Inflação em Goiânia desacelera, mas alta dos alimentos e energia pressiona famílias
Mesmo com índice abaixo da média nacional, economista aponta impacto da inflação mais severo sobre os mais pobres e alerta para custos crescentes na construção civil
A inflação em Goiânia perdeu força em março e ficou entre as menores do País, mas o alívio no índice geral não se traduz em alívio no bolso da população. O avanço dos preços de alimentos e energia elétrica mantém a pressão sobre o custo de vida, com impacto mais intenso sobre as famílias de baixa renda.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a capital goiana registrou alta de 0,40% no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), abaixo da média nacional, que ficou em 0,88%. Apesar disso, itens básicos seguem como os principais responsáveis pela elevação dos preços no mês.
O economista Luiz Carlos Ongaratto explica que a alta dos alimentos tem relação direta com fatores climáticos e com a sazonalidade da produção. Segundo ele, as chuvas provocaram perdas em algumas culturas, o que já era esperado, embora não na intensidade observada.
“Não era esperado um aumento nessa magnitude, mas é um cenário que se desenhou pelo Brasil todo. Não foi nenhum privilégio de uma região ou de outra, foram fatores de sazonalidade. Também alguns alimentos sobem de preço ou caem de preço”, afirma.
Entre os itens que mais pesaram na inflação de março estão produtos como tomate, leite e outros alimentos básicos, além da energia elétrica. Para o especialista, essa composição torna a inflação mais difícil para quem tem menor renda.
“É bem mais perversa a inflação para quem tem uma renda menor. A grande parte do custo de vida da população em geral são os alimentos. A gente não deixa de alimentar. A gente pode deixar de pagar uma outra conta”, destaca.
INPC reforça esse cenário maior de inflação aos mais vulneráveis
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que mede a inflação para famílias com renda de até cinco salários mínimos, reforça esse cenário. Em Goiânia, o indicador ficou acima do IPCA no mês, o que evidencia o maior peso da inflação sobre as camadas mais vulneráveis.
Apesar da pressão recente, Ongaratto avalia que a alta dos alimentos não deve se manter de forma contínua. Segundo ele, o movimento tende a seguir um comportamento cíclico, com estímulo à produção diante dos preços elevados.
Outro fator que influencia diretamente os preços é o custo dos combustíveis, especialmente o diesel, que impacta o transporte de mercadorias. Produtos mais sensíveis ao frete, como alimentos, acabam refletindo esse aumento com maior rapidez.
A energia elétrica também aparece como um dos principais desafios. O economista aponta que, apesar do avanço das fontes renováveis, como a solar, há limitações na oferta em determinados horários, o que encarece a geração por meio de usinas termoelétricas.
Além do impacto direto no consumo, o avanço dos custos também se reflete em outros setores da economia. Na construção civil, o cenário é de alta contínua. Goiás acumula 22 meses seguidos de aumento no custo do metro quadrado, segundo o Índice Nacional da Construção Civil (Sinapi).
Para Ongaratto, esse movimento está ligado a uma combinação de fatores, como o mercado aquecido, a escassez de mão de obra qualificada e o encarecimento dos terrenos.
Ele explica que a construção civil enfrenta uma dificuldade crescente para encontrar trabalhadores especializados. “A idade média do trabalhador está mais elevada e a população jovem não se interessou pela construção civil, tem pensado em profissões alternativas”, explica.
Esse desequilíbrio entre oferta e demanda tem levado empresas a investir em tecnologia para manter o ritmo das obras. Ao mesmo tempo, o aumento no preço dos terrenos pressiona ainda mais o custo final dos empreendimentos.
Segundo o economista, o efeito tende a ser mais perceptível em Goiânia, onde a demanda por imóveis é maior e a cidade apresenta um perfil mais consumidor do que produtor.
“Os custos, eles refletem maior em Goiânia, porque também é a maior cidade […] É uma cidade mais consumidora, tem uma demanda aquecida”, afirma. Isso acaba refletindo diretamente nos preços pagos pelo consumidor final.
Para os próximos meses, a expectativa é de que novos reajustes, especialmente nos combustíveis, possam voltar a pressionar a inflação. Ainda assim, o cenário deve continuar marcado por oscilações, com períodos de alta e desaceleração.