sexta-feira, 28 de agosto de 2026
Caso de Racismo

MP abrirá investigação sobre policial do TJ suspeito de racismo

Procurador relata discriminação racial dentro do Tribunal de Justiça de São Paulo

Tathyane Melopor em
MP abrirá investigação sobre policial do TJ suspeito de racismo
Procurador relata discriminação racial dentro do Tribunal de Justiça de São Paulo | Foto: Freepik

O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) abriu uma investigação para apurar as acusações de racismo contra um policial militar responsável pela segurança interna da presidência do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP).

O incidente ocorreu no dia 30 de julho, quando o procurador Eduardo Dias Ferreira de Souza, um homem negro de 61 anos, foi supostamente alvo de discriminação racial ao ser forçado a passar por um detector de metais, apesar de já ter se identificado e sido liberado pela segurança terceirizada do tribunal.

O caso ganhou notoriedade após o procurador relatar o ocorrido em entrevista à GloboNews. De acordo com Eduardo, ele se identificou com o crachá funcional ao entrar no TJ-SP para acompanhar uma audiência judicial, e sua entrada foi prontamente autorizada por uma segurança terceirizada.

No entanto, um policial militar à paisana, que fazia parte da segurança da presidência do tribunal, interrompeu o acesso do procurador, ordenando aos gritos que ele retornasse para passar pelo detector de metais.

Eduardo descreveu o momento em que entrou no elevador do TJ-SP e foi surpreendido pelos gritos do policial militar: “Pode voltar!”. Apesar da insistência da segurança terceirizada, que havia liberado sua entrada, o policial continuou a exigir que o procurador passasse pelo detector de metais.

“Ele [agente da PM] entrou no elevador em uma posição estratégica, travando a porta. Eu vi que aquilo não ia se resolver, que ele não ia sair. Para não tumultuar e nem travar a sessão, eu saí [do elevador]”, disse Eduardo à GloboNews.

Após o incidente, Eduardo foi obrigado a passar pelo detector de metais, onde a segurança interna realizou a verificação

“Levantei o braço, ele [a segurança interna, dessa vez] passou aparelho… apitou na minha funcional, eu tirei a funcional… também [apitou] no celular. Fiquei com o celular e a funcional na mão. O rapaz [da segurança] quase tremendo fez a detecção. Eu entrei, fui para a minha sessão, tinham dois processos de interesse do Ministério Público”, relatou o procurador.

Eduardo, que atua como procurador há 35 anos, lamentou profundamente o ocorrido, destacando que já havia sido vítima de racismo em outras ocasiões ao longo de sua carreira, mas que essa foi a primeira vez dentro do TJ-SP.“A vida da gente tem que seguir, mas é uma dor”, desabafou Eduardo.

Diante das acusações, o advogado do procurador, Hédio Silva, acionou o TJ-SP, solicitando explicações e pedindo que o Ministério Público investigue o caso. Silva destacou a necessidade de medidas concretas para combater o racismo, afirmando que, embora todos se declarem contra a discriminação racial, poucas ações efetivas são tomadas para erradicar essa prática.

O artigo 6º da portaria 9.344/2016 do Tribunal de Justiça de São Paulo estabelece que magistrados e funcionários do TJ não são obrigados a passar pelo detector de metais, tampouco a submeter suas bolsas e pertences a inspeções. 

Fontes do judiciário informaram que, embora a segurança costume permitir a entrada de procuradores e advogados sem passar pelo detector de metais, a regra não foi respeitada no caso de Eduardo.

Resposta do Ministério Público

O Ministério Público de São Paulo emitiu uma nota reafirmando seu compromisso com a luta contra qualquer tipo de discriminação e anunciou que a Procuradoria-geral de Justiça determinou a abertura de uma investigação pelo Ministério Público Militar.

A apuração visa esclarecer os fatos e, caso seja comprovada a prática de racismo, o policial militar poderá ser julgado pela Justiça militar. “O expediente será encaminhado para a Promotoria de Justiça Militar, uma vez que, se constatada a prática que ao menos em tese configura eventual crime de racismo cometido contra civil por policial militar em serviço, compete à Justiça castrense o julgamento dos fatos”, informou o MP-SP.

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