Herança

Como jornalista teve vida transformada após ‘herdar’ doença degenerativa do pai

A ataxia é um distúrbio neurológico que afeta a coordenação motora e o equilíbrio, impactando atividades cotidianas como andar, falar, comer e realizar tarefas diárias

Ronilma Pinheiropor Ronilma Pinheiro em 26 de agosto de 2024
Como jornalista teve vida transformada após ‘herdar’ doença degenerativa do pai

Em um dia que deveria ser como qualquer outro, a vida de Rodrigo Mansil, um jornalista de 42 anos, mudou para sempre. Seis anos atrás, ao receber o diagnóstico de Ataxia Espinocerebelar Machado Joseph, Mansil foi confrontado com a dura realidade de uma condição neurodegenerativa progressiva, sem tratamento específico e sem cura. O impacto da notícia foi profundo e a sua jornada desde então tem sido marcada por uma combinação de luta pessoal, coragem e um compromisso renovado com a causa das doenças raras.

A ataxia espinocerebelar é hereditária e foi transmitida a Mansil por seu pai, que também sofreu com a doença e faleceu aos 73 anos. Mansil lembra com clareza o momento em que recebeu a notícia. “Eu estava sozinho e com muito medo no dia que recebi o resultado do exame,” ele compartilha em uma postagem emocionante nas redes sociais. “Foi quando percebi que tudo mudaria e que eu viveria em um corpo pesado, cansado e doente.”

Rodrigo Mansil nasceu em Anápolis, Goiás, e desde jovem teve uma trajetória marcada pela busca do conhecimento e pela dedicação profissional. Aos 17 anos, mudou-se para São José do Rio Preto, onde cursou jornalismo, psicologia e fez pós-graduação em sexologia. Sua carreira, inicialmente voltada para o jornalismo, foi ampla e diversificada, incluindo atuação como produtor, editor, repórter e apresentador em cidades como São José do Rio Preto, Catanduva, Araçatuba e Bauru, no interior de São Paulo, além de Goiânia.

Foi em Goiânia, em 2017, que Mansil começou a notar os primeiros sinais da doença. Quedas frequentes e uma fadiga persistente levaram-no a procurar ajuda médica, culminando no diagnóstico de ataxia espinocerebelar tipo 3 no ano seguinte. A descoberta foi um divisor de águas na vida de Mansil, forçando-o a enfrentar uma nova realidade marcada pela perda gradual de habilidades motoras.

Atualmente, após seis anos enfrentando a doença, Mansil está aposentado por incapacidade para o trabalho. Ele enfrenta a progressão da ataxia com um regime rigoroso de fisioterapia, musculação e equoterapia, buscando manter sua qualidade de vida e autonomia. Sua luta pessoal, no entanto, vai além da batalha diária contra a doença. Rodrigo decidiu se tornar um defensor ativo das doenças raras e das pessoas que sofrem com condições semelhantes.

Fotos: Arquivo pessoal

Em julho de 2023, Mansil foi delegado na 17ª Conferência Nacional de Saúde, onde teve um papel fundamental na votação para a criação de mais Centros de Diagnóstico e Referência de doenças raras no Brasil, com atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Sua atuação na conferência reflete seu compromisso em melhorar o acesso ao diagnóstico e tratamento para outras pessoas que enfrentam doenças raras.

Além de seu trabalho na conferência, Mansil é voluntário da Associação Brasileira das Ataxias Hereditárias e Adquiridas (Abahe), onde contribui com sua experiência e conhecimento para a causa. Para compartilhar sua jornada e informar o público sobre a realidade dos pacientes com ataxia, ele criou o Instagram @rodri_goataxia. Em seu perfil, Mansil posta vídeos e atualizações sobre os desafios diários de conviver com a doença, além de fornecer informações valiosas sobre os diversos tipos de ataxias.

