Retorno da Câmara é marcado por críticas a Mabel e pedido de impeachment
Protestos nas galerias, embate entre base e oposição e questionamentos sobre o programa “Obras Cidadãs” deram o tom da retomada dos trabalhos legislativos
Tensões, protestos de servidores públicos e o pedido de impeachment protocolado contra o prefeito Sandro Mabel (União Brasil) marcaram a abertura do ano legislativo na Câmara Municipal de Goiânia, na primeira sessão ordinária de 2026, que ocorreu na manhã desta quarta-feira (25).
O plenário e a galeria da Casa de Leis estavam tomados por apoiadores e opositores à gestão Mabel. Estiveram presentes na sessão a vice-prefeita Coronel Cláudia (Avante), o primeiro escalão do secretariado do Executivo municipal e servidores comissionados da prefeitura. Entre os opositores, estiveram manifestantes da área da saúde, que vaiaram vereadores da base durante os discursos em defesa do prefeito. O deputado estadual Clécio Alves (Republicanos), crítico do prefeito, também esteve na Câmara e se recusou a se sentar na Mesa Diretora.
O pedido de impeachment apresentado pelo vereador e ex-líder de governo, Igor Franco (MDB), tem como justificativa central supostas irregularidades relacionadas à condução administrativa do Executivo, como questionamentos sobre a utilização de recursos públicos. Em seu discurso, o parlamentar foi ovacionado por manifestantes e vaiado por comissionados.
“Fiz minha parte como vereador e protocolei o pedido de impeachment aqui na cidade de Goiânia”, disse o vereador na tribuna. Franco levou para o plenário um boneco inflável com a imagem do prefeito e os dizeres “saúde não é negócio” e “#Fora Mabel”. Ao descer da tribuna após o discurso, o parlamentar chutou o boneco repetidas vezes.
Líder do governo na Casa, o vereador Wellington Bessa (DC) afirmou que recebeu a notícia do pedido de impedimento contra o prefeito “com muita tranquilidade”. “Os 37 vereadores têm legitimidade para fazer qualquer tipo de pedido, desde que represente legitimamente a cidade. O pedido será apreciado pelos 37 pares, que vão decidir, com toda a certeza, pelo arquivamento”, declarou.
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Critérios técnicos
O presidente da Câmara, Romário Policarpo (sem partido), também comentou o caso e ressaltou que a tramitação seguirá critérios técnicos. “Acho natural. Aqueles que têm algo contra a gestão têm que fazer seus apontamentos. O pedido de impeachment é algo regimental, existe tanto no regimento como também nas leis do município. O que será feito é uma análise técnica. O impeachment, apesar de ser uma ferramenta política, não pode ser apenas apresentado de qualquer forma”, afirmou.
Segundo Romário, a Procuradoria da Casa fará uma avaliação cautelosa antes que a Mesa Diretora decida sobre o andamento ou não do processo. “Aqui na Câmara, a decisão é da maioria, desde que tenha fundamento”, completou.
A ausência do prefeito na abertura do ano legislativo gerou revolta e controvérsia. Bessa afirmou que Mabel estaria em São Paulo e teria perdido um voo, o que justificaria a falta na sessão de abertura. No entanto, uma fonte do Paço Municipal ouvida pela reportagem do O HOJE afirmou que o prefeito não esteve na capital paulista nesta semana. A vice-prefeita, que participou apenas de parte da sessão, deixou o plenário para cumprir agenda no Jardim Guanabara ao lado de Mabel.
Críticas da oposição
A vereadora Aava Santiago (PSB) criticou o tratamento e a ausência do chefe do Executivo municipal na Câmara. “Ele mobilizou comissionados para estarem nas galerias para aplaudir e ainda assim não teve coragem de enfrentar aqueles que divergem dele. A Casa é do povo. O gestor precisa ter coragem para enfrentar as divergências”, afirmou.
Aava ainda classificou como “lamentável” a sinalização de que o programa “Obras Cidadãs” atenderia prioritariamente vereadores da base. “Não é uma ofensa só à Câmara, é à população da cidade”, disse. No plenário, o vereador Lucas Vergílio (MDB) foi ainda mais incisivo. O parlamentar afirmou que o prefeito “institucionalizou a compra de apoio político” ao anunciar a destinação mensal de recursos para obras indicadas por aliados, em referência ao novo programa da prefeitura.
Além disso, o vereador criticou a ausência do prefeito na Câmara Municipal. “Ele esteve na retomada dos trabalhos da Assembleia Legislativa e aqui, onde deveria estar, não vem. É um desrespeito à instituição”, criticou. Vergílio também apresentou questão de ordem para pedir a criação formal da liderança da oposição nas comissões permanentes, ao argumentar que a presença do líder do governo nesses colegiados sem equivalente da oposição “quebra a isonomia e a independência do poder”.