segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Preços mais influenciados pela demanda registram forte desaceleração em março

Lauro Veiga Filhopor em
Preços mais influenciados pela demanda registram forte desaceleração em março
Preços mais influenciados pela demanda registram forte desaceleração em março

Ampliando a tendência de desaceleração já observada na primeira quinzena do mês passado, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechou as quatro semanas de março em 0,16%, bem abaixo da taxa de 0,71% registrada no mesmo período de 2023 e inferior ao IPCA-15 acumulado entre os dias 16 de fevereiro e 14 de março, na faixa de 0,36% – que, por sua vez, já havia sido muito mais baixo do que a inflação de 0,83% anotada em fevereiro. Em quatro semanas, portanto, a taxa experimentou um recuo equivalente a 0,67 pontos de percentagem, derrubando o IPCA acumulado em 12 meses de 4,50% para 3,93%, lembrando que o centro da meta inflacionária definida para este ano está em 3,0%, com margem de meio ponto percentual para baixo ou para cima.

Mas os preços que sofrem mais diretamente a influência da demanda passaram a variar numa intensidade ainda menor, sugerindo um mercado “frouxo” (quer dizer, com consumo acomodado em níveis que não representam riscos de uma recaída inflacionária). O cenário nesta área parece bem mais favorável do que parecem sugerir as projeções do Comitê de Política Monetária (Copom), que chegou a antecipar a decisão de aplicar mais um único corte de meio ponto percentual sobre a taxa de juros básicos no restante do ano, deixando o custo básico do crédito na faixa de 10,25% ao ano.

Descontados os preços monitorados, determinados de alguma forma pelo poder público, os demais produtos e serviços acompanhados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que responde pelo cálculo do IPCA, registraram variação muito próxima de 0,05% em março, o que se compara com 0,18% na taxa observada entre 16 de fevereiro e 14 de março e com 0,65% nos 29 dias de fevereiro deste ano. Essa medição carrega a influência dos preços das passagens aéreas, que têm se mostrado extremamente voláteis e encontram-se em baixa nas últimas semanas, com quedas de 10,71% em fevereiro e de 9,14% em março (ligeiramente mais acentuada do que o recuo de 9,08% registrado entre a segunda quinzena de fevereiro e as primeiras duas semanas de março). Excluídas as passagens e bens e serviços monitorados, de toda forma, os demais preços anotaram elevação de 0,12% nas quatro semanas do mês passado, diante de 0,27% nos 30 dias terminados em 14 de março e 0,74% ao longo de fevereiro.

Preços “livres”

O acompanhamento realizado pela economista Luciana Rabelo, da equipe de macroeconomia do Itaú BBA, reforça a tendência de desaceleração no ritmo de alta dos preços “livres”, não sujeitos a controles e monitoramento pelo governo e agências reguladoras. Esse conjunto de itens havia experimentado elevação de 0,80% em fevereiro, passando a subir 0,24% nos 30 dias terminados em 14 de março, cedendo para apenas 0,13% nas quatro semanas do mês passado. Num exercício feito pela coluna, com a exclusão dos preços das passagens aéreas, a alta saiu de 0,89% em fevereiro para 0,31% na medição seguinte, coberta pelo IPCA-15 de março, recuando para 0,20% no fechamento do mesmo mês. Nos cálculos do Itaú BBA, a inflação dos preços livres passou a acumular 3,10% em março, praticamente no centro da meta inflacionária fixada para 2024, diante de 7,25% no mesmo mês do ano passado.

Balanço

  • No relatório Focus divulgado no início desta semana pelo Banco Central (BC), a mediana das previsões do setor financeiro indicava uma inflação de 0,24% para março, enquanto o próprio Itaú BBA projetava uma taxa de 0,27%. Obviamente, a inflação real ficou um tanto inferior às apostas do mercado, lembrando que o IPCA já vinha baixando depois de absorvidas as altas de mensalidades e materiais escolares e diluída de certa forma a inflação dos alimentos e dos combustíveis.
  • O Itaú BBA, em relatório divulgado ontem, aponta “surpresas baixistas disseminadas em três grupos”, a saber, alimentação no domicílio, que teve a inflação reduzida de 1,04% nos 30 dias terminados em 14 de março para 0,59% nas quatro semanas do mesmo mês; serviços, com variação de apenas 0,10% em março; e bens industriais, com deflação de 0,12% no mês passado.
  • “Em relação aos núcleos, tanto serviços subjacentes quanto industriais subjacentes vieram abaixo do esperado”, anota Luciana Rabelo. Esses indicadores “subjacentes” em geral excluem itens mais voláteis e refletem basicamente o comportamento de preços de serviços e bens que reagem mais diretamente a flutuações salariais. No caso dos produtos industriais “subjacentes”, os preços recuaram em média 0,08%. Os serviços “ subjacentes” variaram 0,45% em estabilidade virtual diante da taxa de 0,40% alcançada no IPCA-15 de março e abaixo da alta de 0,51% projetada.
  • Conforme a economista, “na média móvel de três meses, com dados dessazonalizados e anualizados, os serviços subjacentes ficaram estáveis em 5,7% e industriais subjacentes também, em 1,9%. Na mesma métrica, a média dos núcleos desacelerou para 3,5%” (saindo de 3,9% na aferição anterior).
  • O IPCA em Goiânia, ao contrário, apresentou elevação ao passar de 0,14% no período quadrissemanal terminado em 14 de março para 0,36% nos 30 dias do mês passado. As pressões vieram principalmente do grupo alimentação e bebidas e da alta da energia elétrica residencial. No primeiro caso, os custos subiram 0,78% em todo o mês de março, depois de anotarem variação de apenas 0,06% na quadrissemana concluída em 14 de março. As tarifas de energia, que haviam subido 3,11% na medição anterior, passaram a indicar elevação de 4,21%. Pouco mais de quatro quintos do IPCA de março podem ser explicados, portanto, pelo encarecimento da alimentação e da energia elétrica. 

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