Veja como o Rio Meia Ponte está sendo aterrado devido despejo de entulhos

Postado em: 18-10-2021 às 07h55
Por: Redação
Reportagem do Hoje descobriu, por acaso, descarte ilegal de entulho no rio | Foto: Jota Eurípedes

Por Yago Sales

Rafael Tristão, um desses homens que vivem a caçar indícios de desmatamento no que resta do Cerrado em Goiânia, queria inspecionar as margens do Rio Meia Ponte. Ele não sabia, mas ia encontrar, por acaso, um crime ambiental que, literalmente, está enterrando a principal Bacia Hidrográfica de Goiânia. O flagrante foi feito no Jardim Califórnia, na região leste de Goiânia. Desde 2015, caminhões lançaram toneladas de entulhos, invadindo dez metros do rio. A Polícia Civil vai investigar o caso.

Tristão é membro dos Guardiões do Rio Meia Ponte e queria verificar as matas ciliares do rio quando se deparou com o flagrante, acompanhado pelo jornal O Hoje. No meio da mata, desviandose e às vezes enfiando-se entre cipós e galhos, Tristão se depara com sementes, folhas, troncos e pegadas de bichos. Os poucos que resistem à falta de moradia.

De repente, lá vem as águas do rio, cada segundo um cenário diferente, com águas barrentas. “Parece que tá limpo”, Tristão comenta, mas sem certeza. Para chegar naquele ponto, muito esgoto foi despejado por empresas. Lixos jogados nas ruas foram levados via bueiros. Uns passos a mais, cipós no rosto, bambus, um ipê, uma aroeira – uma árvore grande, viva. Cigarras, periquitos e muriçocas orquestram a trilha sonora da tarde de expedição.

Em outro ponto, Tristão pega o celular para fazer registros. Diante dele, um monturo de restos de construções. Uma olhadela a mais, ele vê que a montanha de entulhos praticamente enterrou as margens, quase emendando as bordas do rio. Estávamos diante de um crime ambiental grave. Toneladas de casas, edifícios e muros demolidos, os restos da composição arquitetônica e geográfica de Goiânia dentro do rio. “Rio-rio-rio, o rio — pondo perpétuo”, diria Guimarães Rosa.

Tristão filma, indignado. Acompanhado do repórter e do fotógrafo do jornal – igualmente estarrecidos com o que flagram-, Tristão calcula cinco metros de entulho para o meio do rio. “Uns quinze metros”, chuta o fotógrafo Jota Eurípedes. O repórter calcula 20 metros. Uma matemática com uso de imagens de satélite definem que o entulho encobriu 10 metros do rio. Fora as matas ciliares que, desde 2015, sem qualquer fiscalização, foram arrancadas e, aos poucos, enterradas por caminhões e contêineres.

O flagrante foi feito por acaso, em uma expedição para tentar entender como as matas ciliares estão desaparecendo em boa parte do percurso do Meia Ponte que definiu o ponto geográfico no mapa brasileiro da nova capital de Goiás, em 1930, pelo médico Pedro Ludovico Teixeira.

Quando bebeu da água do rio há quase nove décadas, Pedro Ludovico, abismado pela riqueza hídrica do local, decidiu: “‘Quero aqui. É aqui, não tem outro lugar’”. Depois, em carta a Getúlio Vargas em 1933, defendeu a transferência da Capital. A bacia hidrográfica do Rio Meia Ponte abrangeria 39 municípios – Muitos surgiram no decorrer das décadas seguintes. À época, claro, não tinha quase 2 milhões e meio de moradores. O Rio Meia Ponte nasce no município de Itauçu, percorre 472 km até misturarse ao Rio Paranaíba.

Com o tempo, o crescimento populacional passou a ser um problema grave demais para as águas tão admiradas pelo fundador da cidade de Goiânia. Há pontes em vários bairros sobre o rio, edifícios, casas e, mesmo sob a lei que determina 30 metros de matas ciliares para rios com 10 metros de largura, não é raro encontrar ações humanas ultrapassando todos os limites. É o caso do trecho encontrado.

