Baixa produtividade e “custo Brasil” ampliam distância de renda do país em relação ao mundo
Enquanto isso, países que tinham patamar semelhante ao Brasil avançaram ao investir em educação, tecnologia e maior integração ao comércio internacional
O Brasil segue ampliando a distância em relação à média global quando o assunto é renda por habitante. O PIB per capita, indicador que mede a média de riqueza disponível por pessoa, tem crescido em ritmo inferior ao de outras economias, reflexo de entraves estruturais que ainda limitam o avanço do país.
Para a economista e analista de mercado Greice Guerra Fernandes, o cenário está diretamente ligado a problemas históricos e à dificuldade de sustentar ciclos de crescimento. Segundo ela, o país alterna períodos de expansão e retração, sem manter um ritmo contínuo, o que impacta diretamente o ganho de renda da população.
Entre os fatores que explicam esse desempenho estão a baixa produtividade, os investimentos insuficientes e um ambiente de negócios considerado complexo e pouco atrativo. “Esses elementos dificultam a entrada de capital e travam o crescimento econômico, refletindo na renda da população”, afirma.
A economista também aponta a baixa qualificação da mão de obra como um dos entraves. A falta de especialização e os desafios na educação reduzem a capacidade produtiva e limitam o potencial de crescimento.
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A análise é reforçada pelo economista Leonardo Ferraz, que destaca a baixa eficiência da economia brasileira. Segundo ele, o país investe pouco em áreas estratégicas como infraestrutura, tecnologia e educação de qualidade, o que resulta em crescimento lento e abaixo do ritmo internacional.
“O Brasil tem um ambiente de negócios desestimulante, com muita burocracia e carga tributária elevada. Isso encarece a produção e reduz a competitividade”, explica.
Ferraz também chama atenção para o chamado “custo Brasil”, que reúne fatores como sistema tributário complexo, insegurança jurídica e problemas logísticos. Na prática, produzir no país se torna mais caro, lento e arriscado.
Outro ponto destacado pelos especialistas é o peso histórico da década de 1980, conhecida como “década perdida”. O período deixou como herança crises fiscais, inflação elevada e baixos níveis de investimento, cujos efeitos ainda impactam a economia.
Enquanto isso, países que tinham patamar semelhante ao Brasil avançaram ao investir em educação, tecnologia e maior integração ao comércio internacional. “Essas economias criaram ambientes mais favoráveis e se tornaram mais competitivas, enquanto o Brasil permaneceu mais fechado e burocrático”, avalia Ferraz.
Apesar do cenário nacional, há sinais positivos em nível regional. Em Goiás, por exemplo, a economia tem crescido acima da média do país, impulsionada pelo agronegócio e pela indústria de alimentos. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam taxa de desocupação de 4,6%, a menor desde 2012.
Ainda assim, o desempenho regional não é suficiente para reverter o quadro geral. O Brasil segue como uma economia emergente, com crescimento considerado moderado e abaixo do necessário para reduzir a diferença em relação aos países mais desenvolvidos.
Além disso, parte do crescimento recente não está necessariamente ligada ao aumento da produtividade, mas a estímulos pontuais na economia, o que dificulta a sustentação no longo prazo.
Para os especialistas, o país precisa avançar em reformas estruturais, melhorar o ambiente de negócios e ampliar investimentos em educação e inovação. Caso contrário, há risco de o Brasil ficar ainda mais distante das novas transformações econômicas, como o avanço da inteligência artificial.
Apesar dos desafios, Ferraz destaca que o país ainda possui potencial, especialmente pelo tamanho do mercado interno, pela força do agronegócio e pelo sistema financeiro desenvolvido — fatores que podem ser estratégicos em um cenário de transformação tecnológica.