quarta-feira, 28 de outubro de 2026
Saúde

Uso de cigarros eletrônicos entre adolescentes dispara e coloca pais e escolas em alerta

Em alguns casos, os jovens admitem já conhecerem os riscos da substância, mas usam como forma de “pertencer ao grupo” ou como “válvula de escape” para questões emocionais

Alexandre Paespor em

O uso de cigarros eletrônicos pelos adolescentes tem colocado colégios brasileiros em alerta, e a preocupação cresceu neste ano, com a retomada das aulas presenciais. O consumo é comum em ambientes reservados, como nos banheiros, e há casos até de venda dos dispositivos, que são proibidos no Brasil, dentro das escolas.

Colégios privados tem feito comunicados aos pais e abordam em aulas os riscos da substância, que é vista muitas vezes como inofensiva. O maior desafio é identificar o cigarro eletrônico, uma vez que os dispositivos são discretos (alguns se parecem com pendrives), podem passar despercebidos pelos professores e monitores.

Os cigarros eletrônicos funcionam por meio de uma bateria que esquenta um líquido interno (uma mistura de água, aromatizante alimentar, nicotina, propilenoglicol e glicerina vegetal). Também chamado de vape ou pod, o usuário traga pela boca e cria uma fumaça branca e com um cheiro que se dissipa rapidamente no ar.

Adolescentes ouvidos pelo jornal Estadão afirmaram que o consumo é comum entre grupos de estudantes, principalmente do ensino médio, nos banheiros, no fundo da sala de aula ou nas quadras. Eles marcam encontros em áreas mais reservadas das escolas, onde fumam juntos. O uso também ocorre fora do colégio, na saída da aula ou no intervalo entre os turnos.

Como são caros, custando entre R$ 60 e R$ 80, muitos estudantes costumam fazer vaquinha para comprar o produto, e apesar da venda ser proibida no Brasil, os cigarros eletrônicos são facilmente encontrados em tabacarias, lojas de conveniência e redes sociais. Na escola, são passados de mão em mão ou dentro dos estojos, contam os estudantes.

Em alguns casos, os jovens admitem já conhecerem os riscos da substância, mas usam como forma de “pertencer ao grupo” ou como “válvula de escape” para questões emocionais. Já outros jovens se surpreendem com a informação de que o uso dos cigarros eletrônicos pode ser cancerígeno, viciante e causar danos aos pulmões.

Uso como forma de pertencimento a um grupo

O cigarro eletrônico é um problema crônico em outros países, como os Estados Unidos. No Brasil, ganhou força mais recentemente. “Vai todo o mundo para a cabine de cadeirante (no banheiro), mais espaçosa, e ficam todos lá”, conta um adolescente de 17 anos, aluno de uma escola particular em Brasília.

Outra estudante, da rede estadual paulista, de 14 anos, diz ter começado a usar há um mês, na escola, e compartilha o vape de sabor de uva com três colegas. O consumo, diz, é para aliviar tensões. “Nunca tive relação boa com minha mãe e, desde o início da pandemia, só tem piorado.”

Um colégio particular de Salvador, o Antônio Vieira, enviou comunicado aos pais no fim de março sobre o risco do cigarro eletrônico. A direção diz não ter registrado consumo no colégio, mas percebe aumento do problema entre jovens de modo geral. O comunicado fala até em “transferência compulsória” em caso de uso na escola.

“Eles acham interessante a tecnologia do aparelho, que pode botar água e o sabor que quer”, diz a diretora acadêmica do Antônio Vieira, Ana Paula Marques. “As próprias famílias muitas vezes não têm clareza do que é isso.” Os professores vêm buscando informações sobre o tema.

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