Coluna

Tudo bem na indústria goiana? Nem tanto. Só quatro setores cresceram

Publicado por: Sheyla Sousa | Postado em: 10 de junho de 2020

A
indústria goiana registrou em abril o segundo melhor desempenho entre todas as
demais regiões acompanhadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE), como mostra a edição mais recente da
pesquisa regional da produção industrial, divulgada ontem. Houve avanços de
2,3% na passagem de março para abril deste ano e de 0,4% na comparação com
abril do ano passado. Os números destoam tanto do desempenho da indústria como
um todo no País quanto da tendência esperada para tempos de isolamento social e
pandemia. Na verdade, no entanto, o comportamento pode ser explicado em função
da própria estrutura da indústria goiana, com influência ainda de fatores
transitórios e das medidas de afastamento social, ainda que isso possa parecer
um tanto paradoxal.

Antes,
uma anotação de caráter mais geral: as perdas foram generalizadas, tanto de
março para abril quanto em relação a abril de 2019, preservando apenas Pará e
Goiás. A queda na produção foi intensa no Nordeste (retração de 29% de março
para abril e de 33,1% frente a abril de 2019), assim como nos Estados do Sul e
do Sudeste, com destaques negativos para São Paulo (-23,2% e -31,7% naquela
mesma ordem), e Paraná (-28,7% e -30,6%).

Em
Goiás, como já conhecido, os setores de produção de alimentos, biocombustíveis
(biodiesel e etanol) e bens farmoquímicos e farmacêuticos respondem por quase
dois terços do valor da transformação industrial (na verdade, o percentual
chegava, em 2017, dado mais recente do IBGE, a 61,55% do valor total da
produção, de forma mais simplificada). Foram exatamente esses setores que
lideraram a elevação da produção em abril e, não por coincidência, foram
setores classificados como essenciais e que sofreram menores restrições para
continuaroperando.

Inadimplência
camuflada

Evidentemente,
quando a coluna se refere a “menores restrições” estas estão relacionadas à
menor severidade das medidas de afastamento naquelas áreas, já que o impacto da
queda da renda e do poder de consumo das famílias, especialmente com o avanço
do desemprego, ainda não foi integralmente percebido e tenderá a ser mais
severo nos meses seguintes. As demissões tendem a avançar diante da retração da
demanda, das perdas de renda para as famílias e da queda vertical no
faturamento das empresas, que correm riscos crescentes de encerramento de suas
atividades na medida em que os recursos prometidos pelo governo não estão
chegando. Parece prevalecer, por enquanto, uma espécie de “moratória
consentida” e ainda não totalmente visível seja pelas dificuldades impostas
pelo isolamento, seja porque há a percepção de que quaisquer medidas mais
drásticas de execução de dívidas poderiam levar à derrocada tanto de credores
quanto de devedores.Tudo considerado, não há certezas de que os números
relativamente mais animadores em abril deverão se repetir em maio.

Balanço

·  
A
pesquisa do IBGE traz dados desagregados por setor de atividade apenas na
comparação anual. A variação de 0,4% observada em abril, frente a igual mês do
ano passado, além de modesta, veio na sequência de quatro meses com resultados
negativos para a produção em Goiás (-3,4% em dezembro de 2019; -1,0% em janeiro
deste ano; -1,5% em fevereiro; e -1,2% em março, sempre em relação a iguais
períodos do ano imediatamente anterior).

·  
Parte
substancial daquele avanço veio da alta de 4,0% na produção de bens
alimentícios (que havia se mantido estagnada em março, depois de desabar 8,1%
em fevereiro).

·  
O
salto de 39,3% registrado pela produção da indústria extrativa, sob influência
da maior produção de fosfato, calcário, minério de cobre e brita, surge na
sequência para explicar o desempenho positivo de toda a indústria (lembrando
que o setor de extração representa 5,11% do valor produzido por toda a
indústria goiana).

·  
A
terceira maior contribuição veio da indústria de biocombustíveis, embora o
crescimento neste setor tenha sido de 8,8% frente a abril de 2019. A influência
sobre o resultado final da indústria foi menor, comparativamente ao setor de
alimentos, porque os biocombustíveis participam com 12,89% do valor da
produção.

·  
Um
dos problemas para o setor é que as vendas não têm acompanhado o crescimento da
produção, o que tende a gerar aumento de estoques, levando, em algum momento,
mesmo a um ritmo mais lento na operação das indústrias. Segundo dados da
Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a produção goiana
de biodiesel recuou 6,87% entre março e abril, saindo de 75,339 milhões para
70,601 milhões de litros, o que significou alta de 8,37% frente a abril de 2019
(64,742 milhões de litros).No acumulado entre janeiro e abril, a produção cresceu
7,52% (de 247,855 milhões para 266,5 milhões de litros).

·  
No
caso do etanol, com o começo da safra 2020/21, a produção saltou 254% de março
para abril, chegando a 316,885 milhões de litros (2,62% mais em relação a abril
de 2019). Um salto meramente sazonal, já que o setor estava em período de
entressafra até março. Nos primeiros quatro meses deste ano, a produção
aumentou 13,51% (de 450,970 milhões para 511,892 milhões de litros). Mas as
vendas de etanol hidratado desabaram 31,0% entre abril do ano passado e o mesmo
mês deste ano (de 143,590 milhões para 99,089 milhões de litros), acumulando
recuo de 10,16% nos quatro meses iniciais deste ano, frente a igual intervalo
de 2019.

·  
O
consumo de etanol anidro deve ter caído também, considerando-se uma redução de
18,3% nas vendas de combustíveis em geral apenas em abril.

·  
A
produção de medicamentos, em outro efeito indireto da pandemia, aumentou 6,7%
em abril (mas acumula variação de somente 0,4% no primeiro quadrimestre).

·  
A
produção de veículos tombou 98,2% em abril e ficou negativa em 37,1% no
primeiro quadrimestre. As indústrias de outros produtos químicos (adubos e
fertilizantes) e de minerais não metálicos (bens e insumos associados à
construção civil) sofreram perdas em abril de 25,4% e de 14,6% respectivamente.

 

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