Trânsito

Cancelas no Complexo Jamel Cecílio reacendem debate sobre mobilidade urbana em Goiânia

Totens com monitoramento com cancelas automáticas usam câmeras, sensores e IA para monitorar trânsito e alagamentos; especialista aponta solução paliativa e alerta para impactos na mobilidade urbana

Letícia Leitepor em
Cancelas no Complexo Jamel Cecílio reacendem debate sobre mobilidade urbana em Goiânia
Sistema passou a funcionar no domingo (8) em uma das regiões mais críticas da Capital no período chuvoso. Foto: Alex Malheiros

A Prefeitura de Goiânia entregou neste domingo (8) os primeiros totens de monitoramento com cancelas automáticas instalados no Complexo Jamel Cecílio, região que concentra vias de grande fluxo e histórico recorrente de alagamentos durante o período chuvoso. O sistema reúne câmeras, sensores, painéis de LED e tecnologia de inteligência artificial para acompanhar o tráfego, identificar riscos e orientar motoristas em tempo real.

Segundo o prefeito Sandro Mabel (União Brasil), os equipamentos funcionam de forma contínua e não se limitam ao bloqueio das vias. “Esse é um totem de monitoramento, não é um totem só para acionar a cancela. Ele monitora o tempo inteiro e o ano inteiro essa via. Tem o monitoramento de placas, o monitoramento visual e também o reconhecimento facial. Já a operação das cancelas por ser feito tanto de modo remoto quanto automático”, afirmou.

De acordo com Mabel, a proposta é permitir intervenções mais pontuais e inteligentes no tráfego, especialmente durante chuvas intensas. “Para fechar a avenida de uma forma mais inteligente possível. Aqui mesmo nós estamos vendo, se aqui no complexo tiver que fechar, eu não preciso fechar aquela saída lá, se não for uma chuva muito grande. Eu deixo ela aberta, então o trânsito continua fluindo e fecha o resto do complexo”, explicou.

Atualmente, cinco totens operam no Complexo Jamel Cecílio. A prefeitura informou que o projeto prevê a instalação de 27 unidades em toda a cidade, com prioridade para regiões que concentram ocorrências de alagamento, como a Avenida 87, a Avenida 85 e a Marginal Botafogo. Segundo o prefeito, os equipamentos devem atuar de forma temporária em algumas áreas. “Até que nós consigamos fazer os piscinões que nós já estamos acabando os projetos, e deve começar a obra até o meio do ano, nós iremos utilizá-lo”, disse. Depois disso, os totens poderão ser remanejados.

O secretário municipal de Engenharia de Trânsito (SET), Tarcísio Abreu, destacou que os dispositivos possuem múltiplas funcionalidades. “A primeira funcionalidade é a cancela e a segunda é o monitoramento com câmeras que identificam, por exemplo, a altura do veículo e reconhecem as placas com inteligência artificial. Além disso, temos sirenes, iluminação e avisos sonoros que orientam o motorista”, afirmou.

Urbanista avalia que cancelas não resolvem gargalos históricos da cidade

cancelas
Foto: Alex Malheiros

Apesar da apresentação oficial, a iniciativa já vinha recebendo críticas de especialistas em urbanismo e mobilidade em reportagens passadas. Como avaliado pelo urbanista Fred Le Blue, a solução tem caráter paliativo e não enfrenta o problema estrutural da cidade. Para ele, as cancelas automáticas podem reduzir riscos imediatos, mas geram efeitos colaterais significativos no trânsito.

“As cancelas automáticas permitirão um tempo de resposta mais rápido e podem evitar danos, mas novamente promessas de soluções  milagrosas. Essa medida tem impacto expressivo no fluxo de trânsito, que já é caótico, especialmente na Avenida 87 e na Marginal Botafogo”, analisa.

Fred alerta que o fechamento de vias em horários de pico pode ampliar congestionamentos e até aumentar o risco de acidentes. “A Defesa Civil vai acionar as cancelas, mas ela não é o órgão responsável pela engenharia de trânsito. Fica a impressão de que basta apertar um botão, quando, na prática, o impacto no sistema viário é complexo”, pontua.

O urbanista defende um debate mais amplo sobre o modelo urbano de Goiânia e questiona projetos consolidados. “Talvez seja mais honesto reconhecer que a Marginal Botafogo foi um erro. Um parque linear ou uma reforma completa poderiam oferecer uma solução mais segura e sustentável”, afirma.

Como alternativas, Fred sugere medidas mais simples e econômicas, como cancelas manuais operadas por agentes de trânsito, sinalização fixa de alerta e investimentos em tecnologia e educação. “Um aplicativo que indique rotas alternativas em tempo real teria um efeito muito maior. Conhecer a cidade e distribuir melhor o tráfego pode salvar vidas em períodos chuvosos”, conclui.

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