terça-feira, 15 de setembro de 2026
CENTRO DE GOIÂNIA

Ocupa Centro tenta devolver vida cultural ao coração de Goiânia após décadas de descaso

Projeto quer revitalizar o Setor Central, mas problemas históricos e infraestrutura precária ainda limitam os resultados

Anna Salgadopor em
O Ocupa Centro tem o objetivo de reanimar ruas e espaços culturais, mas enfrenta problemas de segurança, manutenção e impactos sobre o comércio tradicional
Foto: Divulgação/SET

Durante décadas, o Setor Central de Goiânia se tornou símbolo do abandono urbano. Patrimônio histórico negligenciado, comércio enfraquecido, violência crescente, ruas escuras e prédios fechados transformaram o bairro em espaço de passagem, e não mais de convivência. 

O contraste com o passado, quando a região reunia cinemas, cafés, livrarias e intensa vida noturna, escancara a dificuldade da Capital em preservar sua própria memória. Nesse contexto, a execução do projeto “Ocupa Centro”, inspirado em lei da vereadora Aava Santiago (PSDB), surge como tentativa de reverter a degradação. Ainda incipiente, a iniciativa busca transformar o espaço em polo cultural e de lazer, mas enfrenta desafios estruturais que vão além do fechamento eventual de ruas.

“Sem dúvida nenhuma, é uma grande vitória ver a Rua do Lazer sendo ocupada. Eu me lembro do primeiro evento que meu mandato realizou na Rua do Lazer em agosto de 2021, que era o ‘Lugar de Mulher é no Bar e na Política’. Desde então, a gente veio lutando para levar outros bares para lá e para contribuir para que esses bares permaneçam. É muito legal ver a rua lotada, ver a população comprando essa ideia, vivendo o centro da cidade”, afirma Aava.

A parlamentar, contudo, admite que o processo é lento e depende de medidas práticas. “Eu pedi a troca de todas as lâmpadas históricas e já foram trocadas. Pedi para instalar luzes também nos becos da Rua 8 como da Rua do Lazer, e isso já está acontecendo. O que mostra que a gente só tem a ganhar, porque onde tem luz, tem vida.” A fala evidencia um problema antigo: a ausência de manutenção básica do espaço público, que durante anos afastou frequentadores e estimulou a percepção de insegurança.

Ao defender o projeto, a vereadora insiste no valor histórico do bairro. “O Centro da cidade é o ponto de partida do desenvolvimento. É onde a história das cidades é contada e onde a memória é registrada. Aqui em Goiânia temos uma grande quantidade de patrimônio art déco, prédios históricos, cafés e espaços de convivência. Eu sou vizinha do Café Central, que já foi um ponto de encontro de intelectuais e jornalistas e hoje está bastante precarizado. Esse é só um exemplo do que significa o centro das cidades.”

Como moradora há 15 anos, a Aava ressalta a importância de manter a região acessível. “O Centro é um bairro relativamente acessível, onde a especulação imobiliária ainda não chegou de maneira tão feroz. A gente consegue confluir com o comércio de rua, moradias a preços relativamente baixos e muita riqueza de arquitetura e de entretenimento. Resgatar isso e devolver o Centro para as pessoas não é só um dever histórico, mas um ganho coletivo.”

O projeto, instituído pela Lei nº 11.293, estabelece o fechamento de ruas para veículos às sextas, sábados, domingos e feriados, além de iluminação reforçada, banheiros químicos e limpeza. “Antes da lei, a rua já vinha sendo ocupada pela população, mas sem olhar do poder público para segurança e organização. Projetos são bons, mas transitórios. Por isso quis registrar em lei, criando um marco regulatório permanente para a ocupação dos espaços públicos”, explica a autora.

 

Revitalização do Setor Central revela conflitos, limitações e dilemas históricos

 

O prefeito Sandro Mabel também defendeu a ação. “Criamos um espaço só para as pessoas aproveitarem Goiânia com tranquilidade e alegria. É um novo jeito de viver e aproveitar essa região”, disse em vídeo. Apesar do discurso positivo, a execução ainda está longe de resolver os problemas históricos do Centro. A insegurança continua presente, o patrimônio segue sem restauro adequado e as ruas sofrem com falta de manutenção.

As tensões geradas pelo Ocupa Centro também expõem fragilidades. O Cine Ritz, cinema de rua mais antigo em funcionamento, denunciou prejuízos e queda no público. “Depois do fechamento da rua para festas e badernas, o público do Cine Ritz deixou de ir ao cinema, devido ao barulho excessivo, à falta de segurança e de estacionamento. Famílias e crianças que frequentavam o espaço não estão vindo mais”, declarou em nota.

