domingo, 13 de setembro de 2026
não é não

Assédio no Carnaval expõe medo e insegurança das mulheres durante a folia

Pesquisas indicam que quase metade das brasileiras já sofreu assédio no período e mais de 70% temem novas ocorrências durante a festa

Renata Ferrazpor em
Assédio
Qualquer contato sem consentimento é crime e o “não é não” deve ser respeitado/Foto: Coletiva feminista-Não e Não_Divulgação

O Carnaval, tradicionalmente associado à liberdade, música e celebração, também revela uma realidade preocupante: para muitas mulheres, o período é marcado pelo medo. Entre os dias 13 e 17 de fevereiro de 2026, milhões de pessoas participam de blocos e festas pelo País, mas pesquisas indicam que a folia ainda representa um ambiente de risco. 

Levantamento do Instituto Locomotiva aponta que quase metade das brasileiras já sofreu algum tipo de assédio durante o Carnaval e a maioria teme reviver a situação.

Para a advogada especialista em direitos das mulheres, Ana Carolina Fleury, os dados não são surpresa. Segundo ela, o receio generalizado demonstra que a violência é estrutural. “Quando mais de 70% das mulheres têm medo, não é exagero, é experiência coletiva”, afirma. 

A consequência é visível no comportamento: muitas deixam de frequentar blocos, mudam roupas, evitam horários ou compartilham localização em tempo real como forma de autoproteção. O problema, segundo a especialista, é que a responsabilidade acaba recaindo sobre a vítima, quando deveria estar na prevenção e punição do agressor.

Assédio na folia ainda é realidade

O ambiente de multidões, associado ao consumo de álcool, favorece episódios de importunação sexual. Beijos forçados, toques sem consentimento, puxões de cabelo e perseguições são algumas das ocorrências mais relatadas. Pela legislação brasileira, qualquer ato libidinoso sem autorização é crime, e a insistência após a negativa configura violência.

Mesmo assim, parte da sociedade ainda relativiza essas atitudes. Pesquisas apontam que uma parcela da população acredita que quem vai sozinho ao Carnaval deseja contato físico ou que a roupa da mulher indicaria consentimento. Para especialistas, essa percepção reforça a cultura de violência e dificulta denúncias.

A orientação para quem sofre assédio é se afastar do agressor imediatamente e procurar apoio. Seguranças do evento, policiais ou outras pessoas próximas podem ajudar. Identificar características do agressor e reunir testemunhas também contribui para a ocorrência. 

A vítima deve registrar o caso na delegacia preferencialmente na Delegacia da Mulher e, em situações de violência sexual, buscar atendimento médico o mais rápido possível, mesmo antes de decidir se fará denúncia formal.

Além dos casos mais visíveis, especialistas alertam para situações consideradas “sutis”, mas igualmente violentas, como comentários insistentes, perseguições e tentativas repetidas de contato físico após negativa. Muitas mulheres relatam não denunciar por medo de constrangimento ou por acreditarem que a ocorrência não será levada a sério. 

Essa sensação de impunidade reforça o silêncio e contribui para a repetição das agressões. Campanhas educativas têm buscado informar que qualquer contato sem consentimento configura crime, independentemente da intensidade ou duração da abordagem.

O perigo também dentro de casa

O risco não está apenas nas ruas. Pesquisas apontam aumento significativo de feminicídios em finais de semana prolongados e feriados. O maior tempo de convivência com o agressor, aliado ao consumo de álcool e à redução do funcionamento de serviços públicos, cria um cenário propício à violência doméstica.

Especialistas explicam que o feminicídio raramente ocorre de forma repentina; normalmente é o ponto final de uma sequência de agressões psicológicas, morais e físicas. Muitas vítimas não denunciam por medo, dependência financeira ou emocional. Por isso, qualquer sinal de violência deve ser levado a sério.

Mulheres que possuem medida protetiva precisam comunicar imediatamente às autoridades qualquer descumprimento. Também é recomendado manter contatos de emergência acessíveis e informar pessoas de confiança sobre situações de risco. Durante feriados, muitas cidades mantêm plantões policiais e abrigos temporários para proteção das vítimas.

Outro fator que agrava o cenário é o isolamento social durante feriados prolongados. Sem rotina de trabalho ou escola, a vítima permanece por mais tempo no mesmo ambiente que o agressor, o que reduz as oportunidades de pedir ajuda. Em muitos casos, familiares e vizinhos são os primeiros a perceber mudanças de comportamento, como medo, silêncio excessivo ou pedidos indiretos de socorro. 