Diante de tudo isso, o Meia Ponte é o retrato do total desprezo. Represamento, drenos, derrubada da área de preservação, descarte irregular de lixo. Até lixões surgem para lutar ainda mais contra a sobrevivência de piabas, mandarins e bagres e toda a vida que depende da água que por ali flui. E dos bichos que necessitam beber dela, também.

“Esse absurdo compromete a qualidade da água do rio”

Há várias pessoas que tentam salvar o Rio Meia Ponte, nadando contra a maré de crimes ambientais cometidos na surdina, aos poucos, nas noites. Marcos Antônio Correntino da Cunha é um desses desbravadores. Entende como poucos dessa bacia hidrográfica. Não são palavras dele, mas ele é um homem ignorado, embora consultor em Hidrologia e Recursos Hídricos, ex-presidente do Comitê da Bacia do Rio Meia Ponte, Correntino viu as fotos do flagrante do jornal.

“Esse absurdo compromete gravemente a qualidade das águas do Rio Meia Ponte e contribui para acelerar o assoreamento. Quando chover, esses materiais sólidos serão carregados para o rio.” Segundo ele, outro fator é que, quando o nível da água baixar, poderão fazer pequenos barramentos do fluxo da água, ou seja, formação de poços. “Com isso, esta água parada será um vetor de transmissão de doenças de veiculação hídrica. Além disso, devido ao grande volume de entulhos, poderá contaminar também, as águas subterrâneas”, interpreta.

Outro preocupado com a devastação causada pelos restos de construções é o engenheiro florestal Rodrigo Carlos Batista. Ele lembra que a área é de preservação permanente. “A vegetação deve ser mantida, para garantir a estabilidade geológica, conservação da biodiversidade e, principalmente, para a conservação de nascentes e cursos hídricos.”

Essa área deveria ser protegida pelo Código Florestal Brasileiro (Lei n° 12.651, de 25 de maio de 2012). “Atualmente, essa problemática ambiental é intensificada por fatores como adensamento populacional e especulação imobiliária, que exercem fortes pressões na exploração econômica dos recursos naturais, principalmente da água e do solo”, aponta Marcos Antônio.

Do outro lado do rio, há um portão, de onde os caminhões trazem os entulhos pela avenida Pirâmide, no Jardim Califórnia. Na avenida bloqueada por manilhas, vacas mascam capim. Para chegar na entrada da propriedade,também é possível encontrar um bode dentro de um cercado de arame. Falam por ali que o dono do local onde é despejado o entulho é bravo e até tem coragem de ‘sair dando tiro’.

A reportagem foi procurar quem tem poder de polícia, para coibir o crime ambiental. Com nem um fio de cabelo preto, Luziano Severino de Carvalho, o quase-eterno delegado da Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Contra o Meio Ambiente (DEMA) encara o computador no ponto desmatado em um mapa virtual oferecido pelo policial Rauder de Castro Alves. Depois de explicar os problemas ali, além dos entulhos, ele garante: “Vamos fazer o indiciamento”. A expertise do policial encontrou ainda, numa propriedade ao lado daquela, por onde caminhões despejam o entulho, um dreno ilegal que causou morte de matas ciliares.

O engenheiro florestal Rodrigo Carlos Batista, em tom catastrófico, alerta: “A diminuição ou até mesmo a retirada dessa vegetação ao longo dos cursos hídricos podem favorecer para grandes impactos, como diminuição do leito dos rios por assoreamento, inundações em períodos de chuva e até mesmo, a seca total, perdendo grande parte de biodiversidade de fauna e flora.”

E isso, diz ele, ‘pode causar o assoreamento’. “O solo exposto é transportado com maior facilidade para o fundo dos rios e consequentemente podem ocorrer o desbarrancamento das margens, e intensificam principalmente em períodos de chuvas. O assoreamento em rios pode reduzir o volume de água. Como o leito está ocupado por detritos, quando ocorrem chuvas intensas, a água transborda e pode causar verdadeiras tragédias, a depender da região onde está localizado o leito do rio”, explica o especialista. (Especial para O Hoje)

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