No Manda Vê, compositor Elvis Elan fala sobre carreira
Autor de Liberdade Provisória e Blackout, ele contou os bastidores das composições, a influência da MPB e os planos como artista independente
O cantor e compositor Elvis Elan nasceu em Barreiras, no oeste da Bahia, mas cresceu em São Desidério, cidade que considera sua origem real. Na última segunda-feira (13), foi o convidado do episódio 159 do podcast Manda Vê, apresentado por Juan Allaesse e Isadora Carvalho. Ao longo de mais de duas horas, falou sobre os bastidores das composições que o tornaram referência no sertanejo, sobre o mercado digital e sobre os projetos que prepara como artista independente.
O primeiro contato com a música aconteceu num projeto cultural da escola chamado Encontro das Artes, em São Desidério. Sem experiência como cantor, assumiu o microfone pela primeira vez naquela ocasião. A banda que montou com amigos para o concurso se chamava Identidade Restrita. Antes de chegar ao sertanejo, passou por uma banda baile e pelos bares de MPB da região. Aos 20 anos, mudou-se para Goiânia com uma dupla sertaneja e, depois de um período em parceria, seguiu carreira solo na cidade conhecida como a capital do gênero.
Blackout como divisor de águas
No podcast, Elvis apontou a composição Blackout, gravada por Cristiano Araújo, como o divisor de águas da carreira. Foi a música que o colocou na prateleira do mercado sertanejo e o apresentou profissionalmente ao meio. Após o sucesso da faixa, passou a ser reconhecido e indicado por nomes influentes do setor, entre eles o produtor Juliano Tula. A canção tornou-se o cartão de visitas utilizado para apresentá-lo a outros artistas e parceiros de composição, e marcou o momento em que Elvis começou a compor com outras pessoas.
O catálogo construído desde então é extenso. Entre os títulos que assina estão Abre o Portão que eu Cheguei, de Gusttavo Lima; Terra sem CEP, de Jorge e Mateus; Não Era Você, de João Bosco e Vinícius; Sonhei que Tava me Casando, de Wesley Safadão; e Espaçosa Demais, de Felipe Araújo. Em parceria com Henrique Casttro, assina Liberdade Provisória, gravada por Henrique e Juliano e uma das músicas mais tocadas no Brasil em 2020. No Manda Vê, Elvis detalhou ainda a origem de Cheiro de Culpa, conhecida como a música do Bluetooth, além de Motel Afrodite e Nem Pagando.
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Perfeccionismo e processo criativo
Ao falar sobre o processo de criação, Elvis descreveu um hábito que considera essencial: após compor uma música, evita ouvi-la por um período. O objetivo é não contaminar os trabalhos seguintes e afastar o encantamento imediato que impede uma avaliação imparcial. Afastado da canção por algum tempo, consegue julgá-la com mais clareza sobre o real potencial do que criou. O artista classificou esse comportamento como uma forma de evitar a autossabotagem e garantir que a música seja boa de fato, não apenas um efeito da euforia do momento.
Sobre o repertório, Elvis explicou que o processo varia conforme a proximidade com o artista. Em projetos de quem tem maior relação, como Henrique e Juliano, participa ativamente da seleção, passando dias ouvindo músicas em estúdio ou em fazendas para filtrar o que entra no disco. No mercado atual, a velocidade das plataformas acelerou esse processo. Os produtores apresentam os arranjos, os artistas ouvem e a decisão é tomada com rapidez, em função da agilidade exigida pelo público.
Para o DVD Debaixo do Sol, seu projeto autoral, Elvis adotou uma abordagem diferente. Inspirado em making offs de artistas de MPB e pop rock que tratam o álbum como obra coesa, buscou criar um setlist com fio condutor, no qual as músicas conversassem entre si e tivessem propósito narrativo. O cantor confirmou que trabalha na segunda parte do projeto e que prepara um novo álbum de carreira para lançamento em breve.
Fé, rádio e independência
A espiritualidade apareceu como tema recorrente no episódio. Elvis contou que reza antes de compor e antes de subir ao palco, hábito que mantinha também durante as parcerias com Henrique Casttro, quando os dois pediam discernimento para que as músicas tocassem o coração do público. No Manda Vê, declarou-se entusiasta do rádio e afirmou que, apesar do avanço do streaming e dos podcasts, o veículo ainda cumpre papel fundamental de informação e conexão com o ouvinte.
Como artista independente, Elvis defendeu a necessidade de proatividade. Apontou que não é possível esperar o sucesso por acaso e que é preciso entender de repertório e utilizar os recursos digitais disponíveis para se posicionar. Refletiu sobre como as redes sociais mudaram a promoção musical: antes o foco era o YouTube e as visualizações; hoje, a música precisa viralizar por meio de trends e conteúdos gerados pelo público. Ao encerrar o episódio, cantou ao vivo trechos de seus principais sucessos e reafirmou que seguir fazendo música é o que mais importa.
O episódio completo está disponível no canal do podcast Manda Vê.