segunda-feira, 29 de junho de 2026
Eventos climáticos

Crianças são as mais vulneráveis à nova era climática

Relatório destaca que nascidos em 2020 enfrentarão mais calor, enchentes e insegurança alimentar do que gerações anteriores

Luana Avelarpor Luana Avelar em 8 de junho de 2025
Crianças são as mais vulneráveis à nova era climática

Crianças brasileiras estão entre as principais vítimas da intensificação dos eventos climáticos extremos no país. Um relatório divulgado pelo Núcleo Ciência pela Infância (NCPI) na última quinta-feira (5) mostra que aquelas nascidas em 2020 viverão, em média, 6,8 vezes mais ondas de calor e 2,8 vezes mais episódios de inundações e perdas de safra ao longo da vida em comparação com crianças nascidas em 1960.

O levantamento, baseado em dados do Observatório de Clima e Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), aponta uma escalada preocupante: o número de desastres naturais registrados no Brasil saltou de 1.779 em 2015 para 6.772 em 2023. A pesquisa revela como esse cenário afeta especialmente os 18,1 milhões de brasileiros com até seis anos de idade, equivalentes a 8,9% da população.

Segundo o relatório, a exposição a extremos climáticos compromete múltiplas dimensões do desenvolvimento infantil. Aumento de doenças, prejuízos na aprendizagem, insegurança alimentar, falta de acesso a cuidados básicos e instabilidade econômica são algumas das consequências associadas ao novo padrão climático. A fase da primeira infância, considerada crítica para o desenvolvimento físico, cognitivo e emocional, é a mais impactada.

A crise climática também agrava desigualdades. Mais de um terço das crianças brasileiras de até quatro anos vive em insegurança alimentar, e 5% sofrem de desnutrição crônica. Quando ocorrem desastres, esses grupos são os primeiros a sentir os efeitos, com perdas de moradia, ruptura de serviços e interrupção de rotinas essenciais. Entre 2013 e 2023, mais de 4 milhões de brasileiros foram desalojados por eventos extremos. Apenas no Rio Grande do Sul, em 2024, mais de 3.900 crianças de até cinco anos precisaram ser levadas a abrigos públicos após as enchentes que desalojaram cerca de 580 mil pessoas.

O impacto sobre a educação também é expressivo. Em 2024, 1,18 milhão de crianças e adolescentes tiveram as aulas suspensas por causa de eventos climáticos. No Rio Grande do Sul, o número de horas-aula perdidas já ultrapassa 55 mil. As consequências disso se estendem por toda a vida, comprometendo oportunidades educacionais e sociais.

Para enfrentar o problema, o relatório propõe medidas voltadas à adaptação climática com foco na infância. Entre elas, estão o fortalecimento da atenção primária à saúde, ampliação do acesso à água potável e saneamento básico, incentivo à segurança alimentar e criação de áreas verdes e zonas de resfriamento em creches e escolas. O estudo também defende a implementação de protocolos de emergência que priorizem crianças em situações de desastre.

A análise conclui que a resposta à crise climática precisa ser ampla, intersetorial e orientada por evidências. As políticas devem considerar as desigualdades estruturais e colocar a infância no centro das estratégias de prevenção e adaptação. Sem essa abordagem, o aumento da exposição ao risco comprometerá o desenvolvimento de uma geração inteira.

 

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