O que é a ataxia

A ataxia é um distúrbio neurológico que afeta a coordenação motora e o equilíbrio, impactando atividades cotidianas como andar, falar, comer e realizar tarefas diárias. Segundo o médico neurologista do hospital Mater Dei de Goiânia Marcos Alexandre, a ataxia se manifesta como uma dificuldade ou incapacidade de manter a coordenação motora normalmente, prejudicando movimentos voluntários que o paciente deseja executar, como levantar um objeto ou erguer um garfo para se alimentar.

A condição pode ser desencadeada por diversas causas. Entre elas estão o Acidente Vascular Cerebral (AVC), a esclerose múltipla, traumas cranianos, deficiências vitamínicas, sífilis e tumores cerebrais. Além disso, a ataxia pode ter origem genética e é classificada em diferentes tipos. Dentre eles estão: Ataxia Cerebelar, Ataxia Vestibular, Ataxia Sensorial e Ataxia de Friedreich. 

A Ataxia Cerebelar resulta de lesões no cerebelo – parte do encéfalo, a segunda maior estrutura do cérebro, que está localizada na parte inferior do órgão, logo acima do tronco cerebral – ou suas vias, levando a dificuldades no controle da musculatura axial, tremores e tendência a quedas para o lado da lesão. Os sintomas variam conforme a localização da lesão no cerebelo.

A Ataxia Vestibular é causada por danos na via vestíbulo-ponto-cerebelar, afetando o equilíbrio, coordenação e orientação espacial. Os sinais incluem desequilíbrio, vertigem, nistagmo – movimentos oculares involuntários e repetitivos -, náuseas e vômitos.

Enquanto isso, a Ataxia Sensorial decorre do comprometimento da propriocepção, ou seja, a capacidade de reconhecer a posição e orientação do corpo no espaço. Os sintomas se assemelham aos da ataxia cerebelar, mas com agravamento ao fechar os olhos, perda da propriocepção e marcha tabética, em que o calcanhar é usado com força excessiva no chão.

Originada por uma mutação genética no cromossomo 9q21.11, a Ataxia de Friedreich é a forma mais comum de ataxia autossômica recessiva. Geralmente, inicia-se entre 12 e 18 anos, apresentando ataxia cerebelar, nistagmo e disartria, ou seja, dificuldade em articular palavras, além de envolvimento do sistema nervoso periférico, com diminuição da sensibilidade vibratória e propriocepção, e alterações sistêmicas como cardiopatia, escoliose, pés cavos e diabetes mellitus.

Novo medicamento aguarda aprovação da Anvisa 

Amália Maranhão, mãe de um paciente com Ataxia de Friedreich, jornalista, fundadora do movimento Ataxia de Friedreich Brasil e diretora da Abahe, tem se dedicado à luta por soluções para as doenças de ataxia.

Ao jornal O Hoje, ela falou sobre as expectativas sobre o novo medicamento omaveloxolone, que está aguardando aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O prazo para análise do pedido vence no final de setembro, e a expectativa é se a Anvisa tomará uma decisão nesse prazo ou estenderá a análise.

O omaveloxolone já foi aprovado pelo Food and Drug Administration (FDA), agência federal do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos,  e pela European Medicines Agency (EMA) da Europa.

Em Goiás, há pelo menos 23 pessoas com Ataxia de Friedreich. O medicamento omaveloxolone é destinado exclusivamente para essa condição, e a medicação para a SCA3, que afeta Rodrigo, está em fase final de pesquisa, com conclusão prevista para o final do ano, embora possa demorar mais para chegar ao Brasil.

Atualmente, a Ataxia de Friedreich Brasil conta com cerca de 4 mil pacientes no total, dos quais 740 têm Ataxia de Friedreich, 1200 têm SCA3, 1200 têm ataxia cerebelar não especificada (devido à falta de acesso a testes genéticos), e o restante está distribuído entre 20 outros tipos de ataxia. As pesquisas no Brasil estão associadas a estudos americanos, sendo chamadas de multicêntricas internacionais, o que ajuda o país a se inserir no campo de estudos sobre ataxias.

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