Moradores denunciam descarte irregular de lixo em Goiânia
Problema se arrasta há quase 20 anos, com denúncias, ações judiciais e relatórios técnicos sobre a degradação ambiental
O descarte irregular de lixo e entulho às margens do Córrego Capim Puba, no Setor dos Funcionários, em Goiânia, continua preocupando moradores da região. Imagens registradas por um denunciante mostram resíduos espalhados nas proximidades do curso d’água e da nascente, em uma área que já foi alvo de processos administrativos, ações judiciais e sucessivos relatórios técnicos alertando para a degradação ambiental e os riscos à população.
Morador da região, o denunciante afirma que a situação é recorrente. Segundo o relato, pessoas invadem o local para abandonar entulho, móveis e outros resíduos, agravando um problema antigo. Além das fotografias, o vizinho reuniu imagens feitas por drone e cópias de denúncias encaminhadas aos órgãos públicos.
Segundo o relato, mesmo após diversas reclamações, o descarte clandestino continua ocorrendo. “O pessoal invade lá e fica jogando lixo, essa coisa toda”, afirma.
O caso ocorre em uma área sensível do ponto de vista ambiental. O Córrego Capim Puba atravessa uma Área de Preservação Permanente (APP) e, há anos, sofre com ocupações irregulares, descarte de resíduos e outros impactos ambientais.
Os problemas, inclusive, já eram conhecidos pelo poder público. Em novembro de 2017, moradores protocolaram uma denúncia junto à Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma), informando que a margem do córrego, entre a Viela P-39 e a Rua P-38, havia sido ocupada irregularmente e apresentava degradação ambiental.
A preocupação, entretanto, é ainda mais antiga. Em uma Ação Civil Pública proposta pelo Ministério Público de Goiás, a Promotoria apontou que a APP do Córrego Capim Puba vinha sofrendo ocupação desordenada, degradação ambiental e prejuízos à saúde pública. Conforme o processo, parte das famílias havia sido removida da área nas décadas de 1990, mas algumas permaneceram no local, mantendo a ocupação considerada irregular.
Na ação, o Ministério Público destacou que relatórios da Amma já identificavam danos ao meio ambiente, poluição, degradação da vegetação e impactos à saúde decorrentes da permanência das moradias na área protegida. Em 2009, a Justiça determinou que o Município de Goiânia apresentasse um plano de execução para cumprir medidas voltadas à recuperação da área e à mitigação dos riscos ambientais.
Relatório aponta alto risco para moradores
A situação também foi objeto de uma nova vistoria da Defesa Civil de Goiânia, em outubro de 2025. O Relatório de Vistoria e Levantamento de Risco concluiu que as moradias existentes às margens do córrego apresentam alto risco à integridade física dos moradores.
Os técnicos identificaram que diversas construções foram erguidas de forma improvisada, localizam-se em Área de Preservação Permanente e estão posicionadas sob uma rede de alta tensão.
O documento também alerta para o risco de transbordamento do córrego durante o período chuvoso. Segundo a Defesa Civil, mesmo durante a estiagem, foi possível constatar que o local permanece vulnerável a enchentes, podendo colocar em risco moradores e edificações.
Além disso, a vistoria apontou precariedade nas instalações elétricas, possibilidade de choques, incêndios provocados por curto-circuito e fragilidade estrutural das residências.
Na conclusão, o órgão recomenda a adoção de medidas preventivas antes da ocorrência de desastres e reconhece oficialmente que os moradores vivem em situação de alto risco.
O próprio histórico técnico do Córrego Capim Puba registra problemas como lançamento irregular de esgoto, acúmulo de lixo doméstico e degradação da vegetação ciliar, fatores que contribuem para a deterioração do manancial.
Dados do Consórcio Limpa Gyn mostram que o problema não se restringe ao Setor dos Funcionários. Apenas no primeiro semestre deste ano, mais de 420 mil toneladas de resíduos foram removidas em Goiânia. O volume inclui entulho da construção civil, móveis, colchões, restos de poda, resíduos recicláveis, lixo orgânico e materiais descartados irregularmente em vias e espaços públicos.
Procurada pela reportagem, a Secretaria Municipal de Infraestrutura informou que encaminhou a denúncia ao gerente responsável pela fiscalização ambiental e que uma equipe de auditores fiscais será enviada ao local para verificar a situação. A reportagem também solicitou informações à Prefeitura sobre o histórico de denúncias, as ações de fiscalização e as medidas previstas para impedir novos descartes irregulares na região.
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