Coluna

Mercados acionam as sirenes do alarmismo para pressionar BC

Publicado por: Sheyla Sousa | Postado em: 11 de janeiro de 2020

Os
números finais do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), na
aferição do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), vieram
acima do esperado em dezembro, o que já foi suficiente para que os mercados
escalassem seu time de analistas e comentaristas encastelados na mídia para
“recomendar” ao Banco Central (BC) um pouco mais de cautela na condução da
política de juros daqui em diante. As sirenes do alarmismo foram acionadas e a
autoridade monetária deveria então parar com essa história de reduzir os juros
básicos e talvez até mesmo voltar a pensar em retomar algum arrocho na política
monetária para evitar que o aumento atípico e passageiro de alguns preços no
último mês do ano passado “contamine” toda a economia e traga de volta a temida
escalada inflacionária.


claramente excessos nesse tipo de avaliação, que desconsidera o momento
econômico atual e a tendência de rápida reversão daquelas altas, já em cena nas
últimas semanas, como mostram os levantamentos de preços da Fundação Getúlio
Vargas (FGV), responsável pelo cálculo do Índice de Preços ao Consumidor
Semanal (IPC-S). Divulgado semanalmente, o índice reflete a variação dos preços
em períodos de 30 dias, comparados aos preços médios coletados nas quatro
semanas imediatamente anteriores, o que permite avaliar a tendência mais atual
para a inflação, conforme já anotado neste espaço (O Hoje, 03/01/20). E o
índice vem experimentando forte desaceleração, desabando de 0,87% nos 30 dias
encerrados em 15 de dezembro passado para 0,57% no acumulado entre 8 de
dezembro e 7 de janeiro.

O
menor ritmo de alta dos preços que compõem o IPC-S tem sido determinado, entre
outros fatores, pelas variações menos intensas nos preços dos alimentos (com
destaque para as carnes), que chegaram a subir 2,56% ao longo das quatro
semanas de dezembro e iniciaram janeiro com elevação de 2,30%. Nos mesmos
períodos, as altas para alguns cortes de carnes perderam força, a exemplo do
contrafilé, que havia subido 20,65% em dezembro e passou a anotar elevação de
11,43%. Os jogos lotéricos, que fecharam dezembro com aumento de 10,21%,
subiram 2,85% nos 30 dias até o dia 7 de janeiro (o que significa dizer que
passaram a recuar na primeira semana deste mês). As passagens aéreas, que
igualmente haviam disparado no fim de ano, já demonstravam queda de 9,01% no
início de janeiro.

Falta demanda


um erro gritante de avaliação dos analistas que viram na alta do IPCA de
dezembro um sinal de alarme. A política monetária (quer dizer, as taxas de
juros) deve ser acionada sempre que excessos de demanda ameacem levar os preços
a altas descontroladas, acirrando a carestia. Os números divulgados nesta
semana pelo IBGE mostram, ao contrário, uma crise persistente na indústria, que
enfrenta dificuldades ainda de monta para sustentar a produção em crescimento,
precisamente porque falta demanda. Neste cenário, aumentos pontuais de preços,
como os ocorridos entre meados de novembro e dezembro do ano passado com as
carnes (por conta da explosão das vendas para a China, tendência que não deve
persistir ao longo dos próximos meses), com os jogos de azar (controlados pelo
governo) e ainda com as passagens aéreas (sob pressão do aumento no fluxo de
passageiros no fim de ano), tendem a ser revertidos sem
estragos maiores para os índices de inflação e não se traduzem em uma tendência
permanente de alta inflacionária.

Balanço

·  
O
IPCA de dezembro, projetado em 1,08% na média dos palpites do mercado
financeiro, atingiu 1,15%, elevando a inflação acumulada em 12 meses para 4,31%
(apenas levemente acima da meta inflacionária de 4,25% determinada para 2019).

·  
Para
comparar, na passagem de novembro para o final da primeira quinzena de dezembro
(sempre considerando a taxa acumulada em 30 dias), o índice do IBGE havia
experimentado elevação de 0,54 pontos de porcentagem, saindo de 0,51% para
1,05%. Na quinzena seguinte, a elevação ficou limitada a 0,1 ponto.

·  
Mesmo
essa desaceleração não foi o dado mais relevante apresentado pela pesquisa de
preços do instituto. No IPCA-15 de dezembro (medido nas quatro semanas
terminadas no dia 15 daquele mês), em torno de 72,4% do índice de 1,05% vieram
de quatro itens ou grupo de produtos: carnes (com alta de 17,71%); passagens
aéreas (4,35%); jogos de azar (36,99%); e combustíveis (1,76%). Somados,
contribuíram com 0,76 pontos na formação do IPCA-15 de dezembro.

·  
No
fechamento de dezembro, os mesmos itens responderam por 74,8% do IPCA de 1,15%
(numa contribuição de 0,86 pontos), com altas de 18,06% para carnes, de 15,62%
para as passagens, 12,88% para os jogos e de 3,57% para os combustíveis.
Descontados esses itens no cálculo do índice, a inflação não se moveu, estacionada
em 0,29% nos 30 dias até 15 de dezembro e no acumulado ao longo das quatro
semanas até o dia 31 do mês passado.

·  
Incluindo
apenas os preços de produtos e serviços mais influenciados pela demanda, nas
contas do Itaú BBA, agora tomando os 30 dias do mês, registrou-se variação de
0,44% em dezembro e de apenas 2,7% nos 12 meses do ano passado (ou seja, perto
de 1,55 pontos abaixo do centro da meta inflacionária).

·  
Em
dezembro ainda, perto de 58,7% dos itens pesquisados pelo IBGE apresentaram
alta em alguma intensidade, acima dos 55,9% registrados em novembro, ainda
conforme o Itaú BBA. Vale lembrar que 61,1% dos preços haviam subido em
dezembro de 2018 e ainda assim a inflação ficou limitada a 0,15% naquele mês.

·  
Numa
projeção ainda preliminar, o banco estima uma variação de 0,26% para o IPCA em
janeiro. Se confirmada, não só ficará abaixo do índice de 0,32% observado no
mesmo mês de 2019 como seria a inflação mais baixa para o período desde o Plano
Real.


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