segunda-feira, 10 de agosto de 2026
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Trancistas têm profissão reconhecida no Brasil após séculos de invisibilidade

Inclusão do ofício na CBO garante direitos trabalhistas e insere saber ancestral de mulheres negras no mercado formal

Luana Avelarpor Luana Avelar em
Trancistas têm profissão reconhecida no Brasil após séculos de invisibilidade
Mais que estilo, as tranças preservam saberes ancestrais e fortalecem a identidade negra. Foto: FreePik

O Brasil oficializou em 5 de junho de 2025 a profissão de trancista. O Ministério do Trabalho e Emprego incluiu o ofício na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), sob o código 5161-65, após anos de reivindicação de coletivos de mulheres negras e entidades culturais. A decisão garante aos profissionais acesso a direitos básicos como emissão de nota fiscal, contribuição à Previdência Social, abertura de microempresas e participação em editais culturais.

O reconhecimento tem impacto direto sobre um grupo historicamente marcado pela informalidade. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2023, mostram que 47% das mulheres negras brasileiras trabalham sem carteira assinada, contra 38% da média nacional. Até a inclusão na CBO, trancistas faziam parte desse contingente invisibilizado, ainda que sustentassem economias locais e redes comunitárias.

A relevância econômica já havia sido dimensionada. Estudo do Instituto Locomotiva, em parceria com a Central Única das Favelas (CUFA), publicado em 2022, estimou que a chamada “economia da estética afro” movimenta cerca de R$ 30 bilhões por ano no país. O setor inclui salões especializados, serviços de trançado e a indústria de cosméticos voltados a cabelos crespos e cacheados. A formalização tende a ampliar esse mercado, facilitando o acesso a crédito e fortalecendo pequenos negócios.

Na África Ocidental, o trançado era uma forma de identificação social. Em 3.550 a.C., tribos utilizavam estilos específicos para indicar idade, posição social e estado civil. Entre os fulani, do povo Fula, eram comuns tranças finas que formavam uma coroa no topo da cabeça. Em Gana, penteados começavam estreitos e engrossavam ao longo dos fios. Certos estilos eram reservados a cerimônias, como casamentos ou funerais. Adereços como conchas e miçangas complementam os penteados, indicando idade ou atuando como amuletos.

Durante a escravidão, as tranças assumiram caráter de resistência. Pesquisas do Museu Afro Brasil mostram que mulheres escondiam sementes entre as mechas para garantir alimento em quilombos. Em algumas regiões da Colômbia, o estilo conhecido como departees codificava rotas de fuga, com tranças grossas e curvas que representavam os caminhos a percorrer. Aparente ornamento, o cabelo funcionava como mapa e ferramenta de sobrevivência.

Ao chegar ao Brasil, a tradição enfrentou o apagamento cultural. Costumes africanos foram estigmatizados, e o cabelo crespo passou a ser tratado como sinônimo de inferioridade. Ainda assim, o trançado sobreviveu como forma de proteção, identidade e autoestima diante do racismo estrutural.

No século XX, a prática foi ressignificada politicamente. Nos Estados Unidos, o movimento “Black is Beautiful”, dos anos 1960, contestou a indústria cosmética que pregava o embranquecimento e enfrentou a segregação racial. O cabelo natural, o black power e os trançados se tornaram símbolos de orgulho coletivo. No Brasil, nos anos 1970, esse espírito ganhou força, inspirando artistas como Jorge Benjor, autor da canção Negro é Lindo.

No século XXI, as tranças consolidaram-se como fonte de renda para mulheres negras em comunidades periféricas. Estilos tradicionais permanecem carregados de significados. As tranças Nagô, ligadas ao povo iorubá, preservam a memória ancestral. Os dreads, presentes desde o Egito Antigo e popularizados pelo movimento rastafári na Jamaica, tornaram-se sinônimo de resistência. O trançado Bantu, comum na África subsaariana, remete à realeza. As box braids, de origem africana e egípcia, difundiram-se globalmente e são hoje um dos estilos mais comuns.

Experiências internacionais reforçam a importância da medida. Nos Estados Unidos, desde 2019, estados como Nova York e Califórnia regulamentaram cursos técnicos específicos para trancistas em escolas de beleza. Em países africanos como Gana e Nigéria, o trançado é reconhecido como patrimônio cultural e integra programas de preservação. O Brasil, ao incluir o ofício na CBO, insere-se nessa tendência global, ainda que com atraso em relação à relevância histórica da prática.

A formalização responde também a uma necessidade de reparação. Durante décadas, trancistas foram obrigadas a se registrar como cabeleireiras ou barbeiras para exercer a profissão de forma menos vulnerável. A inclusão na CBO confere legitimidade a um ofício que já sustentava famílias e preservava memórias, mas que era tratado como atividade marginal.

A expectativa é que a regulamentação impulsione a criação de sindicatos, cursos técnicos e maior visibilidade em setores como moda e publicidade. Pesquisa realizada pela Fundação Getulio Vargas (FGV), em 2024, apontou que apenas 37% das campanhas de cosméticos no país incluíam cabelos crespos ou trançados, o que limita a inserção de profissionais do setor em espaços criativos.

Ao oficializar a profissão, o Estado brasileiro legitima um ofício que sobreviveu à escravidão, ao racismo e à marginalização. O trançado, antes instrumento de resistência física, consolida-se também como meio de subsistência econômica. Mais do que a inclusão em um código da CBO, representa o reconhecimento de uma herança cultural viva, estruturante para a identidade e para a autoestima da população negra.

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