quarta-feira, 25 de março de 2026
Prisão de Bolsonaro

Mesmo preso, no centro do poder: Bolsonaro transformou a Papudinha em QG eleitoral

Antes de ser internado na UTI e autorizado à prisão domiciliar, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) recebeu aliados e pré-candidatos em Brasília e participou diretamente da montagem do tabuleiro político para 2026

Paula Costapor Paula Costa em 25 de março de 2026
Prisão de Bolsonaro
Bolsonaro teve 40 visitas e 206 atendimentos médicos em 56 dias na Papudinha. Crédito: Reprodução/ Rede Social.

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) transformou, entre janeiro e março de 2026, sua passagem pelo 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, conhecido como Papudinha, em Brasília, em um ponto de articulação política para as eleições de 2026. Durante o período em que esteve preso na unidade militar, após transferência autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), o ex-chefe do Executivo recebeu visitas de parlamentares, governadores e aliados, em encontros que resultaram em definições de candidaturas e estratégias eleitorais, mesmo sob restrições judiciais.

A movimentação ganhou intensidade após Bolsonaro deixar a Superintendência da Polícia Federal, onde estava sob regras mais rígidas de visitação, e passar a receber aliados interessados em alinhar projetos políticos. O fluxo de encontros consolidou o local como uma espécie de centro informal de decisões do bolsonarismo, com impacto direto na montagem de chapas estaduais e disputas ao Senado.

No dia 13 de março, Bolsonaro deixou a unidade prisional para internação em um hospital particular em Brasília, após diagnóstico de broncopneumonia. Na tarde da terça-feira (24), Moraes autorizou que, após a alta hospitalar, o ex-presidente cumpra 90 dias de prisão domiciliar, com restrições que incluem a proibição de uso de celular, gravação de vídeos e recebimento de visitas fora do núcleo familiar e da defesa. Após o período, ele poderá retornar ao sistema prisional.

Entre os visitantes estiveram o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP); o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ); o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG); o senador Wilder Morais (PL-GO); além de nomes como Rogério Marinho (PL-RN), Hélio Lopes (PL-RJ) e Cabo Gilberto Silva (PL-PB). Também participaram integrantes de governos estaduais e ex-auxiliares do ex-presidente, ampliando o alcance das articulações.

As reuniões tiveram desdobramentos concretos. Após encontro com Bolsonaro em 29 de janeiro, Tarcísio reafirmou a decisão de disputar a reeleição em São Paulo, afastando especulações sobre candidatura presidencial. Já o deputado Guilherme Derrite (PP-SP), que esteve com o ex-presidente em 25 de fevereiro, foi confirmado por Flávio Bolsonaro como pré-candidato ao Senado por São Paulo. Em Minas Gerais, Nikolas Ferreira afirmou ter recebido aval para conduzir negociações eleitorais e definição de nomes para o governo e o Senado.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que desistiu de ser candidato a presidente após Bolsonaro escolher o filho, visitou o aliado na prisão em 29 de janeiro.
Após o encontro, reiterou que pretende disputar a reeleição como governador e negou qualquer incômodo na relação. “A gente conversa sobre isso desde 2023, que meu interesse é ficar em São Paulo. Isso não tem controvérsia nenhuma”, disse. No dia seguinte, negou que a decisão represente submissão política ao ex-presidente.

O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) esteve com Bolsonaro em 21 de fevereiro e afirmou ter recebido aval para articular alianças eleitorais em Minas Gerais.
“Obviamente, entramos em questões políticas, não somente em Minas Gerais, mas de outros estados. A gente tem trabalhado para construir algo melhor, principalmente em Minas, na definição de nomes tanto para o Senado quanto para o governo, porque não queremos correr o risco de entregar o estado para a esquerda ou para o PT”, disse o parlamentar a jornalistas.

No Rio Grande do Sul, o deputado Ubiratan Sanderson (PL-RS) declarou ter sido incumbido de atuar como porta-voz político do ex-presidente, diante das limitações impostas pela Justiça. Segundo ele, Bolsonaro já teria sinalizado nomes para a disputa ao Senado no estado, incluindo sua própria pré-candidatura e a de Marcel Van Hattem (Novo-RS).

Parte das decisões foi divulgada publicamente por Flávio Bolsonaro, que assumiu o papel de interlocutor político do pai durante o período de restrições. Em um dos episódios, o senador anunciou a definição de candidaturas ao Senado em Santa Catarina, indicando o vereador Carlos Bolsonaro (PL-RJ) e a deputada Carol De Toni (PL-SC), movimento que gerou ruído com aliados tradicionais, como o senador Esperidião Amin (PP-SC).

A agenda política ocorreu paralelamente ao avanço do processo judicial. Bolsonaro foi condenado, em setembro de 2025, a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado e teve a prisão preventiva decretada em novembro pelo ministro Alexandre de Moraes, após descumprimento de medidas cautelares. Em 15 de janeiro de 2026, o magistrado autorizou a transferência do ex-presidente para a Papudinha, que desde a tarde da terça-feira (24), segue em prisão domiciliar.

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