Segunda-feira, 15 de julho de 2024

Juros levam deterioração à indústria de conteúdo tecnológico mais elevado

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 23 de dezembro de 2023

Entre o início de agosto do ano passado e outubro deste ano, a taxa básica de juros, ou taxa Selic no jargão do mercado, foi reduzida em um ponto percentual, saindo de 13,75% para 12,75% ao ano, níveis ainda extorsivos, que continuaram estrangulando o investimento e, portanto, as possibilidades futuras de crescimento da economia. No mundo real, o arrocho gerado pela política monetária tem produzido distorções em série ao levar deterioração aos setores industriais que operam com níveis mais elevados de conteúdo tecnológico e tornar mais dramáticos os níveis de desigualdade e de iniquidade no País.

Entre as empresas, o arrocho monetário ganha outra dimensão, com os juros assumindo proporções ainda mais escorchantes, agravadas por um dado objetivo – os juros cobrados das pessoas jurídicas, na média, não se moveram e, na verdade, chegaram mesmo a subir ligeiramente naquele período, com elevação do chamado “spread” bancário.

Os bancos cobravam das empresas, em média, juros em torno de 22,7% ao ano em agosto do ano passado, quando a taxa básica começou seu lento a arrastado movimento de baixa. Em outubro deste ano, com a taxa Selic estacionada em 12,75% ao ano, os juros impostos às empresas atingiram 22,8%. O “spread”, que corresponde à diferença entre as taxas pagas pelos bancos a investidores/especuladores que “emprestam” seus recursos ao sistema financeiro em troca de uma remuneração e os juros cobrados das famílias e das empresas, foi elevado de 8,90% para 9,60% (ou seja, mais 0,7 pontos percentuais).

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O setor financeiro pode até mesmo argumentar que a alta dos “spreads” se deveu ao avanço da inadimplência entre as empresas, no segmento de recursos livres (quer dizer, sob taxas e condições em princípio não determinadas pelo setor público). De fato, a proporção dos empréstimos com atraso acima de 90 dias em relação ao crédito total contratado pelas empresas saltou de 1,80% para 3,50%, num incremento de 1,7 pontos percentuais. A questão é que o crescimento da inadimplência pode ser relacionado, ao menos em parte, às condições escorchantes impostas pelos bancos aos tomadores de empréstimos e financiamentos.

Frustação e arrocho

O desempenho frustrante da indústria ao longo do ano pode ser atribuído, em alguma medida, a política de juros altos, como observa o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). “No centro do marasmo que marca 2023 estão as atividades mais negativamente impactadas pelo elevado nível de taxas de juros que ainda persiste no país. Por isso, a continuidade e talvez a mesmo a aceleração da fase atual de baixa da taxa Selic pelo Banco Central é tão importante”, argumenta o instituto. E os juros, na ponta, continuam muito acima da taxa básica, encarecendo o crédito e desestimulando decisões de investimento.

Balanço

  • Como argumenta corretamente o Iedi, as taxas de juros que são chave para as empresas são aquelas cobradas em seus financiamentos. Estas, como sabemos, são muito majoradas pela prática de spreads bancários elevados e impostos”. Por esses e outros motivos, prossegue o Iedi, “não basta apenas que a Selic se reduza, mas também que a intermediação financeira se torne mais efetiva em seu papel de financiar adequadamente as atividades produtivas no País”.
  • Olhando para um horizonte de tempo mais largo, o Iedi comenta ainda que, “sem uma retomada do crescimento industrial”, as ameaças ao futuro do setor vão se tornando mais profundas e arraigadas. A ausência de crescimento no setor torna cada vez mais difícil “dar robustez ao processo de modernização do setor em direção à digitalização e à sustentabilidade, caminhos perseguidos pelos principais países do mundo, por meio de suas estratégias industriais, e que serão cada vez mais parâmetros de competitividade no futuro”.
  • Num quadro de estagnação que prevalece neste ano especialmente para a indústria de transformação, o desempenho mais recente tem se mostrado “ainda mais desfavorável”, com perdas sucessivas. Segundo relembra o instituto, o valor adicionado da indústria de transformação, conforme os dados mais recentes do Produto Interno Bruto (PIB), sofreu baixa de 1,5% no terceiro trimestre deste ano, acumulando recuo de 1,6% nos três primeiros trimestres deste ano em relação ao mesmo período do ano passado. Nos dois períodos, a produção física do setor caiu 1,1% e 1,2% respectivamente.
  • Ao analisar o comportamento da indústria por nível de agregação de tecnologia, o Iedi identificou uma piora nos resultados quanto maior a intensidade tecnológica do setor acompanhado. Assim, o setor de alta tecnologia, que inclui a indústria de fármacos e medicamentos, produtos eletrônicos e instrumentos médicos e ópticos de alta precisão, entre outros, “foi a faixa que mais regrediu em 2023”. Depois de iniciar o ano com alta de 7,7% no primeiro trimestre, o setor exibiu declínio de 5,2% no terceiro trimestre, na comparação com iguais períodos do ano passado. “Assim, se apresenta virtual estabilidade no acumulado entre janeiro e setembro deste ano”, com variação de 0,3% frente aos mesmos nove meses de 2022, “é devido apenas ao primeiro trimestre do ano”, registra o Iedi.
  • O instituto destaca ainda que todos os ramos que formam o setor de alta tecnologia “pioraram muito, mas aqueles associados à área de saúde merecem destaque por terem invertido o sinal de seu resultado”. De fato, o ramo farmacêutico e farmoquímico deixou para trás um salto de 19,3% no primeiro trimestre para recuar 0,6% no terceiro trimestre. Na mesma toada, a indústria de instrumentos médicos, ópticos e de precisão passou de alta de 8,8% para queda de 5,6%, respectivamente.
  • A indústria de conteúdo tecnológico médio-alto apresentou retração mais acentuada no terceiro trimestre, num tombo de 8,1%, e não apresentou variações positivas nos demais trimestres do ano. “Muito disso deveu-se ao ramo automobilístico, que saiu de um recuo de 1,4% no primeiro trimestre para redução de 12,1% no terceiro trimestre deste ano, a despeito de ações governamentais anticíclicas, que determinaram a redução de impostos sobre veículos”. Segmentos dessa indústria mais associados ao investimento seguiram em retração, com baixas de 9,3% e de 10,0% para máquinas e equipamentos e de máquinas e aparelhos elétricos, pela ordem.
  • Já os setores de média-baixa tecnologia não apenas avançaram como reforçaram seus resultados, “passando de avanço de 0,2% no primeiro trimestre deste ano para alta de 3,0% no terceiro trimestre”, influenciados pelos ramos de alimentos, bebidas e fumo (com altas de 1,3% e de 4,8% respectivamente) e coque, derivados de petróleo e biocombustíveis (mais 2,7% no primeiro trimestre e mais 6,2% no terceiro).