sábado, 15 de agosto de 2026
OPINIÃO

Próximo governador, mesmo se for Daniel, vai acabar com ‘taxa do agro’

Marconi disse que livra produtor rural no 1º dia do mandato, Wilder combate carga tributária e até o vice se compromete contra

Nilson Gomespor Nilson Gomes em
Próximo governador, mesmo se for Daniel, vai acabar com ‘taxa do agro’ Foto:Lucas Diener e Walter Folador
Próximo governador, mesmo se for Daniel, vai acabar com ‘taxa do agro’ Foto:Lucas Diener e Walter Folador

A burocracia é um dos males que desde o Império ampliam e revigoram o Custo Brasil, aquele repositório de bizarrices que impede o desenvolvimento da federação e suas unidades. Os três principais pré-candidatos ao Governo de Goiás, Daniel Vilela (MDB), Marconi Perillo (PSDB) e Wilder Morais (PL) pensam diferente em muitos aspectos, mas se unem contra esse freio engatado.

Uma das mães do atraso é a legislação, que de tão ruim parece feita sob encomenda para as irregularidades e se torna incubadora de ladrões de dinheiro público. Uma das piores leis é a de licitações e contratos administrativos, que tanto em sua versão anterior quanto na nova, de 2021, praticamente obriga o concorrente a ser bandido. Para fugir das trapaças, gestores honestos passam longe do monstrengo. Foi assim na saga de encontrar saída para o uso da arrecadação do Fundo Estadual de Infraestrutura, o Fundeinfra, criado em Goiás em dezembro de 2022.

Basicamente, são dois os objetivos do fundo, “gerir os recursos oriundos da produção agrícola, pecuária e mineral no Estado de Goiás, além das demais fontes de receitas definidas nele” e “implementar, em âmbito estadual, políticas e ações administrativas de infraestrutura agropecuária, dos modais de transporte, recuperação, manutenção, conservação, pavimentação e implantação de rodovias, sinalização, artes especiais, pontes, bueiros, edificação e operacionalização de aeródromos”.

Em resumo, o produtor rural passou a colaborar mais com os benefícios de que dispõe. Na marra, mas “colabora”. No período de votações, deu briga não somente verbal, quebra-quebra, reclamações, enfim, normal por se tratar da criação de tributo. Na Inglaterra, novas taxas já aniquilaram rei, então, chutar porta de parlamento é o de menos. O que ficou demais, ruim demais, foi a fórmula de empregar os recursos. Ótimos recursos: mais de R$ 2,5 bilhões juntados até agora.

Marconi Perillo foi governador em quatro mandatos e já gravou vídeo prometendo acabar com o Fundeinfra, que é formado por 1,65% do ICMS, principalmente sobre os produtos do campo. O senador Wilder Morais combate a carga tributária brasileira, as dos Estados incluídas, que chama de “imensa, a maior do mundo”. Como o fundo foi criado por seu grupo, o vice-governador Daniel Vilela não diz sob holofotes que vai liquidar a novidade. Mas seus emissários, que vão às reuniões de agropecuaristas por todo o Estado, adiantam nos sindicatos rurais e nas associações que Daniel vai fulminar o Fundeinfra logo nos primeiros meses de governo. Esclareça-se: de um eventual 2º governo de Daniel, que começaria em janeiro de 2027, pois no mandato-tampão, de abril a dezembro do próximo ano, seria desrespeito ao que ele mesmo ajudou a elaborar.

Qual, então, foi a mudança encontrada pelo governo para escapar das arapucas da Lei de Licitações? Construir as obras via Instituto de Defesa da Agropecuária de Goiás, o Ifag, ligado à Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás, presidida pelo ex-deputado federal José Mário Schreiner. A parceria foi aprovada pela Assembleia Legislativa, aquela que teve as portas chutadas durante as votações que gestaram o Fundeinfra. Pelas características jurídicas do Ifag, passa-se ao largo dos coices das licitações. O Ministério Público de Goiás encrespou, recomendou que se abandonasse a ideia, a Procuradoria-Geral do Estado rebate e o impasse está no ar.

É o típico caso em que todos têm razão, cada qual para seu lado. O MP, como fiscal da lei, jamais concordaria com atalhos em uma delas. Porém, o governo está correto: o Fundeinfra é uma invenção tão repelida que só vai funcionar com outra criação que também está sendo impugnada, o acordo com o Ifag. Se houver roubalheira, pune-se quem roubou. Detalhe: a Lei de Licitação, em nenhum caso, inibe ou evita a ladroagem; ao contrário, a estimula.

Então, equivoca-se quem supõe estar na obediência à Lei 14.133/2021 uma fuga da corrupção. Ela praticamente manda os participantes apelarem à improbidade. Não barateia custos. Não preserva qualidade. Não se escolhe o melhor. É um arremedo de coisa séria, porque só na enrolação para se concluir qualquer obra já exige mais dinheiro do que o poupado em eventual irregularidade. Uma licitação, juntados todos os gastos, custa até 20% do total da obra.

Se for cumprir as modalidades de concorrência para infraestrutura, como alguma das rodovias em planejamento, Caiado e Daniel ficarão sem as inaugurações, as empresas de engenharia sem as empreitas, os produtores sem as pavimentações. A burocracia é tamanha que a média de cada licitação passa de um ano. Se for lançado um edital nesta semana, é provável que nenhum canteiro esteja formado para iniciar os trabalhos na eleição de 2026.

A verdade é que não existe modelo ideal para empregar os tributos

 

A verdade é que não existe modelo ideal para empregar os tributos. Porém, um bom início seria deixá-los sob gerência de quem o recolhe. É exatamente a proposta a se realizar com o Ifag, que é dos produtores rurais, a categoria que paga o Fundeinfra. Se ele roubar, rouba de si mesmo. 

O HOJE já publicou que a infraestrutura goiana, sob responsabilidade dos governos estadual e federal, está num atoleiro em comparação com o desenvolvimento de setores como a agropecuária. Falta pavimentação em 8 mil quilômetros de rodovias. Grande parte das GOs não tem sequer acostamento, inclusive as construídas a partir dos anos 1980. Há dez anos não se duplica qualquer estrada. Há mais de meio século nenhuma rodovia é aberta em Goiás. 

Desde a Operação Lava Jato, as companhias de asfaltamento padecem da falta de prestígio. Quando se fala em empregar reais do erário com empreiteira e sem licitação, o combo é amaldiçoado antes de terminar a frase. O sistema de gerenciar concorrência, desde o edital até o término das construções, está obsoleto. Uma empresa particular vai da planta ao acabamento de um prédio de 20 andares em Goiânia e Brasília em menos de um ano, mais rápido que um processo licitatório de obra pública. 

O produtor rural, assim como o comerciante ou qualquer integrante da sociedade, quer usufruir do benefício legado por seus impostos. Seu veículo quebrar num buraco fica mais caro que qualquer contribuição. Imagina quebrar o ciclo de produção, que é o caso das obras paradas. Ou, pior ainda, nem iniciadas, só prometidas…

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