sábado, 12 de setembro de 2026
Caso Gustavo

Investigação aponta histórico de agressões e prende pai e madrasta de menino de 3 anos morto no Tocantins

Laudos periciais descartam, inicialmente, a hipótese de afogamento e apontam múltiplas lesões compatíveis com violência extrema

Renata Ferrazpor em
Investigação aponta histórico de agressões e prende pai e madrasta de menino de 3 anos morto no Tocantins
Igor Gustavo Veloso de Souza e Kathellen Moreira são presos e investigados pela morte de Gustavo Veloso Feitosa, de 3 anos. - Reprodução

A investigação sobre a morte de Gustavo Veloso Feitosa, de 3 anos, ganhou novos desdobramentos após a prisão preventiva do pai da criança, o advogado Igor Gustavo Veloso de Sousa, e da madrasta, Kathellen Moreira da Silva. Ambos são investigados inicialmente pelos crimes de homicídio duplamente qualificado e tortura. A Polícia Civil do Tocantins afirma que as provas reunidas até o momento indicam que o menino foi vítima de um longo histórico de agressões que teria começado ainda em 2024, muito antes da morte registrada no início desta semana.

As prisões foram decretadas após o laudo do Instituto Médico Legal (IML) apontar que Gustavo morreu em decorrência de múltiplas lesões provocadas por violência extrema, descartando, em um primeiro momento, a versão apresentada pelo pai de que a criança teria se afogado.

Histórico de agressões passou a ser reconstruído durante a investigação

Segundo o delegado Eduardo Menezes, responsável pelo caso, a investigação revelou que os episódios de violência contra Gustavo não eram recentes. O histórico começou a ser reconstruído a partir do depoimento da mãe, Sabrina da Silva Feitosa, prestado poucas horas após a descoberta da morte do filho.

Conforme a polícia, Sabrina apresentou fotografias, vídeos e mensagens que mostram a criança retornando das visitas ao pai com hematomas, arranhões e outros sinais de agressão. Em algumas gravações, registradas desde 2024, Gustavo aparece com comportamento considerado atípico pelos investigadores, chegando à casa da mãe aparentemente sonolento e, segundo o delegado, “nitidamente dopado”.

Os registros também mostram momentos em que o menino demonstra medo de visitar o pai. Em um dos vídeos, Gustavo chora e afirma que não quer ir até a residência porque “ele me bate”. Todo esse material foi incorporado ao inquérito policial e passa por análise pericial.

Mãe afirma que vivia sob ameaças e temia denunciar o ex-companheiro

Durante as investigações, Sabrina relatou que convivia com um ambiente de intimidação desde a gravidez. Segundo ela, o relacionamento com o ex-companheiro era marcado por ameaças e conflitos judiciais.

Áudios obtidos pela investigação reforçam a existência dessas ameaças. De acordo com a defesa da mãe, o receio de represálias contra ela, o filho e outros familiares dificultava a adoção de medidas mais severas para impedir as visitas paternas.

A advogada Stella Bueno explicou que, embora a mãe já tivesse relatado diversas situações em que Gustavo voltava machucado, havia também o temor de sofrer acusações de alienação parental caso impedisse o contato entre pai e filho sem uma decisão judicial. Paralelamente, ela movia uma ação cobrando o pagamento de pensão alimentícia.

Após a morte do menino, Sabrina afirmou estar arrependida de não ter denunciado antes todas as ameaças e suspeitas de violência.

Versão de afogamento é descartada pelas perícias

O caso começou a ser investigado depois que o pai procurou a Polícia Civil informando que o filho havia morrido em decorrência de um suposto afogamento. No entanto, a ocorrência só foi registrada horas depois da morte da criança.

As perícias realizadas no Instituto Médico Legal afastaram essa hipótese. Segundo o diretor do IML, Eduardo Godinho, os primeiros exames não encontraram qualquer indício compatível com afogamento.

O laudo revelou que Gustavo apresentava hemorragia interna, múltiplas lesões na cabeça e no rosto, além de lacerações na região intestinal e anal. Conforme o médico legista, o nível de violência observado é considerado incomum.

O delegado Eduardo Menezes afirmou que as lesões indicam um cenário de extrema crueldade, incompatível com a versão inicialmente apresentada pelo pai.

Polícia investiga tortura e mantém apuração sobre possível violência sexual

As graves lesões encontradas na região anal e intestinal da criança também passaram a integrar uma das principais linhas de investigação. Segundo a Polícia Civil, os ferimentos ocorreram em um contexto de violência extrema e, neste momento, são tratados como parte do crime de tortura. O delegado explicou que, caso apenas essas lesões estivessem presentes, a investigação caminharia para um possível estupro seguido de morte.

Entretanto, como os exames identificaram diversas outras agressões espalhadas pelo corpo, além de hemorragia interna e traumatismos, a hipótese inicial de violência sexual isolada foi temporariamente afastada. Ainda assim, a polícia ressalta que essa possibilidade não está descartada e poderá ser reavaliada conforme novos laudos periciais forem concluídos.

Divergências entre pai e madrasta reforçam suspeitas

Durante coletiva de imprensa, os investigadores informaram que existem divergências nas versões apresentadas pelo pai e pela madrasta sobre os acontecimentos que antecederam a morte de Gustavo. Essas inconsistências, somadas ao resultado das perícias e ao histórico de violência identificado, reforçaram o pedido de prisão preventiva do casal.

Em relação à madrasta, Kathellen Moreira, a polícia investiga principalmente sua possível omissão diante das agressões. Para os investigadores, é pouco provável que ela desconhecesse a violência praticada contra a criança dentro da residência.

Defesas contestam prisões preventivas

A defesa de Igor Gustavo informou que o advogado colaborou com as investigações desde o início e que, ao tomar conhecimento do pedido de prisão preventiva, colocou-se imediatamente à disposição da Polícia Civil.

Segundo os advogados, Igor permaneceu em sua residência aguardando a chegada dos policiais para cumprir espontaneamente o mandado, sem oferecer resistência ou tentar fugir. A defesa afirmou ainda que não comentará o mérito das acusações enquanto o inquérito permanecer sob sigilo.

Já a defesa de Kathellen Moreira declarou ter recebido com surpresa a decisão judicial. Os advogados destacaram que ela é mãe de uma bebê de cinco meses, ainda em fase de amamentação, e afirmaram que essa condição não teria sido devidamente considerada pelo Judiciário.

A defesa informou que pretende solicitar a substituição da prisão preventiva por medidas cautelares menos rigorosas ou, alternativamente, por prisão domiciliar, argumentando que a medida permitiria preservar os cuidados necessários à criança sem comprometer as investigações.

Caso provoca comoção e repercussão institucional

A morte de Gustavo gerou forte comoção em Palmas. O menino foi sepultado sob intensa mobilização de familiares e amigos, que cobram justiça e a responsabilização dos envolvidos.

O inquérito policial segue em andamento e novas perícias deverão definir se haverá alteração na tipificação dos crimes atribuídos aos investigados.

Paralelamente, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) anunciou a suspensão cautelar da inscrição profissional de Igor Gustavo Veloso de Sousa enquanto as investigações prosseguem.

A Polícia Civil informou que o conjunto probatório ainda está sendo ampliado por meio da análise de imagens, depoimentos e laudos complementares. A expectativa é de que os próximos exames esclareçam definitivamente a dinâmica da morte e confirmem a extensão da violência sofrida pela criança.

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