O relógio social

Quando o sucesso atrasa

A pressão silenciosa para alcançar estabilidade até os 30 anos contrasta com dados sobre desemprego, informalidade e saúde mental de uma geração em compasso de espera

Luana Avelarpor Luana Avelar em 30 de abril de 2025 às 19:29
Quando o sucesso atrasa

Até os 30, dizem, tudo deveria estar encaminhado. Diploma, apartamento, carreira sólida, vida afetiva estável, algum patrimônio emocional e, se possível, financeiro. A lista é silenciosa, mas onipresente. Em 2025, no entanto, cada vez mais pessoas enfrentam o que chamam de “fracasso dentro do prazo”.

Segundo o IBGE, mais de 52% dos brasileiros entre 25 e 34 anos ainda vivem na casa dos pais. A instabilidade econômica e a informalidade ajudam a explicar o dado. O trabalho por conta própria atinge 25 milhões de pessoas, e mais da metade dos jovens ocupados estão em empregos temporários, intermitentes ou sem carteira assinada.

Mas a cobrança não é só prática. Ela é simbólica. Nas redes sociais, o sucesso é uma estética: viagens internacionais, conquistas aos vinte e poucos anos, empresas próprias, corpos bem resolvidos. Quem não performa essas imagens parece estar atrasado, mesmo que cumpra jornadas exaustivas ou esteja simplesmente sobrevivendo.

Essa pressão tem efeitos. Em 2024, o Brasil manteve-se no topo do ranking global de ansiedade da OMS. E segundo pesquisa da Fiocruz, 37% dos jovens relatam sintomas moderados a severos de angústia quanto ao futuro. Parte dessa angústia vem da percepção de que falhar é individual, quando na verdade é o sistema que não entrega o prometido.

A geração que cresceu ouvindo que “era só estudar para vencer na vida” hoje lida com concursos congelados, salários achatados e altos custos de vida. O resultado é um desalinhamento entre expectativa e realidade, um desalinhamento que não se resolve com cursos de produtividade nem com frases de autoajuda.

O sucesso, para muitos, não chegou no tempo esperado. E talvez não chegue do jeito planejado. Mas o que esse atraso revela não é falta de esforço. É a falência de uma narrativa. Recomeçar aos 35, mudar de área aos 40, construir aos poucos: tudo isso passou a ser normal, embora ainda carregue o peso do “deveria”.

O relógio social, afinal, não considera contexto. Mas o corpo e a mente sentem. Quem não chegou “lá” aos trinta não está perdido — só está no tempo real da vida.

 

 

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