Mortes desestruturam famílias e podem deixar País R$ 193,5 bilhões mais pobre

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 18 de maio de 2021

A perda traumática de mais de 430 mil vidas entre março do ano passado e o final da primeira quinzena deste mês, em grande parte por negligência premeditada, inação e indolência criminosa das autoridades, deixará um vazio funesto e tem desestruturado famílias em todo o País, que vai empobrecendo em idêntica proporção ao avanço das mortes. O desastre humano produzido pela pandemia deverá ter efeitos duradouros, com impactos muito negativos sobre a vida social e cultural da nação, mas também sobre a economia, com a destruição de talentos e capacidades acumuladas ao longo de anos, décadas de estudos, trabalho e esforços, desperdiçadas pela incúria no enfrentamento da crise sanitária.

O estrago, apenas parcial e que evidentemente não considera o risco de sequelas ainda não integralmente avaliadas entre os milhões de contaminados que têm sobrevivido ao vírus, pode ser aferido em números ou em moeda sonante – o que talvez assim pudesse sensibilizar os mercados de alguma maneira. Recorrendo aos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Portal de Transparência do Registro Civil, os economistas Cláudio Considera e Juliana Trece, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), chegaram a uma estimativa, não apenas sobre as perdas de renda causadas pelas mortes, mas também em relação à contribuição que deixarão de dar à economia, não só financeira, mas principalmente sob a forma de capital humano.

“Diariamente somos informados do número de ocorrências associadas à pandemia do covid-19: o número de infectados e o número de mortos em decorrência do vírus. A cada momento somos informados sobre parentes, colegas, conhecidos, que tragicamente não estarão mais conosco nos dando carinho, alegrias, o prazer da convivência.Essa tragédia já alcança todos nós social ou individualmente. Este é o lado humano dessa tragédia”, constatam Considera e Juliana. Mas, acrescentam,“há outro lado: todas essas pessoas vitimadas tinham certo conhecimento, certas habilidades adquiridas ao longo da vida, que utilizando e transmitindo para colegas poderiam, por muito tempo ainda, contribuir para gerar renda para si, para eventuais dependentes e, portanto, para o País. Eles farão falta. A esse conhecimento e habilidades acumulados se denomina capital humano”.

Contabilidade fatídica

Num estudo atualizado até 16 de maio e divulgado ontem no Blog do Ibre, os economistas estimam que a morte de 216,6 mil pessoas com idades entre 20 e 69 anos trará uma redução aproximada de R$ 5,9 bilhões para a massa de rendimentos anual (que soma todos os rendimentos recebidos pelos trabalhadores), o que corresponderia, numa projeção da coluna, a algo como 2,8% sobre a massa de rendimentos habitualmente recebida pelas pessoas ocupadas no trimestre encerrado em fevereiro deste ano. Essa contabilidade fatídica, no entanto, não se encerra aqui. Perto de 211,0 mil mortes atingiram pessoas com mais de 70 anos, segundo dados do Registro Civil. Considerando um rendimento médio real de aposentadoria e pensão em torno de R$ 1.963, conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Anual de 2019, deixarão de circular pelo menos mais R$ 5,0 bilhões por ano (esse número, que tende a crescer, deverá ser parcialmente compensado pelo pagamento de pensões a viúvas e filhos menores). Na soma final, a perda de rendimentos se aproximaria de R$ 10,9 bilhões por ano, o que representaria perto de 41,6% do valor estimado para o Bolsa Família neste ano (em torno de R$ 26,2 bilhões).

Balanço

  • As perdas em capital humano, na verdade, são de difícil mensuração. Considera e Juliana decidiram estimar esses impactos considerando a expectativa média de vida das pessoas mortas prematuramente em decorrência da pandemia e o rendimento mensal, conforme suas faixas etárias, nível de instrução e gênero. A dupla “anualizou” o rendimento mensal das pessoas com 20 a 69 anos (quer dizer, multiplicou o dado mensal por 12) e mais uma vez multiplicou os valores encontrados pelos anos restantes de vida de acordo com o sexo e a idade.
  • A expectativa de vida varia no decorrer dos anos e não é a mesma entre homens e mulheres. “Por exemplo, a expectativa de vida, ao nascer, de um homem é de 72,8 anos, e das mulheres, de 79,9. Com 50 anos, a expectativa dos homens aumenta para 78,4 anos, e 82,9 anos para as mulheres”, anotam os dois economistas. Os dados correspondem a valores médios estimados pelo IBGE para a população brasileira.
  • Nesse novo exercício, Considera e Juliana conseguem estimar quanto as pessoas que perderam a vida prematuramente “ainda poderiam produzir e gerar de rendimento dada as suas expectativas de vida”.  Nessa conta, as 216,6 mil pessoas mortas com idades entre 20 e 69 anos ainda teriam um rendimento total de R$ 182,6 bilhões. Obviamente, a contabilidade está limitada pela complexidade do cálculo das perdas em capital humano, que não se resume aos rendimentos do trabalho, até pela ausência de séries de dados testados empiricamente sobre o tema.
  • De qualquer forma, a soma da renda que deixou de ser gerada até aqui e as perdas definitivas, daqui para frente, em termos de produção e rendimentos que deixarão de ocorrer, atinge um valor nada desprezível de R$ 193,5 bilhões (ou seja, quase sete vezes mais o orçamento fixado para o Bolsa Família, apenas como referência).
  • Para Considera e Juliana, “muitas dessas pessoas poderiam continuar conosco caso tivessem sido mais bem informados, se alertados através de campanhas sobre os cuidados a serem tomados e da virulência dessa doença” – providências que o desgoverno fez questão de não tomar. “Felizmente”, apontam ainda, “o processo de vacinação está em curso no Brasil e no mundo, apesar do atraso inicial por aqui e de todos os problemas que ocorreram sobre isso. Somente com o fim da pandemia é que a economia poderá ter uma recuperação completa”.
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