Prato Feito já custa quase R$ 48 em Goiânia e aperta orçamento do trabalhador
Com alta de 29% em um ano, Capital registra descompasso entre o valor do vale-refeição e o custo real do prato feito
O tradicional “prato feito”, popularmente conhecido como PF, sempre esteve presente de forma regular na rotina de grande parte dos trabalhadores goianos. No entanto, o cenário atual em Goiânia mostra que até mesmo essa opção considerada mais acessível tem se tornado um peso difícil de carregar no orçamento mensal. De acordo com levantamentos recentes da Associação Brasileira das Empresas de Benefícios ao Trabalhador (ABBT), o custo médio da refeição na Capital atingiu R$ 47,96, o que representa uma alta expressiva de 29% em relação a 2024, quando o valor era de R$ 37,18.
Dentro dessa média, o prato feito destaca-se com um custo médio de R$ 33,89. Embora seja o formato mais barato entre os analisados, comparado ao autosserviço (R$ 56,44), ao executivo (R$ 54,74) e ao à la carte (R$ 90,50), o valor ainda assim ultrapassa a média do benefício diário recebido por grande parte dos profissionais.
Estima-se que a média nacional do vale-refeição seja de aproximadamente R$ 27 por dia útil, o que cria um déficit diário imediato para quem opta pelo PF em Goiânia. Na prática, isso significa que, mesmo escolhendo a alternativa considerada mais acessível nos restaurantes, o trabalhador precisa complementar o pagamento do prato com recursos próprios, pressionando o orçamento ao longo do mês.
Um dos pontos mais alarmantes para a economia doméstica é o descompasso entre o preço dos alimentos no supermercado e o custo de comer fora de casa. Dados do Núcleo Aplicado de Estudos e Pesquisas Econômico-Sociais (Naepe) indicam que a alimentação fora do lar acumulou uma inflação de 10,14% em 2025. Em contrapartida, a cesta básica no mesmo período registrou uma queda de 4,17% nos supermercados. O contraste evidencia uma dinâmica desigual de preços e reforça a percepção de que preparar as refeições em casa tem se mostrado, proporcionalmente, mais vantajoso do ponto de vista financeiro.
Essa relação inversa significa que, embora os ingredientes estejam custando menos nas gôndolas, o serviço, os custos operacionais dos restaurantes e a logística urbana impedem que essa redução chegue ao consumidor final que almoça perto do trabalho. Para o trabalhador, a consequência é direta: ele se vê obrigado a complementar o valor do prato com recursos do próprio salário ou, em casos mais drásticos, reduzir a qualidade nutricional da sua alimentação para fazer o benefício durar até o fim do mês.
Preço do prato varia
A variação de preços do prato não é uniforme em toda a cidade, e a localização do posto de trabalho exerce uma pressão adicional. Em regiões com alta concentração de serviços e padrão de consumo elevado, como os setores Bueno e Marista, o custo de vida é significativamente maior. Nesses bairros, a renda necessária para manter um padrão confortável pode variar entre R$ 5,5 mil e R$ 7 mil para uma pessoa solteira, sendo a moradia e a alimentação os principais vilões do orçamento.
A Adriana Pereira de Sousa, presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon-Go), destaca que o conceito de qualidade de vida em Goiânia passa necessariamente pela capacidade de não viver no limite do orçamento. Contudo, quando o custo da alimentação sobe de forma desproporcional, o trabalhador entra em uma zona de risco financeiro. Segundo o conselho, o comprometimento de mais de 60% da renda com despesas essenciais, como comida e moradia, é insustentável no médio prazo e indica um risco elevado de endividamento estrutural.
O aumento de 96,84% no preço médio de pratos executivos, que saltaram de R$ 27,81 para R$ 54,74 em apenas um ano, empurrou uma massa de consumidores para o prato feito. Essa migração, porém, inflaciona também a opção mais barata, já que a demanda cresce. Diante dessa realidade, o papel dos benefícios corporativos tem sido questionado. Quando o vale-refeição tradicional não acompanha o custo real de vida, ele deixa de ser um diferencial e passa a ser apenas um atenuante insuficiente.
Soluções modernas de benefícios, como cartões flexíveis, têm surgido como uma tentativa de dar ao colaborador maior liberdade de escolha, permitindo que ele gerencie melhor os recursos diante da alta dos preços. Para o setor econômico, o desafio é estrutural. A defasagem entre o salário real e o custo ideal de vida na capital goiana explica o aumento do uso de crédito para despesas básicas de consumo.