quinta-feira, 27 de agosto de 2026
ANÁLISE

Comportamento após crime leva a análises da psicologia forense no caso Daiane

Especialista afirma que confissão e colaboração com a polícia não indicam, necessariamente, arrependimento

Micael Mourapor em
Comportamento
Cléber confessou à Polícia Civil, nessa quarta-feira (28), o assassinato de Daiane Foto: Montagem/O HOJE

Antes mesmo de qualquer confissão, o comportamento de um suspeito após um crime pode revelar mais do que as próprias palavras. Preso com malas prontas e após indicar o local onde o corpo foi encontrado, o síndico Cleber Rosa de Oliveira passou a ser analisado não apenas sob o ponto de vista criminal, mas também comportamental.

A Polícia Civil de Goiás prendeu Cléber Rosa de Oliveira e o filho dele, Maycon Douglas de Oliveira, suspeitos de envolvimento na morte da corretora Daiane Alves de Souza, de 43 anos, em Caldas Novas, no Sul do Estado. As investigações apontam que o crime foi motivado por um histórico de desentendimentos entre a vítima e o síndico, iniciados após a perda da administração de apartamentos pertencentes à família da corretora, função que antes era exercida por Cleber.

Daiane estava desaparecida desde o dia 17 de dezembro de 2025. O corpo foi localizado na quarta-feira (28), a cerca de 15 quilômetros da área urbana de Caldas Novas, às margens da GO-213. Segundo a Polícia Civil, após a prisão, Cleber confessou o crime e indicou voluntariamente o local onde havia ocultado o corpo.

Além dos elementos investigativos, o comportamento adotado pelo suspeito após o crime passou a chamar a atenção de especialistas. Para o psicólogo forense Leonardo Faria, confessar um homicídio e colaborar com a polícia não significa, necessariamente, arrependimento.

“Do ponto de vista jurídico, assumir o crime e contribuir com a Justiça pode ser uma estratégia defensiva, já que essa conduta pode ser considerada como atenuante de pena”, explica. Segundo ele, essa colaboração pode estar ligada à expectativa de benefícios legais, como redução de pena, especialmente quando considerados fatores como primariedade e residência fixa.

Sob a ótica da psicologia, no entanto, Leonardo afirma que a confissão pode até indicar culpa ou arrependimento, mas apenas como possibilidade. “Na psicologia, a gente trabalha com indícios, não com certezas. Assumir um crime pode ser um indício de culpa, mas isso só acontece quando há afeto. Não existe culpa sem afeto”, afirma.

O especialista explica que sentimentos como culpa e arrependimento surgem quando há reconhecimento do valor do outro. “A culpa está ligada a um vínculo afetivo. A pessoa se sente responsável quando entende que fez algo errado contra alguém que tem significado. Quando esse vínculo não existe, a culpa pode simplesmente não aparecer”, pontua.

Leonardo Faria também chama atenção para comportamentos considerados frios após crimes violentos, como dormir normalmente, manter a rotina ou demonstrar aparente tranquilidade. Segundo ele, essas atitudes causam estranhamento porque fogem do padrão da maioria das pessoas. “A maior parte das pessoas sente empatia. Quando alguém não demonstra empatia, não há motivo interno para sentir culpa. O outro passa a ser visto quase como um objeto”, explica.

Esse processo, conhecido como coisificação da pessoa, ocorre quando a vítima deixa de ser percebida como um ser humano e passa a ser tratada apenas como um obstáculo. “É o mesmo mecanismo observado em casos de violência doméstica, em que o agressor agride e, no dia seguinte, age como se nada tivesse acontecido”, compara.

Para o psicólogo forense, conflitos prolongados também podem funcionar como gatilhos para crimes violentos, especialmente quando o indivíduo não consegue lidar com frustrações. “A frustração é um dos principais mecanismos psicológicos dos crimes contra a pessoa. Quando algo não acontece da forma como o sujeito quer e ele não sabe lidar com esse desconforto, pode partir para a agressão”, afirma.

Leonardo destaca que a incapacidade de tolerar frustrações revela imaturidade emocional. “Resolver conflitos exige tempo, reflexão e, muitas vezes, aceitar decisões desfavoráveis. Quando a pessoa não tolera perder ou ser contrariada, pode enxergar a violência como uma forma de eliminar o problema”, diz.

O especialista reforça que recorrer à violência para resolver disputas demonstra falha grave na compreensão das consequências. “Nem todo problema se resolve no tempo que a gente quer. Nem toda decisão judicial é favorável. O caminho saudável é recorrer, rever estratégias, não eliminar pessoas”, conclui.

Suspeitos de envolvimento na morte, síndico e filhos vão continuar presos

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Foto: Montagem/O HOJE

A Justiça de Goiás manteve a prisão preventiva do síndico Cleber Rosa de Oliveira e do filho dele, Maycon Douglas Souza de Oliveira, suspeitos de envolvimento na morte da corretora Daiane Alves de Souza, de 43 anos, em Caldas Novas, no Sul do Estado. A decisão foi tomada durante audiências de custódia realizadas nesta quinta-feira (29), na 1ª Vara Criminal da comarca.

Durante as audiências, conduzidas pela juíza Vaneska da Silva Baruki, foi homologado o cumprimento dos mandados de prisão temporária expedidos no curso da investigação. No caso de Cleber Rosa de Oliveira, a magistrada destacou que a ordem de prisão foi devidamente cumprida e que não foram constatadas ilegalidades na restrição de liberdade. Com isso, o mandado foi ratificado, e foi determinada a juntada da decisão e da gravação da audiência aos autos do processo que apura o homicídio. A juíza informou ainda que o pedido da defesa para que o processo tramite em segredo de Justiça será analisado no procedimento principal.

Durante a audiência, a defesa de Cléber não se opôs à homologação da prisão, mas solicitou acesso integral aos autos que fundamentaram a medida cautelar. O Ministério Público também se manifestou favorável à manutenção da custódia temporária.

Em relação a Maicon Douglas Souza de Oliveira, a Justiça igualmente ratificou a prisão temporária. Assim como no caso do pai, não foram identificados indícios de agressão ou qualquer irregularidade durante a prisão. A defesa de Maicon informou que pretende apresentar pedido de liberdade no processo principal, mas, até o momento, a custódia segue mantida.

Nota da defesa

Em nota divulgada após a audiência, o escritório Nestor Távora e Laudelina Inácio Advocacia Associada, que representa Cleber Rosa de Oliveira, informou que a audiência de custódia transcorreu normalmente e que o investigado respondeu a todas as perguntas feitas pela autoridade policial. A defesa afirmou ainda que Cleber segue colaborando com as investigações em andamento.

 

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