Aava reagiu. “Sou apaixonada pelo Cine Ritz e frequento com minha família. É absolutamente lamentável que um ponto tão importante seja vandalizado. Já entramos em contato com a equipe do cinema e com o Sesc, que reformou parte da fachada, para agir em conjunto. O Ocupa Centro também é para fortalecer espaços como o Ritz.” O episódio expõe o dilema central: como revitalizar sem expulsar ou inviabilizar atividades já existentes?

O professor Lisandro Nogueira da Universidade Federal de Goiás (UFG) lembra que experiências de sucesso em outras cidades exigiram planejamento de longo prazo. “O que precisa é de política urbana séria, como Curitiba fez com sucesso, onde você revitaliza o centro para ter vida noturna, cultural e residencial. Aí o cinema aparece naturalmente.” Sua fala aponta para um dos riscos de iniciativas pontuais: sem integração com políticas de moradia, transporte e cultura, a ocupação pode se limitar a eventos sazonais sem transformar de fato a dinâmica da região.

Aava insiste que o projeto é apenas o começo. Na Câmara, outros projetos estão em debate, como a extensão do calçadão da Rua do Lazer até a Rua 8, leis de incentivo cultural e ações de revitalização de becos. “Se a sociedade civil e a iniciativa privada adotarem esses espaços, como no Beco da Liberté, teremos um centro mais vivo. Estamos nessa direção, com resultados concretos, mas ainda há muito a fazer”, afirma. 

A vereadora também alerta que a revitalização não pode depender de um calendário cultural. “Queremos que o Centro seja permanentemente um espaço de convivência, que não dependa apenas de um calendário cultural ou da boa vontade de um governo.”

O “Ocupa Centro” recoloca a região no mapa da vida cultural de Goiânia, mas seu alcance revela as limitações de políticas pontuais diante de décadas de descaso. Se por um lado bares e artistas encontram espaço, por outro o comércio tradicional e equipamentos culturais sofrem com os impactos da mudança. 

O desafio não é apenas animar as ruas nos fins de semana, mas reverter um quadro de abandono histórico. Como resume Aava Santiago: “Revitalizar o Centro é devolver a cidade para quem vive nela. É tornar a rua um espaço de vida, não de abandono.”

Leia também: Professores temporários no Estado recebem menos que o piso salarial

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:

Veja também

Rodovia em Goiás terá radar que calcula velocidade média; entenda

TIRE O PÉ DO ACELERADOR!

Rodovia em Goiás terá radar que calcula velocidade média; entenda

Sistema será testado em trechos da BR-414 durante pelo menos seis meses e observará a velocidade m...
RH

publieditorial

Como um sistema de RH pode transformar as rotinas administrativas do departamento?

Centralização de informações, automação de tarefas e integração entre processos alteram a fo...
Polícia mira esquema de notas falsas ligado a supermercados de Jataí

OPERAÇÃO POLICIAL

Polícia mira esquema de notas falsas ligado a supermercados de Jataí

Operação mira esquema que teria causado prejuízo de R$ 23 milhões em Goiás
Centro de Goiânia recebe 4ª promessa de revitalização em dois anos

REVITALIZAÇÃO

Centro de Goiânia recebe 4ª promessa de revitalização em dois anos

Prefeitura protocola plano para recuperar fachadas de 34 prédios na Rua 3, mas projeto ainda depend...
adolescente

JUSTIÇA

Justiça marca audiência de caso envolvendo adolescente que atropelou casal em Goiânia

Sessão está marcada para 30 de setembro e terá a oitiva de uma testemunha; adolescente está inte...
Greve chega ao fim e administrativos da Educação voltam ao trabalho em Goiânia

PROPOSTA ACEITA!

Greve chega ao fim e administrativos da Educação voltam ao trabalho em Goiânia

Categoria aprovou proposta da Prefeitura após 21 dias de paralisação; atividades serão retomadas...
Operação investiga rede de supermercados por sonegação de mais de R$ 23 milhões em Jataí (GO)

Crédito fantasma

Operação investiga rede de supermercados por sonegação de mais de R$ 23 milhões em Jataí (GO)

Polícia Civil apura uso de empresas de fachada para emissão de notas fiscais e obtenção irregula...
Operação mira grupo suspeito de vender maconha medicinal de forma ilegal em Goiás

maconha medicinal

Operação mira grupo suspeito de vender maconha medicinal de forma ilegal em Goiás

Investigação aponta uso de empresas e associação para dar aparência legal à distribuição int...