Importação de leite derruba preço ao produtor e provoca queda acima de 22%
Em 2025, produtores de Goiás viram o preço médio do litro cair de R$ 2,54 para R$ 1,90, segundo dados da Faeg
A cadeia produtiva do leite em Goiás vive um dos momentos mais delicados dos últimos anos. A intensificação das importações de leite em pó e derivados, principalmente da Argentina e do Uruguai, tem pressionado os preços pagos ao produtor, reduzido a renda no campo e provocado o abandono da atividade em diferentes regiões do Estado.
O cenário preocupa entidades representativas e o governo estadual, que já adotaram medidas para tentar conter os impactos e preservar a produção local. Segundo dados do setor, apenas no ano passado o Brasil importou o equivalente a 2,1 bilhões de litros de derivados lácteos, volume que representa uma entrada diária de cerca de 6 milhões de litros no mercado interno.
Desse total, 62% tiveram origem na Argentina e 27% no Uruguai, países que possuem custos de produção mais baixos e maior escala, o que dificulta a competitividade do produtor brasileiro.
Queda de preços e perda de renda no campo
Em Goiás, os reflexos são sentidos de forma direta. O gerente técnico da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), Edson Novaes, afirma que o principal fator da desvalorização do leite no Estado é o avanço das importações.
“O aumento da entrada de produtos estrangeiros, muitas vezes a preços inferiores aos praticados no mercado interno, tem provocado queda na renda, inviabilidade econômica e até a saída de produtores da atividade”, explica.
De acordo com a Faeg, somente em 2025 o preço médio pago ao produtor em Goiás caiu mais de 22%, passando de R$ 2,54 para cerca de R$ 1,90 por litro, com registros de produtores recebendo menos de R$ 1,50. No mesmo período, os custos de produção subiram, em média, mais de 3%, ampliando o desequilíbrio financeiro nas propriedades.
“O impacto direto é a perda de renda e, em muitos casos, a insolvência. Há produtores abatendo matrizes menos produtivas ou deixando a atividade porque não conseguem pagar as contas”, ressalta Novaes.
Embora a crise atinja todo o Estado, as regiões Sudeste, Sul e Sudoeste de Goiás, que concentram maior volume de produção, sentem os efeitos com mais intensidade. Para a Faeg, a redução da produção e o abate de matrizes podem gerar consequências ainda mais graves no médio e longo prazo.
“Essas medidas são emergenciais, mas comprometem a produção futura. Com menos leite sendo produzido hoje, o consumidor pode sentir impactos maiores nos preços no futuro”, alerta o gerente técnico.
Medidas do Estado e apoio ao produtor para mistigar os problemas com a importação
Diante do agravamento do cenário, o Governo de Goiás adotou uma série de ações. O secretário de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Pedro Leonardo Rezende, destaca que a retirada de incentivos fiscais de empresas importadoras foi uma das primeiras medidas estruturais.
“Foi promulgada uma lei que prevê a retirada de benefícios fiscais das empresas que importam leite e derivados. Essa ação já mostrou resultados concretos no controle da entrada desse produto no mercado goiano”, afirma.
Segundo a Faeg, após a retirada dos incentivos, Goiás registrou uma redução superior a 75% nas importações de leite e derivados em 2025. Além disso, o Estado sancionou a Lei nº 23.928/2025, que proíbe a reconstituição de leite em pó importado em território goiano, com previsão de multas e apreensão de produtos.
Rezende ressalta que o governo também ampliou políticas de apoio à agricultura familiar, responsável por cerca de 52% da produção de leite em Goiás. Entre as ações estão programas de aquisição de alimentos, com pagamento acima do valor de mercado, linhas de crédito com juros subsidiados e investimentos em melhoramento genético e capacitação técnica.
“Hoje, enquanto o mercado paga em torno de R$ 2,20, o Estado chega a pagar R$ 5,31 por litro nos programas de aquisição, garantindo renda e destinando o leite a entidades filantrópicas”, explica o secretário.
No cenário nacional, o problema se repete. Estados como Minas Gerais, Santa Catarina e Paraná também suspenderam incentivos fiscais ou proibiram a reconstituição de leite em pó importado. Ainda assim, o setor avalia que medidas isoladas não são suficientes.
Para a Faeg, a adoção de tarifas antidumping provisórias é essencial para reequilibrar o mercado. “A curto prazo, essa é a única medida capaz de conter a queda dos preços e proteger a cadeia láctea goiana e brasileira”, conclui Edson Novaes.
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