 7,9% em relação a fevereiro e queda de 3,9% na comparação com março de 2019, quando a produção já havia encolhido 6,1% (em relação a março de 2018).
  • A base muito achatada explica em grande medida o salto enganoso de 10,5% registrado em março deste ano pela pesquisa do IBGE, novamente tomando o mesmo mês de 2020 para comparação. Foi a sétima alta mensal consecutiva nesse tipo de comparação. E praticamente 57,0% daquela variação concentraram-se em meia dúzia de setores – pela ordem de influência no resultado final, surgem fabricantes de veículos, de máquinas e equipamentos, minerais não metálicos (cimento, areia, brita e outros agregados da construção civil), produtos de metal, borracha e material plástico e metalurgia.
  • No setor de bens de capital, o salto foi ainda mais expressivo (29,6%), na sequência de altas de 14,8% em fevereiro e de 16,7% em janeiro. Cabem aqui pelo menos duas observações, que ajudam a colocar aqueles números sou outra perspectiva. Em primeiro lugar, a produção de bens de capital havia sofrido baixas de 11,6% e de 5,1% em março de 2019 e de 2020, em relação ao mesmo mês do ano imediatamente anterior. Em segundo, a produção havia sofrido corte de 49,7% entre fevereiro e abril do ano passado. Nos meses seguintes, portanto, a indústria do setor veio apenas religando suas linhas de produção na medida em que as atividades econômicas foram sendo retomadas.
  • O nível alcançado em março deste ano, apesar de todo aquele avanço vigoroso frente iguais períodos de 2020, já estava 10,3% abaixo daquele observado em janeiro de 2021, refletindo as quedas de 3,7% em fevereiro e de 6,9% em março, agora na comparação com o mês imediatamente anterior.
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