sexta-feira, 24 de abril de 2026
German Beatbox Championship

Goianiense de 20 anos vai a Berlim disputar o top mundial do beatbox

Penido é o primeiro brasileiro a chegar entre os oito melhores do mundo no German Beatbox Championship

Luana Avelarpor Luana Avelar em 23 de abril de 2026
beatbox
foto: arquivo pessoal

Nenhum brasileiro jamais venceu uma competição internacional de beatbox presencialmente. Penido, 20 anos, quer mudar isso em maio, em Berlim, onde vai disputar o German Beatbox Championship (GBC) 2026 entre os dias 15 e 17 de maio.

Para chegar até lá, fez uma aposta calculada: usar o funk brasileiro numa competição dominada por europeus e asiáticos. Funcionou. O vídeo “Bailando” o colocou em 4º lugar no ranking global de wildcards, processo seletivo em que artistas de todo o mundo enviam vídeos para avaliação de jurados. Entre centenas de inscritos, Penido foi um dos oito classificados para as batalhas presenciais na capital alemã.

“A primeira coisa que passou pela minha cabeça foi ‘finalmente eu consegui’, pois há tempos queria ser notado justamente pelo que me notaram, que é minha potência de beat”, diz. “Logo comecei a pensar no que deveria preparar para ganhar o evento”.

Penido mora na região noroeste de Goiânia, área afastada do centro e pouco ligada à cultura hip-hop. Aprendeu beatbox em 2020, quando um amigo apareceu com tutoriais da internet e ensinou o que sabia. Em cinco anos, sem escola, sem patrocínio e sem uma cena local que o sustentasse, chegou ao top 8 mundial.

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O que é beatbox

O beatbox é a produção de sons de bateria, efeitos eletrônicos e instrumentos usando apenas voz, boca e nariz. Ligado ao hip-hop desde os anos 1980, o estilo evoluiu para um universo próprio, com campeonatos internacionais, transmissões ao vivo e disputas que misturam técnica, criatividade e performance. O corpo inteiro é o estúdio.

No Brasil, a cena é pequena. “O beatbox é um dos pilares mais desvalorizados do hip-hop, com o menor número de praticantes no Brasil”, diz Penido. Em Goiânia, a equação complica: a cidade é identificada com o sertanejo, não com o hip-hop. “A noroeste é uma região mais afastada do centro, o que dificulta a visibilidade para eventos e divulgação”.

Mesmo assim, ele foi acumulando resultados. No último campeonato nacional, em São Paulo, conquistou o título para Goiás. Fundou também a CBB Beatbox Community, organização voltada para batalhas online e shows presenciais, com o objetivo de criar espaço para quem já pratica e atrair quem nunca ouviu falar. “Quero mostrar que é uma forma de expressão, uma arte que traz benefícios mentais e físicos sem quase nenhum custo”, afirma. “Eu mesmo aprendi muito sobre mim praticando beatbox. Me ajudou até a controlar minha ansiedade”.

A aposta no funk

O vídeo que classificou Penido não foi improviso. Foi cálculo. O funk brasileiro chamava atenção no exterior, mas quase ninguém de fora conseguia reproduzi-lo com autenticidade. Penido viu a brecha e ocupou.

“Vi que não tinha muita gente fazendo e decidi mostrar como se faz funk de verdade. Era também o melhor beat que eu tinha no meu arsenal até o momento”, conta.

O resultado veio rápido. Entre centenas de concorrentes espalhados pelo mundo, os jurados do GBC colocaram o goiano em 4º lugar no ranking global. A classificação confirmou o que ele já sabia: sua principal qualidade não é a variedade de sons, mas a potência. A força do beat que sai da boca.

Preparação e mentalidade

Para Berlim, a técnica já vem sendo trabalhada há anos. O foco agora é o repertório. “Estou criando músicas que transmitem mais da minha essência e personalidade em forma de beatbox”, diz. O objetivo é um set com ritmos variados, texturas e dinâmicas que mostrem mais do que capacidade técnica.

A mentalidade foi moldada depois do título nacional. “Dar e ser o meu melhor, sem me comparar. Treinar tudo que preparei até ficar confiante e executar com toda a minha alma. E se ainda assim não for suficiente, quer dizer que ainda tenho muito a melhorar”, diz. “Não abre espaço para pensamentos como ‘poderia ter sido diferente’, visto que dei o melhor que podia com o tempo e a mentalidade que eu tinha naquele momento”.

A viagem custa entre R$7 mil e R$10 mil, com passagens, hospedagem, seguro e a nova autorização europeia de viagem (ETIAS). Com o embarque se aproximando, Penido treina, monta o repertório e busca viabilizar os custos.

O que está em jogo

Fundado em 2002 como competição local alemã, o GBC cresceu e hoje é a principal porta de entrada para o Grand Beatbox Battle (GBB), o maior campeonato mundial da modalidade. Vencer é garantir vaga direta no GBB, palco onde os melhores beatboxers do planeta disputam o título supremo da arte.

Nenhum brasileiro chegou lá por esse caminho. Uma vitória em Berlim tornaria Penido o primeiro a ganhar uma competição internacional presencial e o primeiro a se classificar diretamente para o GBB. “Isso seria equivalente a ganhar um Oscar do beatbox”, define.

O impacto, segundo ele, iria além da carreira. “A visibilidade do beatbox brasileiro e principalmente de Goiânia vai aumentar bastante. Vai inspirar outros beatboxers de que é possível chegar lá, pois até então isso ainda nunca aconteceu”.

Só de estar entre os oito melhores do mundo já é inédito. O que vem depois, Berlim decide.

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