Documentário sobre Tarzan de Castro estreia com casa cheia
Filme reconstrói prisão, exílio e militância pela fala direta do protagonista
A estreia de Tarzan de Castro: Vida, Lutas e Sonhos, na última segunda-feira (20), durante a Mostra O Amor, a Morte e as Paixões, ocorreu com ingressos esgotados e sala lotada. A exibição marcou o primeiro contato público com o documentário dirigido por Karla Rady e Raimundo Alves, que agora inicia sua circulação.
O filme se organiza a partir de uma escolha direta: retirar mediações e conduzir a narrativa pela fala de Tarzan de Castro. Sem narrador externo, o material acompanha episódios de prisão, clandestinidade e exílio durante a ditadura militar, estruturados pela memória de quem os viveu. A construção evita explicações paralelas e se apoia na sequência dos relatos.
“Me sinto realizado. É muito emocionante e fantástico, nos meus quase 90 anos, ver tudo que passei na luta (e no amor também), com todas as consequências do viver, transformado em um documentário sobre a minha vida”, diz Tarzan.
A recepção do público reforçou o impacto da narrativa. “A audiência foi muito grande, houve muitos aplausos durante a projeção e depois também. Foi um momento muito emotivo, muito cheio de coisas interessantes. Para mim, foi gratificante perceber que a luta, o que a gente passou, as perseguições e o sofrimento, foram reconhecidos”, afirma.
A estrutura do filme se sustenta em um recorte de tempo delimitado, que evita dispersão e concentra o ritmo no relato do protagonista e nos depoimentos que atravessam a narrativa. Para Karla Rady, o tema não se restringe ao período histórico retratado. “A partir do momento em que a gente entende que a luta pela manutenção da Democracia é algo que temos que estar atentos diariamente, esse filme, assim como outros que abordam o tema, será sempre sobre o presente, mesmo que relatem fatos históricos”.
A diretora aponta ainda a permanência de tensões políticas no país. “Um exemplo disso é o 8 de janeiro. Ainda hoje, passados 41 anos do fim da ditadura no país, precisamos estar atentos, pois, como a data citada evidenciou, a Democracia está sempre sob risco”.
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Parte dos depoimentos foi registrada nesses espaços. A decisão altera a percepção do material ao aproximar o relato do contexto em que ocorreu. “Eu e Raimundo Alves (que dirigiu o filme ao meu lado) propusemos uma viagem pela trajetória dos anos de chumbo por meio da vida e da luta de Tarzan de Castro”, afirma Karla.
A diretora relaciona essa escolha à forma como o público acessa o conteúdo. “Ter o personagem narrando as próprias aventuras e nos locais onde alguns dos fatos se desenrolaram aproxima o espectador da carga emocional e da sua importância histórica”.
Ao longo do filme, o relato individual evidencia decisões tomadas em um contexto coletivo. “Fica mais fácil, digamos assim, compreender os contextos e entender que por trás de tantos dados frios, temos os seres humanos, com sonhos, desafios, famílias e escolhas”, diz.
O documentário se baseia no livro organizado por Juarez Ferraz de Maia e segue a maneira como o próprio Tarzan elabora os acontecimentos. “Quem leu o livro ou já teve a oportunidade de conversar com o Tarzan, sabe que ele consegue falar de tudo o que viveu com leveza, apesar do peso do tema. Isso contribuiu muito para as nossas escolhas enquanto diretores”, afirma Karla.
A montagem, assinada por Bruno Fiorese, mantém a centralidade da fala e evita explicações externas. “O filme traz um recorte muito bem definido de tempo e se sustenta na força e na personalidade do protagonista, que é quem narra todos os acontecimentos, sem intervenções de um narrador ou apresentador”, diz.
A importância de revisitar esse período aparece de forma recorrente no discurso do protagonista. “A luta contra a ditadura, não pode ser esquecida. Nós sempre vivemos sob uma certa ameaça. É importante que as novas gerações conheçam o que significou esse período e as lutas que foram necessárias para conquistar a democracia”, afirma.
O direito à memória, à verdade, à justiça e à reparação não se negocia. Ao recuperar uma trajetória marcada por perseguição, prisão e exílio, o filme aponta para a necessidade de lembrar para evitar a repetição. O passado surge como algo ainda em curso, atravessado por questões sem resolução, indicando que lembrar não é apenas registrar, mas enfrentar o que permanece em aberto.
“Eu sou otimista com a democracia brasileira. Apesar dos problemas, acredito que precisamos seguir defendendo e ampliando os espaços democráticos. Esse futuro mais justo é algo que a gente ainda pode alcançar, mas depende de luta permanente”, diz Tarzan.
Após a exibição, o filme foi debatido em sessão mediada pela jornalista Fabiana Pulcineli. Diante da procura, a possibilidade de uma nova sessão ao fim da mostra passou a ser considerada, ainda sem confirmação. As próximas exibições devem ser divulgadas pelos perfis @tarzan_doc, @tupifilmes e @olhocomunica.