quarta-feira, 29 de abril de 2026
Educação

Escola vira linha de frente no acolhimento à saúde mental de crianças e adolescentes

Projeto aprovado na Câmara reforça debate sobre o crescimento de casos de TEA, TDAH e ansiedade e amplia discussão sobre o papel da escola no acolhimento e na identificação precoce das crianças

Letícia Leitepor Letícia Leite em 29 de abril de 2026
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Unidades de ensino assumem protagonismo na observação e no suporte inicial aos estudantes. Foto: Secom

A aprovação, em segunda votação, do Projeto de Lei 240/2025, que cria o Programa de Atendimento em Saúde Mental Escolar (Pasme), na Câmara Municipal de Goiânia, e segue para sanção ou veto do prefeito, amplia um debate que já faz parte da rotina das escolas: o crescimento de demandas relacionadas à saúde mental e aos transtornos do neurodesenvolvimento entre crianças e adolescentes.

Mais do que uma proposta legislativa, o avanço do projeto evidencia uma mudança no papel das instituições de ensino. Se antes a escola era vista prioritariamente como espaço de aprendizagem formal, hoje ela também se consolida como um ambiente estratégico de observação, acolhimento e identificação precoce de sinais de sofrimento psíquico.

A própria Secretaria Municipal de Educação (SME) reconhece esse cenário. A pasta informou à reportagem que tem observado aumento na identificação de estudantes com necessidades relacionadas ao desenvolvimento, à aprendizagem e à saúde mental. Entre os casos mais recorrentes estão o Transtorno do Espectro Autista (TEA), o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), além de quadros emocionais como ansiedade e depressão. Atualmente, a rede municipal atende cerca de 120 mil estudantes, dos quais aproximadamente 8,5 mil estão vinculados à Educação Especial.

O cenário acompanha um movimento mais amplo de ampliação dos diagnósticos e da compreensão sobre transtornos do neurodesenvolvimento. Com o avanço das pesquisas e o aprimoramento dos critérios clínicos, sinais que antes passavam despercebidos passaram a ser identificados com maior precisão — e, muitas vezes, a escola é o primeiro espaço onde eles se manifestam.

No caso do TEA, dificuldades persistentes na comunicação social, interação interpessoal e padrões repetitivos de comportamento costumam se tornar perceptíveis no convívio escolar. Já no TDAH, sintomas como desatenção, impulsividade e hiperatividade impactam diretamente o desempenho acadêmico e a dinâmica em sala. É nesse contexto que professores se tornam observadores fundamentais.

Embora a atuação da rede municipal seja exclusivamente pedagógica — sem competência para diagnóstico clínico ou tratamento terapêutico —, a SME destaca que as unidades escolares exercem papel essencial na observação, no registro e no acolhimento inicial.

Na prática, quando há sinais de possíveis transtornos emocionais ou do neurodesenvolvimento, a rede informa que adota um fluxo estruturado de acompanhamento pedagógico, comunicação com as famílias e articulação com órgãos de proteção. 

Mas o desafio vai além da identificação. Na rotina escolar, professores lidam diariamente com crises emocionais, dificuldades de socialização, desregulação comportamental e obstáculos de aprendizagem que exigem preparo técnico e sensibilidade.

A professora de apoio pedagógico Mariana Alves, que acompanha alunos com necessidades específicas na rede privada, afirma que o primeiro passo é abandonar generalizações. “Cada criança chega com uma história, um ritmo e uma necessidade diferente. O erro mais comum é tentar aplicar a mesma estratégia para todos. Inclusão exige olhar individualizado”, explica.

Segundo ela, muitos sinais aparecem no ambiente escolar antes mesmo de qualquer investigação clínica. “A escola percebe mudanças de comportamento, isolamento, dificuldade de interação, impulsividade, crises de ansiedade. Muitas vezes é ali que a família começa a entender que existe algo que precisa de atenção”, relata.

O desafio, segundo Mariana, é equilibrar acolhimento e aprendizagem. “Nem sempre a dificuldade está no conteúdo. Às vezes, a criança não consegue aprender porque está emocionalmente sobrecarregada ou porque o ambiente ainda não foi adaptado para ela.”

Atualmente, quando há necessidade de avaliação especializada, a secretaria orienta que as famílias busquem atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), por meio das Unidades Básicas de Saúde.

Para a professora, esse fluxo ainda pode ser lento diante das urgências do cotidiano escolar. “Entre perceber um sinal e conseguir atendimento especializado, muitas vezes existe um intervalo grande. E a escola continua lidando com aquela demanda todos os dias.”

É justamente nesse intervalo que o Pasme pretende atuar, ampliando o suporte especializado dentro do ambiente escolar. A proposta prevê atendimento voltado a crianças e adolescentes da rede pública e privada com transtornos neuropsiquiátricos e emocionais, fortalecendo uma atuação integrada entre educação e saúde.

A SME avalia a iniciativa como um avanço no fortalecimento das políticas intersetoriais. Para quem está na sala de aula, a medida pode representar suporte concreto.

“Professor não faz diagnóstico, mas está na linha de frente. Quando existe uma equipe preparada para orientar, acolher e construir estratégias junto com a escola, todo mundo ganha — o aluno, a família e os profissionais”, afirma Mariana.

Ela destaca que práticas simples, como reforço positivo, previsibilidade de rotina e construção de vínculos, podem transformar o processo de aprendizagem. “Às vezes, pequenas adaptações mudam completamente a experiência daquela criança dentro da escola.”

Na prática, inclusão é desafio diário dentro da sala de aula com as crianças

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Em meio ao aumento dessas demandas, professores se tornam peça-chave no acolhimento e na inclusão de crianças e adolescentes. Foto: Divulgação/SME

Na prática, a inclusão escolar é um exercício diário de adaptação, escuta e construção de vínculos. Para professores de apoio pedagógico, o trabalho com alunos neuroatípicos exige mais do que acompanhamento acadêmico: envolve mediação emocional, manejo comportamental e construção de estratégias individualizadas.

Mariana afirma que conhecer o aluno é o ponto de partida. “Antes de pensar em qualquer estratégia, é preciso entender quem é aquela criança, como ela se comunica, o que a desregula e quais são suas potencialidades.”

No caso do TEA, por exemplo, dificuldades de comunicação social e padrões repetitivos podem exigir adaptações na rotina e no ambiente. Já em casos de TDAH, manter foco, organização e controle de impulsos se torna parte do desafio pedagógico.

Segundo a especialista, uma das estratégias mais eficazes é transformar o aluno em participante ativo. “Dar pequenas responsabilidades dentro da sala ajuda muito. Quando a criança percebe que tem um papel importante naquele espaço, ela se engaja melhor.”

Outra ferramenta importante é o reforço positivo. “Valorizar pequenas conquistas faz diferença. Às vezes, aquilo que parece pequeno para um adulto é um avanço enorme para aquela criança.”

Ela também destaca a importância do acolhimento em momentos de crise. “Muitas crianças precisam ter um adulto de referência na escola, alguém em quem confiem para procurar quando estiverem desorganizadas emocionalmente.”

Para a educadora, a inclusão não é adaptar a criança ao ambiente, mas adaptar o ambiente para que ela possa aprender. “Incluir é reconhecer que cada aluno aprende de uma forma. Quando a escola entende isso, o desenvolvimento acontece de forma muito mais saudável.”

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