Brasil ‘cresce’ em novo mapa-múndi apoiado pela ONU
Projeção Equal Earth reduz distorções do mapa de Mercator e representa o território brasileiro de forma mais próxima de sua dimensão real
A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou uma resolução para que o mundo abandone gradualmente o tradicional mapa-múndi baseado na projeção de Mercator e adote representações que retratem com maior fidelidade o tamanho real dos territórios, como África e América do Sul, incluindo o Brasil. A proposta recebeu 164 votos favoráveis, enquanto apenas os Estados Unidos votaram contra e seis países — Estônia, Geórgia, Lituânia, República da Moldávia, Sérvia e Ucrânia — se abstiveram.
Elaborada e apresentada pelo ministro das Relações Exteriores do Togo, Robert Dussey, a resolução prevê a adoção gradual da projeção Equal Earth, desenvolvida em 2018 por uma equipe internacional de cartógrafos. O modelo busca representar de forma equivalente as proporções terrestres e marítimas dos territórios.
Projeção de Mercator
Desenvolvida pelo cartógrafo Gerardus Mercator em 1569 com o objetivo de orientar navegadores, a projeção de Mercator é amplamente utilizada, mas recebe críticas pelas distorções provocadas nas áreas próximas aos polos. O modelo faz com que territórios localizados em regiões de altas latitudes aparentem ser maiores, enquanto áreas próximas à linha do Equador são representadas de forma proporcionalmente menor.
Na projeção de Mercator, a Groenlândia, por exemplo, aparenta ter tamanho semelhante ao da África. O continente africano, no entanto, é 14 vezes maior que a ilha ártica. O Brasil também possui área quatro vezes maior que a Groenlândia.
As distorções são apontadas por ativistas como parte de um processo denominado “colonialismo cartográfico”. Nesse contexto, a resolução aprovada pela ONU promove a adoção gradual do modelo Equal Earth, que busca preservar as proporções reais das áreas terrestres e marítimas.
A projeção também é utilizada como base para o novo mapa proposto recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que coloca o Brasil no centro do globo.
Divergências na ONU
A aprovação da resolução foi acompanhada por divergências entre os países-membros. A delegação dos Estados Unidos criticou a iniciativa e afirmou que a resolução “zomba do trabalho e do propósito” das Nações Unidas. Segundo os diplomatas americanos, a discussão sobre mapas do século XVI desvia o foco da organização de questões consideradas urgentes, relacionadas à segurança e à prosperidade internacional. A representação também classificou a proposta como uma agenda ideológica e radical voltada para reparações históricas e “justiça cognitiva”.
A Ucrânia justificou a abstenção pela forma como a versão do mapa apresentada como modelo básico representa partes do território nacional que estão sob ocupação temporária da Rússia. A representação diplomática de Kiev afirmou que a correção de distorções históricas não deveria abrir margem para interpretações territoriais problemáticas.
A França, por outro lado, anunciou que deixará de utilizar mapas com a projeção de Mercator no Ministério das Relações Exteriores antes mesmo da votação da resolução.
O secretário das Relações Exteriores do Togo afirmou que a mudança contribuirá para alterar narrativas e descolonizar a percepção pública global. Na avaliação de Robert Dussey, “chegou a hora de a África assumir a responsabilidade de mudar aquilo que pode mudar por si mesma”.
As resoluções da Assembleia Geral da ONU não possuem caráter de cumprimento obrigatório. A aprovação da medida, contudo, abre caminho para a atualização de currículos escolares e para a revisão de plataformas digitais de mapeamento cotidiano, como o Google Maps.
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