quarta-feira, 22 de abril de 2026
Sono e saúde

8 em cada 10 adolescentes sofrem de jet lag social

Levantamento com 64 mil jovens brasileiros expõe um problema que compromete o sono, a saúde mental e o desempenho escolar de uma geração inteira

Luana Avelarpor Luana Avelar em 21 de abril de 2026
Jet lag
Foto: freepik

Oito em cada dez adolescentes brasileiros dormem e acordam em horários que fazem mal ao próprio corpo. Esse é o dado central de uma pesquisa realizada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que analisou mais de 64 mil jovens entre 12 e 17 anos e concluiu que mais de 80% deles apresentam algum grau do chamado jet lag social, um descompasso entre o ritmo biológico interno e os horários exigidos pela vida cotidiana. Os resultados foram publicados na revista científica Sleep Health.

O número transforma radicalmente a maneira de encarar um comportamento que, durante décadas, foi tratado como falta de disciplina ou excesso de telas: o adolescente que não consegue dormir cedo, tem dificuldade absurda de acordar de manhã e dorme até o meio-dia no fim de semana. Na maior parte dos casos, não se trata de escolha e sim de biologia em conflito direto com a agenda.

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Um desajuste com nome científico

O jet lag social descreve exatamente esse conflito. O organismo possui um relógio interno, o ritmo circadiano, que regula os ciclos de sono e vigília. Na adolescência, esse relógio sofre uma alteração natural e passa a funcionar atrasado: o corpo passa a pedir sono mais tarde e, como consequência, tem mais dificuldade de funcionar bem nas primeiras horas da manhã. Não é comportamento. É fisiologia.

O problema começa quando esse ritmo biológico colide com os horários da escola. Com aulas que arrancam entre 7h e 7h30 na maioria das redes de ensino do país, os jovens são obrigados a acordar em um horário que contraria o que o organismo deles naturalmente pede. A semana vira um ciclo de privação de sono. O fim de semana, uma tentativa de reparar o estrago que, na prática, só aprofunda o desalinhamento, já que dormir até tarde no sábado e no domingo desloca ainda mais o relógio interno.

Esse vai e vem constante nos horários de dormir e acordar é o que os pesquisadores chamam de jet lag social. O nome não é por acaso: o efeito sobre o organismo lembra o de quem viaja repetidamente entre fusos horários diferentes, sem sair do lugar.

Jet lag social: o que está em jogo

As consequências documentadas vão muito além do cansaço. Jovens com maior grau de jet lag social apresentam pior desempenho escolar, dificuldade de concentração, instabilidade emocional e risco elevado de ansiedade e depressão. Há ainda impactos metabólicos relevantes, incluindo maior predisposição à obesidade, o que torna o problema não apenas educacional, mas essencialmente de saúde pública.

A pesquisa da UFRGS identificou também que certos hábitos comuns entre adolescentes agravam o quadro. O uso de dispositivos eletrônicos à noite retarda o início do sono ao estimular o cérebro e inibir a produção de melatonina, o hormônio que sinaliza ao corpo que é hora de descansar. O consumo de álcool, mesmo que esporádico, fragmenta as fases do sono e reduz sua qualidade. Já pular o café da manhã aparece como sintoma de uma rotina cronicamente desregulada, geralmente reflexo de noites tardias e manhãs sem tempo.

O estudo mostrou ainda que adolescentes que frequentam o turno da manhã têm prevalência maior do problema em comparação aos que estudam à tarde, um dado que, sozinho, já aponta para onde parte da solução precisa ser buscada.

O horário das aulas 

A Academia Americana de Pediatria recomenda que as aulas no ensino médio comecem após as 8h30. Países europeus e distritos escolares nos Estados Unidos que adotaram horários mais tardios registraram resultados consistentes: mais horas de sono, maior capacidade de atenção em sala de aula e melhora em indicadores de saúde mental entre os estudantes.

No Brasil, essa discussão ainda não ganhou espaço nas políticas educacionais de forma ampla. Enquanto isso, as recomendações individuais seguem sendo as mesmas: manter horários de sono regulares durante toda a semana, inclusive aos fins de semana, reduzir o uso de telas nas horas que antecedem o sono e buscar exposição à luz natural logo após acordar.

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