Coluna

O Brasil que dá certo e ainda consegue produzir inovação(com apoio público)

Publicado por: Sheyla Sousa | Postado em: 24 de outubro de 2019

A
ideia inicial foi motivada pela publicação de um relatório setorial do Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) sobre o setor de
biomassa, nos tempos em que a instituição ainda conseguia pensar o País e os
diversos setores da economia numa visão de mais estratégica e de longo prazo. A
partir dali, o doutor em química analítica e ambiental Luiz Fernando Mendes e o
sócio Leonardo Zambotti Villela, mestre em biotecnologia, decidiram apostar no
conceito de microbiorrefinaria destinada à produção de bioprodutos a partir de
resíduos da produção agrícola, criando em março de 2014 a Bioativos Naturais.

A
empresa surgiu como incubada dentro do Centro de Inovação, Empreendedorismo e
Tecnologia (Cietec), entidade gestora da Incubadora de Empresas de Base
Tecnológica de São Paulo da Universidade de São Paulo (USP/Ipen). A ideia era
processar biomassas renováveis, incluindo microalgas, para a obtenção de
bioprodutos de alto valor agregado, utilizando tecnologia de fluidos sub e
supercríticos integrados. A técnica, na verdade, foi desenvolvida na Alemanha
ainda nos anos 1970, mas vinha sendo aplicada apenas em plantas de grande
porte, com custos mais altos.

Quando
qualquer substância é submetida a pressão e temperaturas elevadas, ela atinge o
que se chama na química de estado supercrítico, quando não há mais distinção
entre as fases líquida e gasosa. Os equipamentos disponíveis para isso, todos
estrangeiros, relata Mendes, custariam em média R$ 4,8 milhões, tornando
economicamente inviável o escalonamento do projeto. Por isso, os dois
cientistas começaram a pesquisar, buscaram a ajuda da professora Maria Ângela
Meireles, da Unicamp, hoje sócia da Bioativos, e desenvolveram o equipamento
que tornou possível colocar o projeto de pé. Tudo isso com apoio e recursos do Programa
Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) da Fundação de Apoio à Pesquisa
de São Paulo (Fapesp), da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), do Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do edital Sesi
Senai de Inovação. No total, a empresa recebeu uma injeção de quase R$ 4,0
milhões nos últimos quatro anos.

Bioprodutos

Atualmente,
a empresa está instalada em uma área de 1,0 mil metros quadrados em Santana do
Parnaíba, na Grande São Paulo, onde está também o seu centro de pesquisa,
desenvolvimento e inovação.A tecnologia desenvolvida pelo grupo permite
processar mais de 20 tipos de biomassa e a primeira fornada de bioprodutos deve
chegar ao mercado em 2020, a partir do tratamento e processamento de algas,
gengibre, lúpulo, camomila, bagaço de cana, cravo, café verde, cebola e cúrcuma
(açafrão), entre várias outras biomassas. Mendes destaca que a ideia é
trabalhar com matérias primas que não são aproveitados pelo agronegócio, de
forma a não influir nos preços especialmente de produtos destinados à
alimentação, de forma a “atender ao conceito da nova bioeconomia, que é a
economia pós-petróleo”.

Balanço

·  
A
planta da Bioativos passará a oferecer bioprodutos a indústrias dos setores de
alimentação e bebidas, química fina e fármacos e também de cosméticos, obtidos
a partir de um processo sustentável, que não gera resíduos e, portanto, não
agride o meio ambiente.

·  
Com
uso de gás carbônico como solvente líquido (em regime de circuito fechado, o
que significa dizer que o CO2 será reutilizado no processo e não
retornará à atmosfera), água e etanol, num sistema de temperatura e pressão
controladas, a empresa produzirá óleos vegetais, incluindo desde aromas para
aplicação na indústria de perfumes, óleos essenciais, uma resina especial
extraída do lúpulo, que permitirá reduzir os custos de produção de cervejas
artesanais e também da bebida industrializada.

·  
As
microalgas, que consomem parte do CO2, permitirão a extração de bioprodutos
de alto valor comercial, a exemplo de ácidos graxos, carotenoides e astaxantina,
proteínas, aminoácidos e carboidratos.

·  
As
pesquisas realizadas pelo time da Bioativos permitiram ainda desenvolver um
meio de cultura inovador e de custo baixo para a criação de microalgas, que
acelera seu crescimento. Esse meio está sendo patenteado pela empresa e pela
Fapesp, que apoiou todo o processo também nesta fase.

·  
A
intenção não é produzir microalgas, mas licenciar, por meio de contrato e
compromisso de sigilo, para que outras empresas, talvez alemãs ou israelenses,
produzam a biomassa que entrará no processo da Bioativos como matéria prima.

Isso deverá acelerar a produção de astaxantina,
o mais poderoso antioxidante presente na natureza, de acordo com Mendes, mas
vendida a preços que se aproximam de US$ 10,0 mil o quilo. Além disso, perto de
99% do produto hoje disponível no mercado utiliza derivados de petróleo como
matéria prima, inclusive na astaxantina utilizada em criatórios de salmão – é a
substância que assegura a cor tradicional do peixe.

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