Indústria, varejo e serviços derrapam em Goiás na segunda metade de 2021

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 15 de janeiro de 2022

A indústria goiana não experimenta números positivos desde praticamente setembro de 2020, acumulando 12 meses de baixa naquele intervalo e ainda um mês de estagnação virtual (março de 2021, quando registrou variação de 0,3% em relação ao mesmo período do ano anterior) e outro de crescimento quase nulo, ao avançar 0,3% em maio de do ano passado, igualmente se considerado o mesmo mês de 2020. Nesse período, a produção encolheu pouco mais de 9,5%, depois de experimentar quedas de 8,6%, de 6,6% e de 3,9% em setembro, outubro e novembro, respectivamente, tomando os mesmos meses do ano anterior como base.

Se comparada a maio do ano passado, quando a pesquisa mensal da produção industrial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) anotou um leve suspiro, a indústria sofreu baixa de 4,3% até novembro último. Na série histórica do IBGE, os resultados de dezembro foram negativos em cinco dos últimos nove anos, com altas em 2013, 2014, 2017 e 2020 – um ano atípico por conta da pandemia.

Não que o cenário tenha sido mais “normal” em 2021. Ao contrário. A tendência observada nos últimos meses não parece sugerir que o setor terá capacidade ou condições de apresentar alguma reação de fato significativa no último mês do ano passado. Nos 11 primeiros meses de 2021, a produção goiana havia encolhido 4,6% em comparação a igual período de 2020. O cenário de fragilidade estende-se aos setores do comércio e dos serviços no Estado.

O volume de vendas do varejo tradicional havia despencado quase 10,0% entre julho e novembro do ano passado. No chamado comércio varejista amplo, que inclui concessionárias de veículos e motos, lojas de autopeças e de materiais de construção, a queda chegou a 6,6% em igual período. Os efeitos da Black Friday, mais uma “inovação” copiada dos Estados Unidos, foram bastante tímidos ou sequer foram percebidos em alguns setores do comércio. Na passagem de outubro para novembro, o volume vendido pelo varejo restrito chegou a recuar 0,3% – a quarta baixa mensal consecutiva. O comércio varejista ampliado alcançou variação de 0,8% em novembro, frente ao mês imediatamente anterior, quando havia sofrido tombo de 4,1%. Desde maio, o varejo amplo vem alternando altos e baixos nas vendas.

Desaceleração relativa

As atividades no setor de serviços, a despeito da reabertura dos negócios ao longo do ano passado, não parecem apresentar a reação esperada. Entre outubro e novembro, segundo levantamento do IBGE, houve recuo de 0,2%, com baixa acumulada de 3,4% de junho a novembro. Os números do setor, comparados a idênticos períodos de 2020, quando as medidas de distanciamento social derrubaram os negócios nesta área, continuam apresentando vigor relativo (e somente porque a base de comparação havia sido muito achatada pelas medidas adotadas por Estados e prefeituras para enfrentar a pandemia). Mesmo assim, anotam desaceleração sensível, saindo de um salto de 27,2% em maio para uma variação de 7,5% em novembro diante do mesmo período de 2020. No acumulado entre janeiro e novembro do ano passado, os serviços apresentaram alta de 13,2% (depois de acumularem perdas de 8,2% nos 11 meses iniciais de 2020).

Balanço

  • Na verdade, os serviços foram o único grande setor da economia em Goiás a conseguir superar a marca registrada em fevereiro do ano passado, antes do início da pandemia causada pelo Sars-CoV-2. O nível de atividade no setor havia avançado 8,0% em novembro do ano passado frente a fevereiro de 2020. Mesmo neste caso, o crescimento havia sido mais vigoroso em junho, numa elevação de praticamente 11,8%.
  • Analisados sob uma perspectiva de mais longo prazo, os dados do setor mostram que a atividade em Goiás ainda se encontrava quase 20,9% abaixo do seu nível mais elevado, registrado em fevereiro de 2014, ou seja, há 93 meses.
  • Os números divulgados ontem pelo IBGE sobre a produção industrial e as vendas do varejo, conforme já registrado, não trouxeram alento. Na comparação com novembro de 2020, as indústrias de produtos alimentícios, metalurgia, produtos de metal e derivados de petróleo e biocombustíveis sofreram perdas de 2,7%, 5,2%, 14,0% e nada menos do que 33,8% em novembro passado, pela ordem.
  • No caso dos biocombustíveis, os resultados negativos têm sido influenciados pela demanda enfraquecida e ainda pela quebra na safra de cana, levando as usinas a anteciparem o final da safra 2021/22, encerrando a moagem um pouco mais cedo. O setor acumulava retração de 8,8% nos primeiros 11 meses de 2021 frente ao idêntico intervalo de 2020.
  • Ainda no acumulado dos 11 meses iniciais do ano passado, fabricantes de alimentos chegaram a reduzir a produção em 6,4%, com tombos de 15,5% para a indústria metalúrgica (sob influência das quedas na produção de ouro, ferroníquel e ferronióbio) e de 19,5% para o setor de produtos de metal, especialmente por conta da redução observada nos segmentos de embalagens metálicas, palha, esponjas e fios de aço e esquadrias de alumínio).
  • Por conta dos maus resultados naqueles setores, a indústria de transformação sofreu baixa de 5,7% em novembro, passando a acumular redução de 5,8% em 11 meses. O avanço na produção de fibras de amianto, brita, minério de cobre e calcário sustentou a alta de 19,9% acumulada até novembro do ano passado pelas indústrias de extração mineral.
  • O setor de outros produtos químicos (basicamente adubos e fertilizantes), puxado pelo agronegócio, acumulava até novembro incremento de 9,5%, depois de avançar 12,2% na comparação entre novembro de 2020 e o mesmo mês do ano seguinte. A indústria de montagem de veículos saiu de um período muito ruim, com a produção chegando a encolher 35,2% nos primeiros 11 meses de 2020, para crescer 80,6% nos mesmos 11 meses de 2021. Mas, se comparado à média de 2012, o nível de atividade no setor ainda se encontrava 53,0% mais baixo.
  • No varejo restrito, o volume de vendas apresentava em novembro do ano passado perdas de 8,5% em comparação a fevereiro de 2020, com o comércio varejista ampliado crescendo quase 4,0% no mesmo intervalo, com forte incremento das concessionárias de veículos e motos (alta de 35,0% nos 11 primeiros meses do ano passado).
  • As lojas de materiais de construção, embora continuassem a apresentar avanços no dado acumulado em 11 meses (elevação de 4,5%), passaram a perder terreno, com perdas mensais de 4,7%, 10,4% e 10,8% em setembro, outubro e novembro.
  • A comparação com os melhores momentos do varejo restrito e do comércio ampliado mostra a dimensão dos desafios à frente. Sempre tomando os volumes vendidos em novembro do ano passado, as vendas apresentavam perdas de 32,4% frente a maio de 2014, no primeiro caso, e de 28,0% no segundo, desta vez em relação a agosto de 2012.
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