Omissão de testemunhas ainda dificulta combate à violência contra a mulher

Outro desafio é a omissão de testemunhas. Pesquisas indicam que cerca de 40% das pessoas que presenciam agressões não intervêm. Para a advogada, combater a violência exige ação coletiva. 

Em locais públicos, a intervenção pode ocorrer ao acionar segurança, aproximar-se da vítima ou chamar atenção de outras pessoas. No ambiente doméstico, ouvir sem julgamento e orientar sobre a rede de apoio já representa um passo importante.

Durante o Carnaval, situações de risco imediato devem ser comunicadas à Polícia Militar pelo 190. O telefone 180 funciona 24 horas para orientação e encaminhamento, inclusive de forma anônima. Em Goiânia, também é possível procurar a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher, utilizar o aplicativo Mulher Segura ou entrar em contato com o Batalhão Maria da Penha.

Campanhas educativas têm ampliado a conscientização, mas especialistas defendem ações permanentes, capacitação adequada das equipes de atendimento e responsabilização efetiva dos agressores. A meta é transformar a cultura social para que a mulher não precise escolher entre se divertir e se sentir segura.

Autoridades destacam que a denúncia não prejudica a vítima, mas possibilita a interrupção do ciclo de violência e a proteção de outras mulheres. Mesmo relatos anônimos ajudam a mapear áreas de risco e orientar ações preventivas das forças de segurança. 

O compromisso coletivo inclui também respeitar limites, apoiar campanhas educativas e intervir de forma segura quando necessário. Combater a violência contra a mulher passa pela mudança cultural, em que a diversão deixa de ser justificativa para qualquer forma de desrespeito.

Para além das medidas legais, a informação tem papel fundamental na prevenção. Conhecer direitos, reconhecer situações de violência e saber onde buscar ajuda podem evitar que casos se agravem. Grupos de apoio, amigos e familiares também são peças essenciais para acolher vítimas e incentivar a denúncia.

A expectativa é que, com conscientização e atuação conjunta da sociedade e do poder público, o Carnaval deixe de ser um período de alerta e volte a ser apenas um momento de festa.

Leia mais:Carnaval Cultural de Pirenópolis começa com ruas lotadas e valorização das tradições

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:

Veja também

Parada gay Goiânia

Movimento Queer

Parada LGBTQIA+ de Goiânia cobra mais participação política e ocupa ruas do Centro

Evento reuniu música, performances, serviços gratuitos e mobilização em defesa da participação...
mega-sena

LOTERIAS

Seis apostas de Goiás acertam a quina da Mega-Sena e levam R$ 95 mil

Concurso 3057 foi realizado neste domingo (13), com dezenas que distribuíram prêmios para apostado...
Casal morre em acidente de moto

Saída para Guapó

Segurança de Virginia Fonseca e esposa morrem após moto sair da pista e bater contra árvore na BR-060, em Goiânia

Rogério Camilo Ramos, de 53 anos, era tenente aposentado da PM de Goiás e estava na moto com a esp...
goiânia

SEGURANÇA

Adolescente de 15 anos é apreendido por tentativa de estupro contra duas mulheres em Goiânia

Jovem foi localizado dentro da mata do Parque Areião depois de fugir de uma loja no Setor Marista
Cromínia

Após mês foragido

Suspeito de matar radialista e mulher morre em confronto com a CPE em Cromínia

Ex-companheiro de Lucivane era procurado desde agosto e foi localizado em uma residência, onde houv...
dionísio

LUTO

Morre aos 96 anos Sr. Dionísio, ícone do xadrez em Goiânia

Enxadrista construiu uma trajetória de mais de duas décadas no Goiânia Shopping e se tornou conhe...
Polícia Científica faz reprodução simulada de acidente que matou engenheiro na GO-020 em Goiânia

PERÍCIA

Polícia Científica faz reprodução simulada de acidente que matou engenheiro na GO-020 em Goiânia

Reprodução foi solicitada pela autoridade policial responsável pela investigação para possibili...
Cerrado goiano

MEIO AMBIENTE

Cerrado tem queda de 19% no desmatamento em agosto

Dados foram apresentados em São Paulo nesta sexta-feira (11), o Dia Nacional do Cerrado