quinta-feira, 29 de outubro de 2026
8 de janeiro

As estratégias da oposição para pautar anistia, que segue travada

PL aposta em brechas regimentais e desgaste entre Alcolumbre e o Planalto para tentar votar texto ou ao menos reduzir penas; especialista vê aprovação ampla como improvável

Bruno Goulartpor em
As estratégias da oposição para pautar anistia, que segue travada
PL articula pautar anistia na ausência do presidente da Câmara, Hugo Motta, enquanto o vice, Altineu Côrtes (PL-RJ), assumir o comando da Casa. Foto: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados

Bruno Goulart

A pressão do PL pela anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro ganhou força nas últimas semanas. Porém, apesar das manobras em discussão, o futuro da pauta ainda é incerto, tanto na Câmara quanto no Senado. A oposição mira três caminhos: votar a dosimetria defendida pelo deputado federal Paulinho da Força (Solidariedade-SP), forçar a votação na ausência do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB) ou apostar numa alternativa vinda do Senado.

Para começar, a estratégia mais imediata envolve o projeto da dosimetria das penas, que Paulinho da Força deve apresentar. A ideia do grupo bolsonarista é usar esse texto como “porta de entrada” para apresentar, em plenário, um destaque que resgataria a proposta de anistia ampla e irrestrita, de autoria do deputado federal Marcelo Crivella (Republicanos-RJ).

Além disso, o PL observa atentamente os movimentos no Senado. Na última semana, o senador Carlos Viana (Podemos-MG) protocolou o PL 5.977/2025, apelidado por ele mesmo de “PL do Fim dos Exageros”. O projeto revoga os tipos penais criados para proteger o Estado Democrático de Direito, como os crimes de golpe de Estado e de abolição violenta da ordem democrática. Na prática, abre caminho para beneficiar tanto réus do 8 de janeiro quanto investigados em outras frentes ligadas à extrema direita.

Pressão sobre a Câmara para pautar anistia

Apesar das estratégias, a oposição esbarra em uma barreira central: o presidente da Câmara. Ao O HOJE, o vice-líder do PL na Câmara, deputado Alberto Fraga (DF), foi direto: “Hugo Motta não quer pautar a anistia. Não é do interesse”.

Uma tática ventilada pelo PL seria aguardar uma viagem de Motta para que o vice-presidente da Casa, Altineu Côrtes (PL-RJ), colocasse a pauta em votação. Entretanto, o próprio Fraga reconhece o risco: “O vice pautar sem autorização dele poderia gerar uma crise”.

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Mesmo assim, o deputado avalia que há espaço para discussão no Senado. Segundo Fraga, bastaria “pautar” e a maioria decidiria. Sobre uma possível mobilização popular, o parlamentar do DF vê pouca chance de grandes atos organizados, mas afirma que há “revolta nas ruas” diante do que classifica como perseguição ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Fraga rejeita a tese de enfraquecimento da direita.

Procurado pela reportagem, o líder da oposição na Câmara, deputado Luciano Zucco (PL-RS), preferiu não comentar o assunto por “questão estratégica”, ao afirmar que está em semana de negociações. Zucco defende a votação do tema, mas reconhece que nem isso, por enquanto, está garantido.

“Janela de oportunidade”

Consultado pelo O HOJE, o cientista político Lehninger Mota avalia que a oposição interpreta o desgaste entre o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (UB-AP), e o presidente Lula (PT) como uma “janela de oportunidade”. O atrito foi provocado pela indicação do advogado-geral da União (AGU) Jorge Messias para o Suremo Tribunal Federal (STF), o que contraria o desejo de parte do Senado, que defendia o nome do senador e ex-presidente da Casa Alta, Rodrigo Pacheco (PSD-MG).

Esse conflito, explica Mota, reconfigura momentaneamente o ambiente político. “Um dos entraves sempre foi o Senado, mais alinhado ao governo que a Câmara. Com esse desgaste, abre-se espaço para debater redução de pena. Mas não vejo clima para uma anistia ampla e irrestrita.”

O cientista político destaca que, historicamente, a resistência à anistia veio não só da base do governo, mas também de setores do Centrão, que preferiam medidas intermediárias, como a reavaliação das penas. Aprovar uma anistia total poderia ser interpretado como uma confrontação direta ao STF, que conduziu o julgamento dos atos. (Especial para O HOJE)

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Anistia dosimetria PL do Fim dos Exageros

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