Na contramão, País quase dobra exportações de trigo no trimestre

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 23 de março de 2022

Enquanto um conjunto crescente de países adota medidas para restringir exportações de alimentos para assegurar o abastecimento de seus respectivos mercados domésticos, conter pressões altistas sobre a inflação e prover maior segurança alimentar a seus cidadãos, o Brasil caminha nitidamente na contramão, com exportadores aproveitando-se das oportunidades de ganhos facilitados pela disparada dos preços das commodities no mercado internacional. Os dados disponíveis mostram salto nas vendas externas de trigo neste começo do ano, incrementadas no curso mesmo do conflito entre Rússia e Ucrânia, que respondem, em conjunto, por 27% do comércio global do grão, segundo a publicação Indicador de Comércio Exterior (Icomex), do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV).

Segundo dados da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), considerando a escala de embarques já definida até o final deste mês, as exportações do trigo brasileiro deverão atingir algo próximo a 2,143 milhões de toneladas no primeiro trimestre deste ano, superando todo o volume despachado para fora do País ao longo dos 12 meses de 2021. Na verdade, em apenas três meses, os exportadores embarcaram o equivalente a quase todo o trigo vendido ao exterior em 2012, quando o Brasil chegou a exportar algo em torno de 2,405 milhões de toneladas, conforme estatística do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Não por outro motivo, o abastecimento surge ao final do nome do ministério e parece ocupar um espaço secundário nas preocupações da casa.

Para comparar, nos mesmos três meses de 2021, as exportações de trigo haviam somado pouco mais de 1,108 milhão de toneladas, o que significou um aumento de 93,38% na comparação entre aquele trimestre e o mesmo período deste ano. Os embarques programados para março deste ano aproximam-se de 522,16 mil toneladas. No terceiro mês do ano passado, não havia saído do País um grão sequer de trigo. Já em fevereiro, tornava-se clara a intenção dos exportadores, com as vendas de trigo lá fora crescendo mais de 11 vezes em relação ao mesmo mês de 2021, atingindo 925,26 mil toneladas frente a 82,957 mil toneladas em fevereiro do ano passado.

Povão desamparado

Como se sabe, o País depende largamente de importações de trigo para suprir as necessidades de seu mercado, o que ganha gravidade maior num momento de disparada dos preços internacionais. Pior: a alta do trigo tende a puxar para cima os preços de pães, biscoitos, bolos, massas e panificados em geral, gerando mais inflação e atingindo diretamente o bolso dos mais pobres. O crescimento vigoroso das exportações de trigo só poderia mesmo estar ligado à total ausência de uma real política de abastecimento e de segurança alimentar no País, que há muito abriu mão de regular o mercado de alimentos ao liquidar a política de estoques reguladores, o que permitia aos governos comprar excedentes de produção em tempos de safras recordes, garantindo remuneração adequada aos produtores num momento de queda nos preços, e utilizar os estoques acumulados nos anos de vaca gorda para reforçar o abastecimento em períodos de frustração da produção, evitando assim que o consumidor fosse sacrificado desnecessariamente por conta de altas indevidas nos preços dos alimentos.

Balanço

  • A se considerar ainda dados já publicados, as exportações de trigo teriam consumido, já em março, todo o estoque de passagem estimado para este ano pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), lembrando que os números trabalhados pela companhia são extremamente conservadores. A produção de trigo estimada pela Conab para a safra deste ano estaria próxima a 7,879 milhões de toneladas. Considerando importações, estimadas em perto de 6,5 milhões de toneladas, e exportações, a oferta total disponível para suprir o mercado brasileiro estaria na faixa de 14,556 milhões de toneladas.
  • A combinação daqueles números deixaria uma “sobra” projetada em 805,9 mil toneladas para esperar a entrada da próxima safra, em 2023. Já baixo, aquele volume corresponderia a meros 6,3% do consumo doméstico. O problema é que a Conab trabalha com uma previsão próxima a 1,0 milhão de toneladas para as exportações (que já somam mais de 2,1 milhões de toneladas em apenas um trimestre, mais do que duas vezes a estimativa da companhia).
  • Para não criar uma crise de abastecimento no setor (e, portanto, mais pressões sobre a inflação), seria necessário segurar as exportações, impondo freios ao ímpeto dos exportadores, ou ampliar as importações ou, diante da possibilidade de escassez na oferta global por conta da guerra, derrubar o consumo aqui dentro, com todas as suas implicações sociais, econômicas e políticas.
  • A produção brasileira de trigo tem crescido em ritmo até mais acentuado do que o consumo, o que não conseguiu anular a dependência de importações nesta área. Entre 2015 e este ano, nas previsões da Conab, a produção terá crescido 42,4% ao passar de 5,535 milhões para 7,879 milhões de toneladas, enquanto o consumo avançou 23,6%, saindo de 10,313 milhões para 12,750 milhões de toneladas em números aproximados. As importações continuaram avançando, mas num ritmo menos intenso, subindo de 5,518 milhões para 6,50 milhões de toneladas no mesmo intervalo, em alta de 17,8%. Na visão da Conab, as exportações tenderiam até a recuar entre 2015 e este ano, saindo de 1,050 milhão para 1,0 milhão de toneladas, depois de atingir 2,1 milhões de toneladas na estimativa para 2021.
  • Os números do Mapa contam uma história um pouco diferente. Apenas no primeiro bimestre deste ano, as exportações de trigo corresponderam a 83,5% de tudo o que foi exportado nos 12 meses de 2015. Comparados aos dois primeiros meses do ano passado, os embarques saltaram 184,20%, elevando-se de 522,416 mil para 1,485 milhão de toneladas. Em receita, o ganho foi ainda mais expressivo, com as exportações avançando de US$ 110,360 milhões para US$ 437,456 milhões – um salto de 296,39%. A razão está num aumento de 39,5% acumulado pelos preços médios do trigo exportado.
  • Parece óbvio que a escalada dos preços atraiu o interesse dos exportadores, que passaram a acelerar suas vendas para aproveitar a fase de alta, diante do mais completa descaso da equipe econômica e de sua inapetência para administrar a economia. Até ontem, as cotações do trigo nas bolsas de futuros dos Estados Unidos acumulavam alta de 21% desde 24 de fevereiro (data da invasão da Ucrânia) e de 47,8% em relação ao primeiro dia útil de janeiro deste ano.
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