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ECA reforça alerta sobre impactos da exposição infantil nas redes sociais

Psicóloga alerta que a superexposição de crianças e adolescentes na mídia e nas redes sociais pode comprometer o desenvolvimento emocional

Anna Salgadopor Anna Salgado em 18 de julho de 2026 às 10:30
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Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

Na semana em que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) completa mais um aniversário como principal marco legal de proteção à infância no Brasil, especialistas reforçam o alerta para um desafio cada vez mais presente na era digital: a exposição excessiva de crianças e adolescentes na mídia e nas redes sociais. Segundo a psicóloga clínica Soraya Oliveira, essa prática pode comprometer o desenvolvimento emocional, afetar a construção da identidade e gerar impactos na autoestima, na privacidade e nos relacionamentos que podem persistir até a vida adulta.

Embora o debate tenha ganhado força com o avanço das redes sociais, a exposição de menores não é um fenômeno recente. Antes da internet, crianças e adolescentes já ocupavam espaço em programas de televisão, novelas, comerciais, concursos e produções de entretenimento. Com a popularização das plataformas digitais, a prática passou a ocorrer também em perfis familiares, vídeos da rotina, publicidade infantil, conteúdos produzidos por influenciadores mirins e publicações feitas por pais e responsáveis.

Para especialistas, o problema não está apenas na visibilidade, mas na transformação da infância em conteúdo permanente. Sem maturidade para compreender o alcance da própria imagem, crianças podem crescer condicionadas à aprovação do público, tendo a privacidade reduzida e a identidade construída a partir da expectativa de terceiros.

Segundo Soraya Oliveira, que atende no Centro Clínico Órion Complex, em Goiânia, preservar a saúde mental de crianças e adolescentes também passa pela proteção da imagem e da intimidade no ambiente digital.

“A exposição precoce pode gerar ansiedade, insegurança, necessidade constante de aprovação, medo de críticas e perda da privacidade. Além disso, aumenta o risco de cyberbullying e pode comprometer o desenvolvimento emocional”, afirma.

Casos de artistas que iniciaram a carreira ainda na infância contribuíram para ampliar essa discussão. Um dos exemplos mais conhecidos é o da atriz norte-americana Jennette McCurdy, intérprete de Sam Puckett nas séries iCarly e Sam & Cat, da Nickelodeon. No livro Estou feliz que minha mãe morreu, a atriz relata que começou a atuar por incentivo da mãe e permaneceu na carreira mesmo após manifestar o desejo de abandonar os trabalhos.

Na obra, Jennette descreve uma rotina marcada pelo controle da vida pessoal e profissional, pela preocupação constante com a aparência e pelo desenvolvimento de transtornos alimentares. Desde que deixou a atuação, em 2017, passou a se dedicar à escrita e à direção. O relato tornou-se uma referência no debate sobre os efeitos psicológicos da fama precoce e da perda de autonomia durante a infância.

No Brasil, a atriz Larissa Manoela também impulsionou a discussão sobre os limites da gestão familiar da carreira de artistas mirins. A trajetória artística começou aos quatro anos de idade e ganhou projeção nacional com a personagem Maria Joaquina, no remake da novela Carrossel, do SBT.

Em 2023, já adulta, Larissa Manoela afirmou que decidiu assumir o controle da própria vida financeira e profissional após divergências relacionadas à administração das empresas e do patrimônio construído ao longo de 18 anos de trabalho. As declarações foram contestadas pelos pais.

Sem permitir generalizações sobre outras famílias ou diagnósticos sobre os envolvidos, o episódio trouxe para o debate temas como autonomia, transparência na administração dos recursos financeiros e participação de crianças e adolescentes nas decisões relacionadas ao próprio trabalho e ao uso da própria imagem.

A preocupação, entretanto, vai além do universo artístico. Especialistas alertam que crianças sem qualquer notoriedade pública também podem sofrer consequências quando fotos, vídeos, rotina escolar, momentos de vulnerabilidade ou situações constrangedoras são compartilhados nas redes sociais. Mesmo quando a intenção é preservar lembranças da infância, esse conteúdo pode permanecer disponível por anos e influenciar relações sociais, escolares e profissionais no futuro.

“Fazer registros de momentos especiais pode fazer parte da história da família. O excesso acontece quando a vida da criança é compartilhada de forma constante, inapropriada, sem respeitar sua privacidade, seus limites ou seu direito de não querer aparecer ou mesmo de se expor”, afirma Soraya.

Dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025 mostram a dimensão desse cenário. O levantamento aponta que 92% dos brasileiros entre 9 e 17 anos utilizam a internet, o equivalente a cerca de 24 milhões de crianças e adolescentes. A pesquisa também revela que 28% tiveram o primeiro acesso à rede antes dos seis anos de idade.

Na avaliação da psicóloga, esse contexto exige que pais e responsáveis debatam não apenas o tempo de uso das telas, mas também a proteção da privacidade e da identidade digital desde a infância.

“Quando a criança cresce buscando validação por curtidas e comentários, pode desenvolver uma autoestima frágil e dificuldade para construir sua própria identidade. Na vida adulta, isso pode gerar insegurança, dependência da aprovação e dificuldades nos relacionamentos”, explica.

Entre os sinais que merecem atenção estão mudanças de humor, ansiedade, tristeza, isolamento, preocupação excessiva com a aparência, número de seguidores ou curtidas e irritação quando o acesso às redes sociais é interrompido.

“Priorize a segurança, respeite a privacidade. Nem tudo que é vivido em família precisa ser publicado. Algumas das memórias mais importantes são aquelas que permanecem protegidas no coração. O vínculo afetivo é mais importante do que qualquer postagem. A proteção da infância começa nas pequenas escolhas que fazemos todos os dias, inclusive nas redes sociais”, afirma Soraya Oliveira.

 

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