Segunda-feira, 15 de julho de 2024

O “truque” que reduziu a inflação de 2022 e impediu queda maior em 2023

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 12 de janeiro de 2024

Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) confirmam as distorções geradas sobre os preços em geral a partir da manobra eleitoreira adotada em junho de 2022 para artificialmente produzir índices de inflação mais baixos e melhorar a imagem do desgoverno legitimamente desalojado do Palácio do Planalto pelas eleições realizadas naquele ano. Os efeitos do “truque eleitoreiro”, que consistiu na redução arbitrária de impostos e contribuições incidentes sobre combustíveis, energia, comunicações e transportes coletivos, foram mais evidentes sobre a taxa de inflação aferida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2022.

Ao longo do ano seguinte, no entanto, a correção das alíquotas e a volta à normalidade tributária naquelas áreas terminaram de certa forma tornando mais lento o processo de queda da inflação, o que serviu de pretexto para a política de cortes graduais e excessivamente moderados nas taxas de juros. Mais claramente, o IPCA poderia ter caído mais fortemente durante 2023 dado o comportamento muito mais benéfico dos preços dos alimentos durante todo o período, com altas localizadas já no final do ano por conta dos impactos combinados do fenômeno El Niño e do aquecimento global sobre o regime de chuvas e as temperaturas nas principais regiões produtoras do País.

O IPCA acumulado em 12 meses baixou de 5,79% para 4,62% entre 2022 e 2023, ficando pela primeira vez em dois anos dentro do limite admitido pela política de metas inflacionárias. Como se sabe, o centro da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) para o ano passado havia sido de 3,25%, admitindo-se um piso de 1,75% e um teto de 4,75%. A forte queda do IPCA entre 2021 e 2022, saindo de 10,06% para aqueles 5,79%, foi influenciada em larga medida pela redução média de 3,82% dos chamados preços monitorados, com destaque para as quedas de 19,01% nos preços da energia elétrica residencial e de nada menos do que 25,78% nos preços da gasolina.

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Efeitos prolongados

Tratou-se de uma redução artificial, produzida pela menor taxação sobre aqueles setores. Com exclusão da gasolina e da energia elétrica, os demais preços experimentaram um salto de 8,45% em 2022. Pode-se argumentar que parcela dessa alta foi influenciada pelo aumento de 23,53% nos preços das passagens aéreas, um item notoriamente volátil e sujeito a oscilações abruptas. Desconsiderando também as passagens aéreas, de toda forma, os preços médios dos demais itens que compõem o IPCA experimentaram variação de 8,31%. No ano seguinte, a gasolina acumulou elevação de 12,09% enquanto a energia subiu 9,52%, levando os preços monitorados a um avanço de 9,12%. As passagens aéreas anotaram elevação ainda mais expressiva, saltando 47,24% e contribuindo em quase 7,0% na formação do IPCA de 4,62% registrado em 2023.

Balanço

  • Com a exclusão de energia, gasolina e passagens aéreas, a inflação para os demais setores da economia despencou para 3,37% ou quase cinco pontos percentuais abaixo daqueles 8,31% alcançados em 2022. O cenário mais benéfico deveu-se principalmente ao bom comportamento dos preços no grupo alimentos e bebidas, que dispararam em 2022, aumentando 11,64%, o que se compara com uma taxa de 1,03% no ano passado. Aqueles preços haviam explicado 41,62% do IPCA de 2022 e tiveram sua influência limitada a menos de 5,0% um ano depois.
  • A desaceleração no ritmo de avanço dos preços dos alimentos contribuiu ainda para desafogar a pressão sobre os orçamentos familiares, sobretudo das famílias de renda mais baixa, liberando recursos para outros tipos de gastos, o que tem ajudado a preservar algum ritmo nos negócios em geral, evitando um mergulho da atividade econômica.
  • Para comparar, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que afere o custo de vida para famílias com renda entre um e cinco salários mínimos (R$ 1.302 A R$ 6.510), havia subido mais do que o IPCA em 2022, atingindo 5,93% com salto de 11,91% nos custos médios de alimentos e bebidas. No ano passado, o INPC anotou variação de 3,71%, numa redução de 2,22 pontos percentuais frente ao ano anterior. Em grande parte, a menor pressão veio precisamente dos alimentos, que anotaram variação de apenas 0,33% nos 12 meses de 2023. Apenas para relembrar, o IPCA mede o custo de vida para famílias com rendimentos entre um e 40 salários mínimos (R$ 1.302 a R$ 52.080).
  • A inflação mais baixa certamente favoreceu um aumento real dos salários das famílias de renda mais baixa no ano passado, num cenário reforçado ainda pela retomada da política de valorização do salário mínimo, abandonada nos últimos anos, e pela remodelação do programa Bolsa Família.
  • Ainda no grupo de alimentos e bebidas, as maiores pressões vieram da alimentação fora de casa, refletindo ainda o processo de recomposição dos negócios nesta área, fortemente afetados durante a pandemia. No IPCA, o custo da alimentação fora de casa subiu 5,31%, com elevação de 5,46% na medição do INPC. Mas os preços médios dos alimentos consumidor no domicílio recuando, na mesma ordem, 0,52% e 1,05%. Mais uma vez, o barateamento dos preços foi mais intenso entre os consumidores de renda mais baixa, trazendo alívio a essa faixa da população.
  • As projeções para a inflação deste ano começam a ser retrabalhadas pelas consultorias e departamentos econômicos dos grandes bancos, até como forma de influenciar no processo de decisões do Banco Central (BC) em relação à política de juros. Nas apostas mais frequentes, registradas pelo relatório Focus, espécie de “enquete inflacionária” conduzida pela autoridade monetária entre instituições do setor financeiro, o IPCA deste ano está previsto em 3,90%. Mas já surgem projeções mais baixas, na faixa de 3,60%, com a manutenção da tendência de desinflação iniciada em 2023.