quinta-feira, 22 de outubro de 2026
Choque do Bem Viver

O que o Brasil ainda não aprendeu

Ailton Krenak critica modelo capitalista e defende que países sob embargo aprenderam a viver sem consumismo desenfreado

Luana Avelarpor em
Foto: Mavi Morais
Foto: Mavi Morais

O capitalismo e o conceito de “bem viver” são incompatíveis. Essa é a visão do escritor e pensador indígena Ailton Krenak, que, em entrevista ao programa Bem Viver, defendeu que a relação das comunidades tradicionais com a natureza tem sido destruída pela lógica de mercado. “Nem mesmo nas comunidades que vivem na floresta estão conseguindo ficar fora desse sistema de troca capitalista”, lamenta. Para ele, o Brasil não tem experiências concretas que respeitem essa filosofia, que prioriza a reciprocidade entre humanos e o meio ambiente.

O termo “bem viver” tem origem no conceito andino Sumak Kawsay, traduzido para o espanhol como buen vivir e adaptado no Brasil como “bem viver”. Segundo Krenak, essa filosofia não se resume a conforto material, mas à harmonia com a natureza. “Bem viver não é estar vivo ou estar bem. É a reciprocidade do modo de vida dos humanos com a natureza, com o lugar onde nós vivemos”, explica. Ele acredita que a dependência do consumo impede a adoção dessa prática no país.

A crítica de Krenak ao consumismo se estende à neutralidade política e econômica dos países. Ele menciona que embargos econômicos forçaram algumas nações a encontrar formas alternativas de viver sem a enxurrada de mercadorias capitalistas. “Algumas pessoas acham que é um absurdo o fato deles estarem privados de toda essa enxurrada capitalista, então, de alguma maneira, eles devem estar aprendendo algo sobre bem viver”, reflete, citando os casos de Cuba e Venezuela.

Ao abordar a obra Ainda Estou Aqui, que concorre ao Oscar e retrata a história da antropóloga Eunice Paiva, o pensador indígena destaca a importância da arte na construção da memória e da resistência indígena. “A arte consegue fazer coisas que o horizonte imediato da história não revela, a arte surpreende”, afirma. Para ele, o reconhecimento internacional do filme é relevante, mas não altera a dura realidade brasileira. “Ainda tem muita casa sendo invadida, e muitos espaços domésticos inseguros para as pessoas viverem”, alerta.

Com uma trajetória marcada pela luta em defesa dos povos originários, Krenak também se dedica à literatura infantil, levando o pensamento indígena para novas gerações. Seu livro Kujan e os Meninos Sabidos busca ensinar crianças sobre a diversidade cultural do Brasil. “Agora que eu já tenho meus livros, foi fácil buscar um dos textos narrativos que eu já levei para as escolas e fazer ele ser um livrinho”, conta. No entanto, ele questiona: será que histórias de povos indígenas, marcadas por exploração e resistência, podem ser consideradas “infantis”?

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