Coluna

Uma leitura enviesada dos dados regionais

Publicado por: Sheyla Sousa | Postado em: 21 de agosto de 2019

Economistas,
consultores e analistas em geral buscam desagregar dados econômicos para
oferecer uma visão mais precisa e acurada da conjuntura, de forma a embasar
prognósticos que tenham um mínimo de consistência (ainda que previsões e
apostas no futuro, como é da natureza das projeções em geral, sejam uma
atividade de alto risco, muito especialmente quando economistas, consultores e
analistas são “externamente motivados”, quer dizer, orientam suas análises
segundo interesses de grupos ou de setores específicos).

Por
isso, causam certa estranheza as conclusões expressas pelo Banco Central (BC)
na mais recente edição de seu boletim regional, divulgado na sexta-feira
passada, 16. Não pelos números trazidos pelo relatório, mas pela leitura um
tanto enviesada feita pela autoridade monetária acerca dos dados regionais
compilados pela própria instituição. Parece mais um caso em que o todo supera a
soma das partes.

Diz
o BC, já na abertura do boletim: “A evolução dos indicadores de atividade
sugere possibilidade de retomada do processo de recuperação da economia”. Uma
recuperação intuída, ao que parece, do mero fato de que a atividade econômica
já teria enfrentado um período suficientemente longo de baixo crescimento e
frustração de expectativas que, daqui em diante, ela somente poderia crescer –
o que parece ser mais um desejo do que uma perspectiva concreta.

Não
por isso, na sentença seguinte, prossegue o boletim: “Regionalmente,
observou-se, na margem, maior convergência nas trajetórias de indicadores de
atividade no curto prazo, refletindo processo generalizado de acomodação. Nesse
cenário, a economia em todas as regiões segue operando com alto nível de
ociosidade dos fatores de produção e diversas medidas de inflação subjacente se
encontram em níveis confortáveis”. Traduzindo: a economia nas regiões
brasileiras parou de crescer (acomodou-se, na retórica do BC) e aponta número
alto de máquinas paradas nas fábricas e níveis elevados de desemprego, tanto
que a inflação continua muito bem-comportada.

Assim é se lhe
parece

Seria
possível inferir, a partir daquele segundo postulado, que, se as economias
regionais pararam de crescer, a ociosidade nas indústrias é alta e milhões de
trabalhadores não conseguem emprego (ou tratam de sobreviver na economia
informal, sem qualquer proteção nem direitos trabalhistas) que a economia
brasileira vai igualmente mal, sem melhora nas perspectivas para o curto e
médio prazos. Mas, como visto, não é esta a avaliação apresentada pelo BC.
Pior: é esta avaliação que tem sido um dos pontos alegados pela instituição
para demorar mais do que o desejável para iniciar a nova rodada de cortes nos
juros básicos e ainda sugerir que aquelas taxas demorarão ainda para atingir os
níveis que até o mercado (ora vejam) considera “razoáveis” diante da estagnação
no lado real da economia.

Balanço

·  
O
índice de atividade desenvolvido pelo BC para funcionar como uma espécie de
“indicador antecedente” do Produto Interno Bruto (PIB) apresentou franca
desaceleração entre os trimestres encerrados em fevereiro e maio, recuando
respectivamente 0,1% e 1,0% na média de todo o País (o que não parece um
indício de crescimento à frente).

·  
As
únicas exceções, se é que se pode aplicar esse tipo de
classificação quando se tratam de números tão baixos, ficam por conta das
regiões Sul e Nordeste (neste caso, com muita complacência). Na primeira
região, o índice saiu de um recuo de 0,2% para um avanço muito moderado de 0,2%
entre os trimestres terminados em fevereiro e maio deste ano.

·  
A
economia nordestina, que havia encolhido 0,5% no trimestre entre dezembro de
2018 e fevereiro de 2019, sofreu recuo em ritmo menos intenso, de 0,2%, no
trimestre entre março e maio deste ano.

·  
No
Norte do País, a economia deixou para trás uma elevação de 1,0% e passou a
apresentar recuo de 0,3% naqueles mesmos trimestres. O Centro-Oeste, que já havia
avançado apenas 0,1%, caiu 0,5%. No Sudeste, que concentra a maior fatia do PIB
nacional, a atividade econômica passou de um incremento de 1,1% para quase
estagnação no trimestre março-maio de 2019, numa variação de 0,1% frente aos
três meses imediatamente anteriores.

·  
A
taxa de desemprego avançou em todas regiões entre o último trimestre de 2018 e
o primeiro deste ano, saindo de 11,7% para 13,1% no Norte; de 14,3% para 15,3%
no Nordeste; de 8,5% para 10,8% no Centro-Oeste; de 12,1% para 13,2% no Sudeste;
e de 7,3% para 8,1% no Sul (a mais baixa entre as regiões).

A produção industrial desabou 9,1% no Norte,
caiu 1,2% no Nordeste e 1,3% no Centro-Oeste, recuando 0,3% no Sudeste. Em
outra exceção, o Sul anotou crescimento de 2,1% (sempre na comparação entre o
trimestre março-maio deste ano e o trimestre anterior). 

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